Eu precisei de três episódios para entender qual é a real proposta de Legit, nova comédia do FX, criada por Peter O’Fallon e por Jim Jefferies. Sem ler nenhum tipo de sinopse prévia, você pode ficar meio perdido e achar o piloto sem sentido algum. Porém, quando você vê o segundo e terceiro episódio, entende que a série tem um propósito, que vai além de mostrar apenas a escrotidão (quase) peculiar de um stand-up comedy. A seguir, minhas impressões.

Legit é baseada na história do comediante de stand-up australiano Jim (Jefferies), que se muda para Los Angeles depois de sua vida na Austrália virar uma grande porcaria. Na esperança de viver dias melhores, ele vai se encontrar com seu melhor amigo, Steve (Dan Bakkedahl), um recém divorciado de um casamento de oito anos, que é neurótico, e passa a maior parte do tempo cuidando do seu irmão, Billy (DJ Qualls), que sofre de distrofia muscular. Ao ver esse cenário, Jim, que não consegue se relacionar direito com as pessoas, entende que precisa fazer alguma coisa para deixar a sua vida menos tediosa e, de quebra, tirar os amigos das tragédias de suas próprias vidas.

E qual é a melhor forma de fazer isso? Simples: Jim entende que precisa levar Steve e Billy para uma viagem de “carpe diem do capiroto”, regada por bebidas, prostitutas e drogas. Literalmente.

Jim faz isso não só para colocar um sentido na sua vida. Na verdade, Jim não quer sentido nenhum. Só quer ganhar dinheiro e pegar algumas mulheres. Mas entende que uma das formas de fazer isso é apresentando um novo foco de vida para os dois melhores amigos. É claro que isso deixa algumas “sequelas” pelo caminho. A principal delas é que Janice (Mindy Sterling), mãe de Steve e Billy, fica praticamente louca com a hipótese do irresponsável do Jim cuidar de seu filho (ou dos dois, pois Steve é uma criança crescida), mas não pode fazer nada, uma vez que Billy acredita que com Jim ele vai viver de forma muito mais intensa do que preso em uma cama de uma casa de repouso… que, por sinal, ele foi expulso, depois de Jim o “sequestrá-lo” de lá.

Você pode achar a premissa de Legit dramática em muitos pontos, mas posso te garantir que não é. Estamos diante de uma comédia do FX de verdade, bem bagaceira, com diálogos e situações adultas. O personagem de Jim beira ao escroto em algumas situações, mas a condição de Billy o coloca em uma condição onde ele tem que fazer coisas que nem ele imaginava que fosse capaz de realizar para que seu amigo possa ver e viver o mundo por outra perspectiva. A mais branda (acredite em mim, é mesmo a mais branda) foi colocar o amigo deficiente no carro, viajar por quilômetros apenas para que ele tivesse a sua primeira vez (com prostitutas, é claro). E lá, Jim descobre que “Billy é bem mais do que aparenta” (para ser bem discreto, pois esse é um blog de família).

O grande mérito de Legit é combinar as situações escrotas ou piadas típicas de um stand-up comedy em um cenário relativamente dramático, e não simplesmente fazendo piadas escrotas e constrangedoras, sem objetivo algum. É mais branda que Louie no sentido “vamos ser bagaceiros”, mas a série tem os seus momentos de “pé na jaca”. Mas, mesmo assim, a história tem uma continuidade, ou ao menos um objetivo linear: mostrar como Jim e Steve vão fazer para tornar a vida de Billy melhor, mesmo que por mais algumas semanas, já que tudo indica que o rapaz pode morrer a qualquer momento, caso não receba os cuidados adequados. Na verdade, não é nada disso: é apenas a neurótica da mãe dele, que acreditava que sabia o que era melhor para Billy, e deixava o coitado em uma cama de uma casa de repouso, sem ter uma vida.

Particularmente, recomendo que você veja pelo menos os três primeiros episódios de Legit. Não se baseie pelo primeiro, pois ele não passa toda a ideia geral da série. Cheguei a imaginar que a série seguiria o mesmo ritmo de outras produções, onde a cada semana é abordado um personagem diferente, uma situação diferente, ou um grupo de personagens diferenciados. Nada disso. Só o fato de saber que vou continuar a ver como Jim vai dar ao Billy “a vida que ele pediu a Deus”, já vale a pena. E acho que a série pelo menos faz a tentativa de mais uma vez mostrar ao telespectador que uma distrofia muscular não vai acabar com a sua vida. Só impossibilita que você segure o bong de maconha em momentos específicos.