Please-Like-Me

Acho que nós, fãs de séries, devemos olhar um pouco para o que acontece fora do eixo EUA/Reino Unido. Ótimas produções estão em produção, aparecendo em diversos locais do mundo, e a gente nem se dá conta direito disso. Um claro exemplo do que estou falando é a comédia/drama Please Like Me, do canal australiano ABC2. Vi os diversos comentários que os fãs brasileiros estavam fazendo sobre a produção, e decidi ver os dois primeiros episódios. E me arrependo por não ter visto antes.

A série e criada, roteirizada e protagonizada por Josh Thomas, que contou com a ajuda de Todd Abbott para criar a história de Josh, que nos seus 20 e poucos anos de idade, toma um pé na bunda da namorada pelo motivo mais peculiar possível: ela joga na cara dele o “você é gay, e por causa disso, estou terminando com você”. Talvez Josh não tivesse se dado conta disso (ou ele forjou o namoro para não deixar que sua família percebesse), mas de qualquer forma, ele decide então se redescobrir nessa situação, e começa a namorar firme com um homem.

Porém, durante esse processo importante de sua vida, Josh tem que lidar com a difícil situação de sua mãe, que foi trocada por uma moça mais nova pelo pai de Josh. Por conta disso, desenvolveu um quadro de depressão, e chegou a tentar o suicídio. Josh então decide ficar com a mãe até que ela se sinta mais estável emocionalmente. Ao mesmo tempo, tenta se manter emocionalmente estável e otimista diante dos demais familiares (que são meio malucos), os amigos (que ele não quer envolver nos problemas de sua família) e o namorado (que ele não quer frustrar).

Os dois primeiros episódios de Please Like Me são ótimos. A produção consegue equilibrar muito bem os momentos de drama e comédia, sem ser piegas em nenhum dos dois lados. Aliás, a principal característica da série é ser totalmente desprovida de pretensões, chegando a ser uma série até descolada em alguns momentos. Josh Thomas quer apenas contar a sua série, apresentar os seus personagens e mostrar uma faceta da vida que para muitos jovens de sua geração é completamente plausível.

Outro ponto positivo da série é a carisma que os seus personagens despertam logo de cara. A mãe de Josh, que se sente perdida com ela mesma, mas lúcida a ponto de compreender que precisa de ajuda; o pai, que mesmo com outra, se preocupa com a ex-esposa (até demais, em alguns momentos); a ex-namorada de Josh, que de forma muito compreensiva, abre mão do namorado (até perguntando se ele não gostava de transar com ela); os amigos, que buscam entender as barras de Josh… enfim, todos em sincronia com a proposta simples da série.

Até mesmo a antipática Tia Peg, que produz uma das melhores (e mais constrangedoras) piadas do ano.

Por fim, recomendo Please Like Me para todos. Não é uma série sobre o universo gay. É uma série sobre alguém que está se redescobrindo no momento mais conturbado de sua vida. Mostra como alguém precisa se desdobrar para atender a todos, cuidar de quem mais ama, e querer que alguém o ame, do jeito que ele é. É a série que você pode rir e se emocionar sem se forçar a fazer uma coisa ou outra. Porque se comunica de forma bem simples e direta com sua audiência.

Temos muita sorte em vivermos hoje a “era da internet”. Graças à ela, nós vemos o que está acontecendo do outro lado do mundo. Aliás, um último registro: o canal Pivot 1 ganha pontos conosco. No lugar de fazer uma versão adaptada da série para o mercado norte-americano (algo que é muito comum), não só eles exibiram a primeira temporada exibida na Austrália na íntegra, como vai co-produzir uma segunda temporada. Exatamente do jeito que Josh Thomas idealizou.