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Sabe aquele tipo de série que, quando você assiste o promo de 3 ou 4 minutos, você tem a exata impressão se a série vai ser boa ou ruim? Pois é, Cristela apenas confirmou o quão ruim ela pode ser. Se no ano passado nós tivemos algumas polêmicas com as piadas estereotipadas do piloto de Dads (Fox), eu fico pasmo como até agora a comunidade latina não caiu na porrada sobre o texto dessa série.

Cristela (Cristela Alonzo) é uma moça de origem latina, que se esforça para crescer na vida. Está fazendo sua faculdade de direito, e acabou de conquistar uma vaga de estágio em um grande escritório de Dallas. Por conta das dificuldades financeiras – e porque estágio não paga salário nenhum -, ela é obrigada a morar com a irmã, o cunhado e a mãe. E esse é apenas o início dos seus problemas.

Apesar da família ser solidária, o cunhado de Cristela já não aguenta mais segurar a barra de vida da moça. Sua irmã, para apoiar o marido, a pressiona para que ela aceite o emprego de atendente de telemarketing – o que garantiria ao menos o necessário para que ela pudesse sair de casa e viver a sua vida -, e sua mãe está bem longe de ser aquela que vai apoiar nossa protagonista na trajetória em busca de um futuro profissional melhor do que ser atendente do McDonald’s – apesar de ser uma mãe que sente orgulho do esforço que a filha está fazendo.

Para complicar, ela consegue um estágio em um escritório de advocacia cujo dono é 100% politicamente incorreto, onde sua filha a confunde com uma faxineira logo de cara. O que torna a vida de Cristela no escritório algo um pouco melhor para se viver é a presença de outro estagiário, bonitinho e tímido, que já se interessou pelo ‘olhar’ da nossa heroína.

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O plot geral de Cristela não é o pior da série. Já vimos esse tipo de série antes. O que torna Cristela uma das piores estreias da fall season 2014 é a execução desse plot, onde durante 20 minutos somos ofendidos com um texto horroroso, com argumentos que ‘passeiam’ entre os esteriótipos latinos dos mais diversos, propostas sexistas, piadas que realmente ofendem a comunidade latina (no nível ‘Você não sabe nadar? Então… como conseguiu chegar ao Texas?’), e outros ‘argumentos de roteiro’ que fazem com que pessoas de bom senso odeiem a série rapidamente.

Não me entendam mal. Não sou hipócrita a ponto de dizer que nunca ri de uma piada de português, de judeu, de argentino e derivados. O problema é que Cristela (a série), na tentativa de rir de si mesma, acaba esbarrando nos problemas de classificar os latinos como pessoas que não contam com auto-estima para lutar por um futuro melhor, e apenas Cristela (a personagem) acredita nisso – de forma tola, na visão de sua própria família.

Vou dar um exemplo em como é possível brincar com os esteriótipos  latinos com dignidade: Ugly Betty (ABC). Em quatro temporadas, Betty, a família dela, os funcionários da editora e diversos outros personagens fizeram piadas e anedotas sobre a cultura latina. Mas nunca deixaram de lado a ideia que Betty Suarez ia muito além desses esteriótipos.

Já Cristela (a série e a personagem) indica que deve embarcar no plot da latina fracassada/engraçadalha, que tem uma família que acha que o grande sonho dos latinos é limpar a casa de ricaços em Los Angeles, que vai sofrer bullying do chefe texano com piadas preconceituosas.

Honestamente? Vocês deveriam é me agradecer (com depósitos em dinheiro na minha conta corrente) por poupar vocês de verem essa série. Cristela já entra no nível ‘The Neighbors’ de escolhas infelizes da ABC. Pode até durar mais do que esperamos, mas está bem longe de se dizer que é uma série boa.

Até porque já vimos que a audiência da ABC gosta de ver algumas dessas porcarias…