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A arma mais perigosa do ser humano é a língua. Afinal, é nessa parte do corpo que se concentra todo o veneno. E me incluo nessa regra. A grande maioria de nós aqui do SpinOff (e de outros blogs de séries que eu e você bem sabemos quais são) simplesmente detonaram a série Sexo e as Negas (Rede Globo), sem ver o primeiro episódio, sem conhecer a trama, e sem ter as tais primeiras impressões. Pois bem, começo o texto dizendo que a série não é tão ruim assim. Muito pelo contrário.

Tenha sempre em mente que a série é uma adaptação de Sex and the City (HBO). Aliás, Miguel Falabella (criador da série) sempre afirmou que a série da HBO sempre foi uma “inspiração” para a sua série (seria para evitar o pagamento de royalties?), e isso fica evidente em suas escolhas. Algumas descaradamente evidentes.

Sexo e as Negas conta a história de quatro amigas, moradoras de uma comunidade do subúrbio carioca. Um bairro qualquer. Poderia ser o bairro que o @edu_sacer mora, por exemplo. A diferença é que essa comunidade foi fundada pelos avós de Jesuína (Claudia Gimenez), que será o “fio condutor” das histórias da trama. Seria o equivalente à Carrie Bradshaw na adaptação – já que toda a história tem a sua ótica narrativa -, mas como o grupo de quatro amigas tem a sua Carrie, Jesuína fica apenas com a função de observadora mesmo.

É no bar de Jesuína (e não em algum restaurante chique de Nova York) que as amigas Zulma – ou Carrie (Karin Hills), Tilde – ou Charlotte (Corina Sabbas), Lia – ou Miranda (Lilian Valeska), e Soraia – ou Samantha (Maria Bia) se encontram para discutir os seus projetos de vida, os seus sonhos e, é claro, suas aventuras sexuais. Lembrando: todas as associações feitas com Sex and the City foram feitas de acordo com os traços mais evidentes da personalidade das citadas.

O principal personagem masculino da série é Big – ou Mr. Big (Rafael Machado), o objeto de desejo das mulheres da comunidade, por conta da referência do seu apelido. É funcionário de Jesuína no bar, deixando nas entrelinhas um interesse por ela que vai além do profissional. Jesuína está a fim do Big, mas nenhum dos dois deixam isso evidente (e isso reforça ainda mais a “tendência” de Carrie para a dona do bar).

Alguns personagens foram adicionados, mas não fazem muito sentido de existirem dentro do cenário sugerido na série. Por exemplo, Gaudéria (Alessandra Maestrini), que tem origens sulistas arraigadas, e esse é o último tipo de pessoa que se imagina encontrar em uma comunidade carioca. Ela só não vira um peixe fora d’água na série porque vai passar a temporada toda arrumando encrenca com Tilde, por conta do seu relacionamento com o seu irmão, Vinagre (Frank Borges).

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A grande lição que Sexo e as Negas deixa é que Miguel Falabella não precisa se esforçar muito para produzir algo muito melhor do que aquele lixo fétido chamado Pé na Cova.Uma das coisas que me incomoda no “humorístico” que “parodia” Six Feet Under é que era um tipo de série que satirizava de forma vexatória a “galera da comunidade”, dando a entender que todo mundo que vive lá é no nível bagaceira total, com um pensamento imbecil e comportamento de retardado. Sexo e as Negas é o oposto disso.

É possível ver uma série de pessoas normais, com planos de vida, cotidiano e sonhos de pessoas normais. Comprar um carro usado, se casar e ter filhos com o grande amor, subir na vida, ir pro baile funk no final de semana… em resumo, não me senti um imbecil ao assistir o piloto. Aliás, a série até oferece algumas viradas de argumento minimamente interessantes (como o fato de Lia, aos 38 anos, já ser avó). Mas, calma: nada muito aprofundado ou complexo.

A produção de Sexo e as Negas também é algo mais digno. Fotografia e produção bem feitas, além da direção da competente Cininha de Paula. O elenco é promissor (sim, você leu certo: a Karin do Rouge é uma das protagonistas), e mesmo com algumas escorregadas no roteiro e resoluções óbvias de certos plots, o piloto da série é bem assistível. Muito melhor que o desastre pintado na minha mente.

Sexo e as Negas recebeu muitas críticas e pré-conceitos antes de sua estreia, acusando Falabella de criar uma obra preconceituosa, calcada nos esteriótipos. Não é bem assim. Entendo que a série não mostra nada de muito diferente de outras produções do gênero (todo mundo falou bem de Cidade dos Homens, lembra?), mas focado nas mulheres negras do subúrbio carioca. O mais legal de tudo é que não são mulheres lindas, beldades maravilhosas, que poderiam ter como principal chamariz o seu potencial sexual. Nada disso.

São quatro mulheres esteticamente comuns, mas que tentam mostrar suas diferentes personalidades. É claro que a série tem cenas de sexo (todas na penumbra, nem peitinho tem), pois é um dos plots principais da trama, mas as protagonistas não ficam o piloto todo falando disso. Até porque todo mundo ali tem vida normal, felizmente.

No final das contas, Sexo e as Negas está com saldo positivo. Não cravo aqui que a série é “ótima, incrível, você tem que ver de qualquer maneira”, mas como a minha última referência de Miguel Falabella é o cocô que ele lançou na nossa cara chamado Pé na Cova, eu não poderia esperar nada de sua nova produção. Por conta disso, fui positivamente surpreendido por encontrar uma série muito melhor estruturada, e com uma proposta mais interessante do que acompanhar a vida de uma família de coveiros imbecis.