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Um dos dramas mais promissores e esperados da temporada 2015-2016 estreou nessa semana nos Estados Unidos. Code Black é mais uma tentativa da CBS em fugir do lugar comum dos procedurais, apostando em um drama médico pesado, onde os médicos estão em uma situação limite a maior parte do tempo.

A primeira informação que o piloto oferece é o que é o tal do “code black”. O “código negro” é o cenário onde o centro de emergência (ou pronto socorro) está com um ou mais casos considerados graves ou críticos, que normalmente não poderiam ser atendidos naquele pronto socorro, por conta da falta de recursos médicos adequados para atender aquele caso da forma mais adequada. Mesmo assim, os pacientes são atendidos e os procedimentos realizados. Até porque se não forem feitos, o paciente morre. Simples assim.

Dito isso, Code Black é uma série baseada em um documentário de Ryan McGarry (que também atua como produtor executivo da série), e conta a história do Angels Memorial, um pronto socorro de Los Angeles que tem o absurdo recorde de passar por enfrentar 300 cenários de “code blacks” por ano, quando a média dos hospitais norte-americanos é de apenas cinco. Falta dinheiro, falta estrutura, falta equipamentos, mas não falta boa vontade e dedicação para os profissionais envolvidos.

Aliás, dedicação e boa vontade até sobra. A ponto dos médicos começarem a se estapear (não literalmente) para defender os seus pontos de vista. A Dra. Leanne Rorish (Marcia Gay Harden) é a diretora da residência do hospital. É quem manda no grupo de quatro residentes que acabou de chegar ao Angels Memorial. O piloto mostra o primeiro plantão desse grupo liderado por Rorish, que há três anos passou por uma perda traumática, mas dedica seus esforços em salvar vidas. Com competência e métodos inusitados.

Os residentes são gerenciados por Jesse Salander (Luis Guzman), que na ausência da Dra. Rorish, faz as coisas funcionarem. Porém, o ambiente no pronto socorro está bem longe de ser tranquilo, quando o Dr. Neal Hudson (Raza Jaffrey) começa a questionar os métodos de Rorish diante dos seus novos residentes. Detalhe: Neal já foi um residente de Rorish.

Já os residentes…. bem, são residentes. São médicos, mas precisam aprender os paranauês de lidar com situações consideradas limite, como por exemplo estancar um corte profundo na garganta com um dedo, aprender que soro gelado dentro do corpo do paciente ajuda na perda de sangue, e fazer um parto dentro de uma ambulância.

Entre erros e acertos, esse grupo de profissionais dedicados vão correr contra o tempo, na nobre missão de salvar vidas, mesmo sem ter as condições ideais para isso.

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Não me entendam mal, crianças. Eu entendi qual é a de Code Black. Até gostei do piloto. É bem feito, bem produzido, e como os promos venderam, é pesado. Sombrio até. A morte está mais perto em Code Black do que em qualquer outra série médica que temos em exibição hoje. E acho que um dos grandes méritos da série – ser diferente de Grey’s Anatomy – será, talvez, a sua grande ruína (sem ser pejorativo, por favor).

Eu entendo que Code Black quer ser um ponto de quebra de paradigma entre os dramas médicos. Sair do lugar comum para oferecer algo diferenciado. É a CBS tentando dizer: “olha, nós somos diferentes, nós queremos mostrar um drama médico de forma mais visceral e real”. Sim, isso é um lado positivo do piloto. A veracidade dos fatos e um ar mais documental para a série são pontos que merecem ser observados de forma positiva.

Por outro lado, a missão de Code Black é muito complicada. Historicamente, temos como parâmetros nas séries médicas a combinação de casos memoráveis, personagens carismáticos, e uma carga dramática muito maior do que aquela apresentada pelo piloto do drama da CBS. Séries como St. Eselwhere, E.R./Plantão Médico e Grey’s Anatomy fizeram sucesso e estão na história porque conseguiram combinar esses elementos de forma perfeita. “Romantizaram” (por assim dizer) o ambiente hospitalar, e mesmo utilizando uma terminologia técnica, tornaram esses dramas acessíveis para o grande público.

Porque conseguiram tornar a luta pela vida algo ainda mais edificante. Algo com que as pessoas se importem a ponto de chorar quando um filho morre nos braços do pai, ou quando um médico perde a vida em uma praia ao som de “Somewhere Over The Rainbow”. Ou fica p*to quando um neurocirurgião morre porque não tinha um neurocirurgião para operá-lo depois de um acidente de carro estúpido.

Em Code Black, o senso de urgência está lá. O fator edificante do ato de salvar vidas, também. Mas falta a conexão emocional com o público. Os personagens principais são desprovidos de qualquer carisma. Até mesmo a personagem de Marcia Gay Harden, que é uma atriz que muita gente gosta: é preciso fazer força para gostar ou se importar com ela. Com os demais médicos, o apego é zero. Parece que quase todos estão desprovidos de personalidade.

Diferente de E.R. e Grey’s Anatomy, onde no piloto você identifica quem é quem, e mesmo em um elenco grande nos dois casos, você consegue visualizar a personalidade de cada um. Tudo muito bem definido.

A impressão que dá sobre Code Black é que tudo era para ser tão frio e visceral, que ficou frio demais. Sim, amigos, a série é boa, mas falta algo para torná-la mais acessível para o grande público.

E como a audiência de estreia já não foi das melhores (e depois desses detalhes identificados), é uma pena dizer que Code Black já nasce com grandes chances de não ter vida longa na CBS. Para os padrões que o canal tem para a sua audiência média, vai ter que remar muito para recuperar terreno. Se bem que a briga é basicamente com Chicago P.D. (NBC).

Enfim, Code Black despertou sentimentos mistos. Eu vou continuar a ver, porque gosto de dramas médicos. Mas não será surpresa se a CBS anunciar o cancelamento da série no final da temporada.

Espero estar errado.