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Até porque ser normal demais é muito chato.

Lá vem a ABC apresentando mais uma série familiar. Uma aposta segura que, convenhamos, não podemos condenar: afinal, a CBS faz o mesmo com os seus procedurais e funciona. Dito isso, The Real O’Neals trata de vários tabus dentro de uma família considerada perfeita, mas como a grande maioria das famílias que conhecemos, tem diversas imperfeições que os tornam humanos diante dos olhos dos outros.

A série mostra uma família de Chicago, com raízes católicas, que vê tudo ruir quando cada membro da família começam a receber os seus choques de realidade, revelando para eles mesmos e para a comunidade os seus segredos. E esse momento de ‘libertação’ (sim… pois a verdade sempre te libertará) acaba mudando a vida desse núcleo familiar para sempre.

Por exemplo, a mãe, Eileen O’Neal (Martha Plimpton) é uma matriarca controladora, possessiva e vive de aparências. Quer ser a cristã perfeita, mas não passa de uma hipócrita. É casada com Pat (Jay R. Ferguson), o ‘mais normal’ (ou menos perturbado) da família, policial que cumpre com o seu dever e segue a lei, mas justamente por viver uma vida centrada e presa demais por Eileen, quer o divórcio. Não aguenta mais a esposa tentando viver a vida perfeita apenas para suplantar os deslizes dela do passado.

Tal desajuste do casamento dos pais se reflete nos filhos. A série em si é narrada pelo filho do meio, Kenny (Noah Galvin), que viveu uma vida programada e obrigado a manter um namoro com uma menina que nem ele, nem a mãe gostavam, entende que aos 16 anos ele precisava revelar para a família que é gay. O mais velho, Jimmy (Matthew Shively), sempre orientado a ser um atleta para ir para uma boa universidade, revela que é anoréxico. E a mais nova, Shannon (Bebe Wood), além de ser uma ladra mirim, começa a questionar sua fé.

Tudo isso, para desespero de Eileen.

Agora, como toda a comunidade católica sabe todos os devastadores segredos dos O’Neals, só restam uma coisa a fazer: viver a realidade de suas vidas, seguir em frente e mudar a perspectiva de como eles se enxergam dentro desse novo mundo que se abre para eles. Como eles lidam com essa realidade que eles esconderam deles mesmos, enfrentando uma comunidade com valores extremamente conservadores.

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The Real O’Neals segue o sistema de séries familiares que já conhecemos na ABC: uma tema central, uma família disfuncional, e situações absurdas. Logo, não temos nada de surpreendente na adoção dessa fórmula. Como disse, é a aposta segura da ABC, e acho que o canal tem que fazer isso mesmo. Funciona muito bem com as outras séries, e só aumentam as chances dessa aqui vingar.

Podemos dizer que os dois primeiros episódios da nova comédia da ABC são ‘simpáticos’. Não são episódios que vão fazer você morrer de rir, mas cria uma empatia natural pelos personagens centrais. O elenco é bom, equilibrado, e te convence a pelo menos assistir o segundo episódio sem maiores problemas. Martha Plimpton está mais uma vez muito bem no papel de mãe neurótica. Aliás, é uma baita atriz, independente do tipo de papel que faça. Destaque também para Bebe Wood, que apesar de fazer mais uma menina nerdinha (lembram de The New Normal?), manda bem nessa proposta.

Outro ponto positivo de The Real O’Neals é o texto da série. Não é um texto muito complicado, mas ao mesmo tempo é ágil o suficiente para te manter atento nos acontecimentos da série. Aliás, o plot geral ajuda no seu texto: como a série naturalmente trata de temas polêmicos (homossexualismo, religião, aceitação, a crença em Deus…), ela tende a ser mais incisiva em determinados diálogos, buscando dar umas cutucadas de leve no falso moralismo que muita gente tem (e está representado na matriarca Eileen) e nos problemas que muitos membros de famílias altamente religiosas enfrentam todos os dias.

Em resumo: The Real O’Neals tem potencial para dar certo na ABC. Segue à risca o tipo de comédia que a audiência do canal consome, e como os católicos são minoria nos Estados Unidos, não deve causar muita revolta junto ao norte-americano médio. Vamos ver se consegue se sustentar na audiência para garantir novas temporadas.

Isso, e lidar com as mudanças mais profundas que a ABC está promovendo internamente.