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Até porque as histórias de vida se repetem. Em várias ocasiões.

Em 1987, a ABC estreou Full House, uma comédia leve e descomplicada com um plot centrado na ideia de que “família é aquele grupo de pessoas que nos cercam”, ou aquelas pessoas que estão conosco para o que der e vier, mesmo não sendo sangue do nosso sangue. A série durou oito temporadas, e conquistou um número considerável de fãs ao longo de pelo menos duas gerações de telespectadores, além de colocar John Stamos e as irmãs Olsen no mapa.

Pensando no sentimento de nostalgia que hoje é mais e mais emergente na televisão (sim, pois a audiência mais nova não liga muito para essa coisa chamada TV), a Netflix decidiu fazer um spinoff de Full House, mostrando como todas aquelas crianças cresceram e vão se colocar na mesma situação que seus pais se colocaram. Fuller House é a repetição do mesmo tema, com outros protagonistas, mas com a mesma dinâmica e situações inusitadas.

O nome da série, além de ser uma variação do título original, é um trocadilho com a nova protagonista da trama, D.J. Tanner-Fuller, viúva recente, mãe de três filhos e veterinária. Seu marido faleceu defendendo a pátria, e por conta disso, ela acabou voltando para San Francisco para basicamente voltar para as origens de sua vida: morar com os pais, Danny e Terri Tanner, e com os melhores amigos dos pais, Jesse Katsopolis e Rebeca Donaldson-Katsopolis, além do amalucado e bem humorado tio Joey Gladstone.

Acontece que todo mundo cresceu, inclusive os seus pais e tios. Danny está se mudando para Los Angeles com a esposa para apresentar um novo talk show diurno, ao lado da esposa de Jessie. Joey já está em Las Vegas a algum tempo, seguindo com a sua vida de comediante. D.J. começa a se ver sozinha e com todas as responsabilidades e implicações de ser uma mãe com três filhos e sem a presença de uma imagem paterna.

Ao ver esse cenário de caos, sua irmã Stephanie, que recém chegou da Europa, decide ficar com ela para dar uma força. Até porque ela não tinha nada muito melhor para fazer, exceto vir para o Brasil. De quebra, sua melhor amiga Kimmie, vizinha dos Tanner, também decide se mudar para morar com as irmãs Tanner com a sua filha Ramona, por entender que poderia ajudar… e porque esse era o grande sonho de sua vida.

A irmã mais nova de D.J., Michelle, poderia ajudar. Mas ela está em Nova Iorque, “seguindo adiante com os seus compromissos no mundo da moda”. A comunidade (e John Stamos) agradecem, pois não são poucos os que queriam ver as irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen longe desse spinoff.

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Cartas na mesa, Fuller House cumpre com o seu objetivo de ser uma série 100% nostálgica, voltada para os fãs de Full House. Apesar de algumas quebras de quarta parede explícitas no piloto, a produção não teve muitas preocupações em localizar alguns personagens e situações, o que faz com que os mais novos assistam a uma série completamente inédita. E a consequência disso é que algumas pessoas podem naturalmente não se interessar pela série. Algo até natural, ainda mais para uma sitcom.

Outro detalhe muito importante é que as pessoas não podem se deixar enganar pelo piloto. Os personagens mais veteranos (ou o elenco principal de Full House) não aparece o tempo todo na série. São convidados especiais. Estão mais presentes no piloto, e só vão aparecendo com participações pontuais ao longo dos episódios. A série gira em torno mesmo de D.J., Stephanie, Kimmie e seus respectivos filhos. São eles que dão ritmo e tom à série.

E falando nesse aspecto, Fuller House tem exatamente a mesma pegada de Full House, o que tem um lado bom e outro ruim.

O lado bom é que os fãs da série terão uma história, narrativa, diálogos e situações que são muito semelhantes ao que eles já viram na série original. Ou seja, para esse grupo, a diversão está garantida. E, nesse aspecto, a série consegue alcançar o seu objetivo principal: se conectar com a sua audiência mais veterana.

O lado ruim é que Fuller House é uma sitcom da década de 1980-1990, tal como a original, mas em exibição em 2016. Automaticamente a série é rejeitada por uma boa parcela da audiência, que não mais consome séries nesse formato. É claro que algumas piadas são atualizadas, mostrando que estamos sim em 2016. Mesmo assim, o que complica é que a sua mecânica de episódios é mais básica possível, deixando a série sem muitos objetivos no desenvolvimento de sua história.

Não espere de Fuller House aquela série que vai fazer você se escangalhar de rir. As piadas são previsíveis e bobinhas. E precisam ser, já que é uma típica sitcom familiar, que precisa ser acessível para públicos de todas as idades. É um mérito ter colocado praticamente todo o elenco de Full House para fazer esse spinoff, inclusive no elenco infantil (na época em que a série original foi exibida), mas isso pode ter o seu preço, como algumas atuações mais engessadas e caricatas.

De qualquer forma, Fuller House está na média. Não é algo espetacular, mas também não é algo que ofende. Entendo que não é a série para conquistar uma nova geração de fãs, mas sim trazer um belo agrado para os fãs da série original. Trazer esses personagens de volta é algo bom. Ver essa lição do “a família que você escolhe para você” é algo ainda melhor. Mas nada além disso.