black-ish

Uma série que mostra “o outro lado da moeda”, ou seja: quando finalmente um negro consegue ser bem sucedido na vida, mas se dá conta que está abrindo mão de suas raízes, tradições e culturas afro-americanas. Pior: está vendo a sua família fazer o mesmo, e não se incomodar por isso. Black-ish se propõe a ser uma crítica bem humorada desse momento onde a cultura negra é popular nos Estados Unidos, onde todos a consomem e a reproduzem… mas em alguns casos, os próprios negros fazem o caminho inverso.

A série é centrada na vida de Andre ‘Dre’ Johnson (Anthony Anderson), um pai de família muito bem sucedido, se preparando para ser o vice-presidente sênior de sua empresa. Andre tem o talento, é competente, criativo e centrado o suficiente para assumir a posição, ainda mais pelo fato do trabalho dele oferecer oportunidades para pessoas das mais diversas origens (isso, na mente dele, é claro). Ele entendia que essa era a grande chance de ir para o próximo passo, ou seja, o outro lado da mesa, claramente dominado pelos brancos.

Porém, a sua promoção é para vice-presidente sênior… da “divisão urbana” da empresa, claramente pensada em promover as ações de publicidade para a comunidade negra dos Estados Unidos. Isso deixa Andre decepcionado – bolado mesmo -, ainda mais quando o seu chefe o aconselha a “cair na real”. E é o que ele começa a fazer.

A partir daí, Andre começa a observar que o mundo ao seu redor estava mudando. Principalmente no consumo de hábitos culturais. Seus filhos não sabem que Barack Obma é o primeiro presidente negro dos EUA, que Justin Timberlake e Robin Thicke cantam R&B, e que dançarinos asiáticos estão vencendo o So You Think You Can Dance… dançando break! Ao mesmo tempo, vê que sua família não dá mais tanta bola para saber a origem dos seus ancestrais, não pensa muito em aprender cânticos ‘spirituals’, e até um dos filhos de Andre pede para fazer um ‘bar mitzvah’ no seu aniversário.

Andre então entendeu que precisa re-equilibrar as coisas. Precisa resgatar o orgulho negro da sua família (que até vive bem sem isso), ao mesmo tempo que precisa compreender como os novos tempos funcionam, onde a cultura negra que ele tanto se orgulha de ter foi assimilada por todos.

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Black-ish é uma comédia familiar que pode dar certo. Apesar de tocar em pontos que ainda são delicados para as grandes massas (muita gente pode achar a série estereotipada por conta das piadas ou até pelo plot sugerido), no final das contas, pode ser aquela série que você senta diante da TV para rir das ironias da vida. O ‘ser negro é lindo’ é abordado por diversas vezes na série, mas na hora do ‘vamos ver’ (a promoção de Andre, por exemplo), ele ainda é visto como ‘o cara legal, que sempre faz piadas’. Resta saber se a série saberá lidar com esses pontos sem cair nos truques que podem tornar uma diversão um ponto de crítica mais severa por parte da audiência.

Em alguns momentos, a série até lembra outro grande sucesso da ABC com temática similar (My Wife and Kids), mas sem tantos timings de humor. Aliás, no quesito ‘faz me rir dessa piada’, Black-ish até que tem boas sacadas, mas precisa melhorar um bocado. Não que seja ruim, mas tem um gargalo que ainda pode ser explorado pelos roteiristas. Tem gente que vai achar a série comum e sem graça logo de cara. Não podemos culpá-los por isso. Eu mesmo acho que precisa melhorar um bocado como série de comédia. Mas recomendo que dê pelo menos mais dois episódios para ver se a série engrena de vez.

Para resumir: há potencial sim em Black-ish. Pode ser que a série engrene ao longo da temporada, mas como comédia familiar, pode se dar bem nas noites de quarta-feira da ABC. Afinal de contas, o canal já lida bem com grupos de famílias peculiares. Pode ser que a série focada na cultura negra acabe se encaixando nesse sistema. A ABC torce por isso, para seguir vendendo as suas ‘noites de quarta familiares’.