Amigo leitor/fã de série mais chato e exigente: por favor, não me faça escrever duas resenhas. Afinal de contas, estamos falando de duas séries. Ou de uma série dentro de outra série. Cult vem aí, e temos que explicar, nos mínimos detalhes, como essa série consegue “dar a volta”, ou seja, de tão ruim, consegue ser boa. Mesmo não sendo boa.

Bom, vamos lá, não é tão difícil de entender. A premissa geral da série é acompanhar a trajetória do jornalista Jeff (Matt Davis), que está em busca do seu irmão desaparecido, Nate (James Pizzinato). Ele vai contar com a ajuda de Skye (Jessica Lucas), que é uma produtora assistente de uma série de TV muito popular na CW (???) chamada Cult, cujo irmão de Jeff é simplesmente fanático/viciado (também pudera… o rapaz é viciado em drogas, literalmente). O fato é que, no universo da série da CW (a que você não deve assistir), Cult é um megahit (??? de novo), criando uma legião de fãs e vários malucos escondidos pelos confins da internet, gastando suas vidas jogando RPGs sobre o jogo e se encontrando de forma secreta para matar uns aos outros.

Ah, eu me esqueci de contar como é a Cult dentro da Cult. Ok. O grande sucesso da CW conta a história de um líder religioso, Billy Grimm (Robert Knepper), que acaba envolvendo as pessoas para um culto “onde algumas vezes as coisas saem do controle”, como promover sequestros, assassinatos e suicídios. Mas tudo isso é feito em prol de um “bem maior”, logo, podemos ficar tranquilos. Uma policial, Kelly Collins (Alona Tai), está investigando as atividades do tal culto, uma vez que sua irmã está desaparecida. Ou decidiu “por livre e espontânea vontade”, se juntar ao culto de Billy.

Ok. Como Cult é um grande sucesso de público e entre os malucos desocupados que ficam na internet procurando bobagens sobre a série, Jeff começa a acreditar que existe uma conexão entre os eventos do sucesso da CW com os acontecimentos bizarros do mundo real. Ou seja, existe praticamente uma reprodução em tempo real dos eventos da série, o que pode muito bem ser fruto dos malucos que jogam o RPG da série pela internet (e em alguns momentos se encontram para reproduzir algumas das ações da série), ou podem muito bem ser indiretamente coordenadas pelo criador da série (que ninguém sabe quem é, e muito menos viu a fuça dele desde que a série estreou), que pode estar criando um culto de lunáticos através de uma simples série de TV. E da CW, pasmem vocês!

Bom, se você ficou completamente confuso, eu vou resumir: é uma série da CW, com outra série da CW dentro. E eu nem sei por onde começar.

Cult (a do irmão desaparecido, pois a outra nem dá pra comentar) é uma série fraca. É uma ideia até bem bolada, se pararmos para pensar. Afinal, aborda um dos temas que eu mesmo já falei por diversas vezes no SpinOff Podcast: o bando de malucos, desocupados e virgens, que gastam dias da sua vida buscando pistas, arcos, conexões e qualquer fio de cabelo fora do lugar em algumas séries para tentar solucionar mistérios. Sempre disse que isso não era coisa de gente saudável, e a CW finalmente resolveu me dar razão.

O problema é que tudo é feito de forma tão cretina que, com todo respeito ao amigo leitor, até parece uma grande “trollagem” aos fãs mais insuportáveis de Lost. Sem brincadeira. Quando vi o piloto, em diversos momentos eu disse para mim mesmo: “eles estão trollando os fãs xiitas de Lost com força!” E não falo nem para tirar o sarro daqueles que estupidamente buscaram o significado da sequência numérica, o broche de Eloise, tatuagens em tubarão, ursos polares e metáforas de rolhas em garrafas de vinho. O que dá o tom de desrespeito de Cult é que a série é cretina o suficiente para se levar à sério. E a série não pode fazer isso.

Pra começar, a série tem como pano de fundo outra série da CW, que por sua vez é um megahit. Putz, vamos parar com essa palhaçada! O dia que uma série da CW tiver audiência e impacto cultural suficientes para fazer alguém a participar de um culto religioso, matar alguém ou se matar, é sinal que o mundo está muito errado. Logo, muito dificilmente uma série da CW vai alcançar esse patamar. Segundo: é uma série dentro de outra série. Chega a ser divertido ver como as duas séries se fundem (e não no bom sentido). E terceiro: como Ropert Knepper pode escolher séries de gosto tão duvidoso para trabalhar? Afinal, ele foi o T-Bag de Prison Break. Depois disso… Heroes (com uma última temporada lixo, e ele sendo um vilão com cajal no olho… #fail), e agora Cult. Até quando, meu amigo?

Olha, nem posso dizer que Cult é ruim. Ela “deu a volta” de tão ruim, e eu me diverti com algumas coisas exibidas no piloto. Mas não foi aquela diversão satisfatória. Foram risadas nervosas, acompanhadas de frases como “eu não acredito que a CW teve coragem de fazer isso” (combinar terror, culto religioso, mistério, série investigativa e nerds que jogam RPG pela internet). Aliás, esses são elementos que a “família CW” realmente podem gostar, e apesar de todos os impropérios ditos por mim nesse post, podem fazer com que (pasmem) a série dê certo.

Porém isso não torna a série melhor.

Na verdade, eu vejo Cult como um grande filtro da atual audiência da CW, e até mesmo para o próprio canal. Não imagino essa série indo longe, e acho que ela só pode representar dois caminhos para o telespectador. Talvez um ponto de “maturidade” em alguns fãs das séries do canal possa ser criado com o andar dos episódios. Mas, de novo: se ela passar da primeira temporada, para mim, será uma surpresa. A série só estreia nos Estados Unidos no dia 19 de fevereiro. Até lá, vou esperar com uma certa ansiedade quanto de audiência que isso vai dar.