Shades-of-Blue

Jenny from the block is a cop!

A NBC estreia Shades of Blue, ou o que posso chamar de “conflito de interesses”. Explico: a protagonista/produtora executiva da série é ninguém menos que Jennifer Lopez, que nesse momento é jurada da temporada final de American Idol, exibido pela Fox. Felizmente, nos Estados Unidos, os artistas podem participar de produções de diferentes canais de forma simultânea, uma vez que o Sindicato dos Atores é mais forte do que os tais contratos de exclusividade. Mesmo assim, é no mínimo curioso e raro de acontecer. Mas isso não é o mais importante nesse post.

O que realmente importa é que a NBC investe mais uma vez em uma procedural com uma protagonista feminina, um segmento que está se fazendo forte no canal (Law & Order: SVU e The Mysteries of Laura provam isso), sem falar que a própria TV aberta está “voltando ao passado”, onde as séries investigativas estão preenchendo a grade de programação, já que são as que mais dão audiência hoje. Porém, Shades of Blue tenta sair um pouco do lugar comum, tentando levantar o debate sobre uma das questões éticas mais emblemáticas da história da Humanidade: “os fins justificam os meios?”.

A série acompanha a vida de Harlee Santos (Jennifer Lopez) uma detetive da polícia de Nova York e mãe solteira. Harlee sofre com problemas financeiros, e sempre procurou trabalhar de forma ética e honesta. Acredita na justiça e no sistema como se ele fosse a base da sua vida. Porém, um dia, ela percebe que nem tudo é do jeito que ela sempre idealizou. Aliás, ela não só percebe, como ela descobre.

Harlee se envolve em uma investigação anti-corrupção do FBI, e descobre que alguns dos seus colegas de trabalho, pessoas com quem ela conviveu por anos, que ela confiava como se fossem pessoas de sua família, estão envolvidos em atividades criminosas dentro da polícia. Suborno, propinas, adulterar provas, tráfico de influências e manobras das mais diversas categorias, que ou ocultam atos criminosos, ou beneficiam alguns criminosos, ou agilizam de alguma forma o processo de justiça.

Para piorar a situação, a filha de Harlee é indiretamente envolvida em todo o esquema, e é utilizada como forma de pressionar a nossa protagonista a tomar atitudes indesejadas. Ela acaba se envolvendo profundamente em um esquema criminoso que é maior do que ela, o que vai exigir dela uma decisão complexa e de consequências irreversíveis: ou fazer a coisa certa pela sua filha, ou cobrir as atitudes criminosas dos seus colegas de trabalho corruptos.

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Shades of Blue trabalha com a já conhecida fórmula de dilema ético dentro das vias da justiça, que dificilmente dá errado. Vide Chicago P.D., que explora a questão de “os fins justificam os meios” de forma muito competente. É como eu já disse: parece que a NBC sacou o que o seu público quer ver nas séries dramáticas, e segue investindo no formato que melhor funciona. Não que a série de Jennifer Lopez se equipare ao drama de Dick Wolf. Só estou ilustrando a similaridade do argumento geral.

Talvez a coisa que mais me incomode em Shades of Blue seja justamente a Jennifer Lopez no papel de policial/mãe solteira em Nova York. Não sei: soa forçado e estereotipado para mim. Mas isso é um problema meu, por não achar J-Lo essa atriz toda. Acho que conjunto geral da série é bem formatado e razoavelmente bem executado, ilustrando muito bem como essa questão ética pode afetar as ferramentas que deveriam estabelecer a justiça sem a interferência de outros meios ou interesses.

O piloto de Shades of Blue, em linhas gerais, e bom e bem estruturado. Talvez não empolgue muito aos usuários mais exigentes, mas nem por isso podemos dizer que ele é completamente fraco e desnecessário. Ele pode ser considerado mais ou menos, na pior das hipóteses. É uma série que aparentemente é bem produzida, e seu roteiro não tende a apresentar grandes barrigas ou acontecimentos absurdos (talvez uma ou outra coisa que você pensa: “com um policial bem treinado, isso jamais aconteceria”).

Do mais, Shades of Blue, com alguma sorte, pode vingar. Deu a maior audiência da NBC de um evento não-esportivo em anos (também, pudera: só passava comédias com audiências ridículas nas noites de quinta-feira), e isso pode dar um gás para a série prosseguir e alcançar a renovação. Entendo que, se ao longo da temporada eles fizerem o serviço direitinho, a renovação vem com relativa facilidade.

Vale a pena ao menos conferir o piloto, apenas para tirar as suas conclusões. E não será nem pela bunda da Jennifer Lopez (que não aparece no piloto).