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American Horror Story tem um spinoff. Não literal, onde algum personagem da franquia de horror migrou para uma série própria. Mas um spinoff conceitual, já que a estrutura narrativa base é a mesma, histórias contadas em temporadas fechadas. Dito isso, Ryan Murphy decide que é a hora de revisar os grandes crimes da história dos Estados Unidos através de American Crime Story.

A cada temporada, a nova franquia vai mostrar um grande crime visto por diferentes perspectivas, tentando apresentar ao telespectador vários pontos de vista de um mesmo incidente. No caso em particular dessa primeira temporada, o foco principal está nas estratégias da promotoria e advogados de defesa, na repercussão que a mídia dará ao caso, e os diversos conflitos de interesses envolvidos em um dos casos mais emblemáticos para a mídia e cultura pop norte-americana.

A primeira temporada de American Crime Story é baseada no livro The Run of His Life: The People v. O. J. Simpson de Jeffrey Toobin. Mostra todos os bastidores da investigação e julgamento do ex-jogador de futebol americano O. J. Simpson, acusado de ter assassinado a ex-mulher, Nicole Brown Simpson e o seu namorado. O caso por si só tem importância gigante, por O. J. ser considerado uma das lendas do esporte, e um dos atletas mais populares da nação. Mas outros aspectos influenciam ainda mais na repercussão desse lamentável incidente.

Para começar, o crime acontece em Los Angeles, onde na época a polícia local era acusada de ser altamente preconceituosa, agindo com violência contra os negros que, em muitos casos, eram considerados inocentes dos crimes. A imprensa está de olho, e tanto a polícia como (principalmente) os promotores estão sob pressão. Logo, o duplo assassinato de Nicole e do namorado não ajuda em nada. Pelo contrário, já que O. J. Simpson é um dos negros mais populares dos Estados Unidos.

Porém, tudo indica que o atleta tem culpa no cartório. Todas as evidências iniciais apontam para a possibilidade de O. J. ter cometido o crime: o carro com manchas de sangue, a luva no jardim da sua casa, a falta de um álibi consistente por parte do suspeito, sua contusão no dedo e principalmente o seu comportamento de homem desesperado. Sem falar no histórico de violência de O. J. com a ex-esposa, onde cinco anos antes ele foi formalmente acusado de agredir Nicole, e só se safou por ser uma celebridade.

Aliás, a polícia de Los Angeles faz muita vista grossa em relação ao ex-jogador de futebol americano, o que dificulta o trabalho da promotoria.

Por outro lado, O. J. não se ajuda. Tem um comportamento perturbado, tem um temperamento agressivo e explosivo, e quando tudo está aparentemente perdido – ao saber que existe um mandato de prisão contra ele -, ele deixa cartas de despedida para parentes e fãs, testamento escrito à mão e tenta se matar. Como não é bem sucedido, ele foge com um dos seus melhores amigos (que vira refém porque ele está armado), e protagoniza uma das fugas mais espetaculares da TV norte-americana.

A partir daí, teremos uma das investigações mais controversas e complexas da história dos Estados Unidos. Com um resultado igualmente controverso, que mudou não só a justiça norte-americana, mas a cultura de massa como um todo. Há quem acredite que a cobertura da perseguição a O. J. Simpson é a origem do fenômeno dos reality shows na TV. E tal teoria não é tão absurda.

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American Crime Story tem um piloto que mostra todas as informações que você precisa saber para acompanhar a temporada, além de oferecer os elementos necessários para você se envolver com a trama a ponto de seguir adiante com a série. Em linhas gerais, o episódio tem pontos positivos e negativos, mas que na média consegue passar de ano.

O roteiro é bom, mas… tem muito como errar em um roteiro baseado em um livro, que por sua vez é baseado em fatos reais amplamente divulgados e de conhecimento público? Particularmente, acho que não. Aqui, não é possível inventar coisas. Basta seguir os acontecimentos. Você pode adicionar uma coisa aqui ou ali para suavizar a narrativa, ou deixar a série mais acessível para o grande público (como por exemplo a passagem que mostra o velório de Nicole e a presença de Kris Kardashian (na época, hoje Kris Jenner) nesse mesmo velório, uma vez que ela era uma das melhores amigas da falecida. Mas também é só. Logo, American Crime Story é bem roteirizada sim.

Por outro lado, a produção incomoda um pouco. Tudo tem mais cara de anos 80 do que de anos 90. As roupas estão estranhas, os cortes de cabelo também. A fotografia também tenta dar um ar retrô à série, mas é algo desnecessário. Se investisse mais na ambientação estética e na produção desses elementos, convenceria mais, sem deixar aquela impressão de viagem no tempo mal feita. Isso é uma coisa que realmente incomoda na série, mas vai explicar isso para o Ryan Murphy…

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Alguns membros do elenco principal da série merecem ser observados. Até acho que John Travolta não compromete como Robert Shappiro (apesar do botox vencido), e que David Schwimmer está na dele como Robert Kardashian. Nem falo de Selma Blair como Kris Kardashian, pois ela é tão irrelevante nessa história que nem vale perder muito tempo com ela.

Agora, sobre Cuba Godding Jr… esse será complicado de engolir.

OK, bem sabemos que O. J. Simpson é um perturbado de marca maior, com alguns parafusos a menos, e com uma personalidade que deixa uma dupla interpretação para o telespectador. Mas Godding Jr deixa a desejar. Tudo soa meio forçado, e nem mesmo nas cenas mais difíceis, onde ele precisa mostrar mais da sua capacidade de ator, ele acaba comprometendo. O que é uma pena, já que não podemos ter um Denzel Washington ou um Jamie Foxx para esse papel. Falta grana para o FX para contratar esses dois caras, sabe…

Mesmo com os pontos negativos, American Crime Story passa na nota pelo contexto geral, e pela proposta em contar as histórias desses crimes. Se a gente ignorar as atuações ruins e a ambientação na década errada, temos uma série que dá para assistir numa boa até o final da temporada. Até porque não há espaço para invenções. Teremos uma história com começo, meio e fim, onde apesar de muita gente já saber como essa história termina, ao menos poderemos ver os detalhes da investigação e do julgamento.

E, quem sabe, descobrir mais coisas pitorescas, como por exemplo que O. J. Simpson tentou se matar no quarto de Kim Kardashian…