Bom, vamos respirar fundo e tentar ser o mais centrado possível para escrever esse texto. Eu sei, é difícil, mas vamos tentar. Estreou ontem (24) na Rede Globo a série de comédia Pé na Cova, de responsabilidade de Miguel Falabella. É bom a gente colocar nessa forma porque, diante dos resultados, muito mais que autoria, Falabella tem a responsabilidade sobre tudo o que foi apresentado nesse primeiro episódio. Como somos pessoas legais, vamos te inteirar de todos os fatos, antes de emitir nossas opiniões.

Vamos lá. Pegue Six Feet Under. Pegou? Ok, agora pegue uma boa dose de A Grande Família. Coloque todos eles no bairro do Irajá, no Rio de Janeiro. Pegue diversas figuras pitorescas, que poderiam muito bem estar no Zorra Total. Coloque tudo isso na TV. E temos Pé na Cova. Tá, foi simples a explicação. Vamos mostrar em detalhes do que se trata, e de forma séria, como é peculiar desse blog.

A história se centra na família Pereira, que cuida de um negócio funerário e seus amigos/funcionários, que ajudam a fazer o negócio ir para frente. O chefe da família e da empresa funerária é Ruço… sim, é assim que se escreve (Miguel Falabella), que quer reconstruir sua vida ao lado de Abigail (Lorena Comparato), ninfeta órfã de 19 anos de idade, que vai morar com ele. O problema é que sua ex-esposa, Darlene (Marília Pera) volta da clínica de reabilitação (ou Alcoólicos Anônimos, talvez…), com uma garrafa de bebida na mão, dizendo que vai voltar a morar com Ruço. Resultado: seu Florindo e suas duas mulheres.

Ruço tem dois filhos. Odete Roitman (Luma Costa) é a filha mais velha, culta, porém, gostosa. E, obviamente, se destaca pelo segundo predicado. Faz strip-tease pela webcam na casa de Ruço (e a mãe Darlene se orgulha por isso) e namora com Tamanco (Mart’nália) uma mecânica que vive no mesmo bairro da família. O outro filho é Alessanderson (Daniel Torres), que tem cara de mauricinho, jeito de mauricinho, e um objetivo na vida: ser vereador. Por que? Porque “ele ouviu o chamado”.

A vizinhança de Ruço é cercada de personagens pitorescos. Marcão (Maurício Xavier) é colega de trabalho de Tamanco na oficina mecânica… mas de dia. De noite, é Markassa, a drag-queen oficial do bairro. Bá (Niana Machado) é a velhinha louca da família, que não fala coisa com coisa. Juscelino (Alexandre Zachia) é o “pau pra toda obra” da funerária, mas que não tem um QI muito elevado para suas funções (ou baixo o suficiente para fazer as coisas sem matar ninguém pelo caminho), Adenóide (Sabrina Korgut), a empregada que consegue ser mais pobre que a família de Ruço (que ao menos tem grana para comprar uma TV nova), as gêmeas (nem tanto) Soninja (Karin Hils) e Giussandra (Karina Marthin), que são as periguetes/donas do estabelecimento de vendas de lanches “Cachorras-Quentes” (fiquem com essa piada na cabeça), e Luz Divina (Eliana Rocha), irmã de Juscelino e velha carpideira oficial da funerária. Meia louca, tal como o irmão.

Ufa. Pronto. Agora podemos falar de tudo isso.

Bom, o Falabella avisou na coletiva de apresentação de Pé na Cova para não esperarmos nada filosófico na produção. Ok. Mas não imaginava que ele fosse “descer o grau de dificuldade” a níveis tão primários. Eu confesso que fui ver o primeiro episódio com o coração aberto, mas com dez minutos eu já estava prestando tanta atenção, que comecei a chamar a série no Twitter de Pé na Jaca (uma novela da Globo). Isso mostra o quanto a série me prendeu. Tudo bem, vamos fazer coisas populares, que se identifiquem com boa parcela da população (apesar de eu desconfiar que estamos falando de uma parcela específica, que mora no Rio de Janeiro, e não de boa parte do Brasil, como Falabella diz…). Agora… precisava apelar para personagens, roteiro e argumentos que poderiam muito bem ser vistos em Zorra Total?

Não é dizer que não gostei de Pé na Cova. Tá, eu não gostei, e acho que ao dizer isso estou elogiando o que eu vi. O problema é que esse primeiro episódio não me fez rir um segundo sequer. E, para mim, uma comédia precisa fazer isso. Alguns pontos da proposta são bem pensados, e Falabella quer até explorar assuntos mais ousados na nossa sociedade, como um casal gay, uma travesti assumida, o alcoolismo, política, o problema do subemprego, e principalmente, como as pessoas se relacionam com a morte de diferentes maneiras. Porém, tudo isso é jogado por terra com personagens caricatas demais, diálogos fracos, e uma química que não se estabeleceu no elenco logo de cara.

Posso garantir que não foi má vontade da minha parte. Assisti o episódio na íntegra (apesar da tentação de querer mudar de canal a todo instante), observei bem qual era a proposta a ser alcançada, mas… não desceu. Não é nem o tipo de série que dá pra ser odiada por ser ruim. Talvez a gente se pergunte se a Rede Globo só quer fazer TV para um segmento de público (aquele que assiste o Esquenta todo domingo) ou se eles realmente acreditam que é essa a linguagem de televisão que mais dá audiência para eles. De novo, o problema não é a série ser voltada para o popular, ou usar uma linguagem popular. O problema é que Pé na Cova não é engraçada. Em alguns momentos é até sem sentido, e me pergunto se quem aprovou o projeto acreditando que ele seja realmente bom. Provavelmente foi aprovado porque eles (lá na Globo) sabem que vai alcançar o tal público-alvo da emissora.

Que, com certeza, não sou eu.