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Tudo novo. Tudo diferente. A mesma boa qualidade. Nesse caso, até melhor.

Em 2015, a ABC estreou American Crime durante a midseason, como uma aposta de risco. Era uma série com proposta mais forte, tratando de temas mais pesados. Eu fui um dos poucos que apostou na boa qualidade dessa série, e na proposta diferenciada para os padrões do canal (o Sacer veio depois), e fico feliz em ver que essa aposta se pagou. Uma das melhore séries de 2015 volta ainda melhor em 2016, com um tema ainda mais pesado, e com a promessa de uma trama mais envolvente em todos os aspectos.

Tal como deve acontecer com toda boa limited series, a segunda temporada de American Crime apresenta uma história completamente diferente da primeira, em um local diferente, abordando um outro tipo de crime, mas com o objetivo principal de levantar a discussão daquele problema junto a sociedade, tentando despertar no telespectador um maior senso crítico, evitando a indiferença sobre algum problema que afeta uma parcela da população todos os dias. Na primeira temporada, a série abordou o preconceito contra os latinos, algo que ainda está em evidência, ainda mais com as recentes declarações polêmicas de Donald Trump. Já na segunda temporada, eles conseguem ir além nessa proposta de “dar o soco na boca do estômago” da sociedade cristã ocidental.

A segunda temporada de American Crime acontece em Indianapolis, Indiana. Taylor Blaine (Connor Jessup) é um estudante aparentemente normal, um tanto quanto depressivo e pouco popular. Vive pelos cantos quieto, apreensivo e amargurado. E tudo isso piora quando ele recebe as fotos dele mesmo totalmente bêbado, desorientado e violado sexualmente. Ele foi vítima de estupro, e nem soube direito como isso aconteceu.

Para piorar, boa parte da escola onde ele estuda fica sabendo disso, pois suas fotos começam a rodar entre os estudantes. Como se a situação não fosse séria o suficiente, sua namorada, Evy Dominguez (Angelique Rivera) é uma das poucas testemunhas do crime, e decide tomar uma providência, comunicando a mãe de Taylor, Anne Blaine (Lili Taylor), sobre o ocorrido, apresentando as fotos do próprio filho devassado.

Anne fica desesperada, e procura a diretora do colégio, Leslie Graham (Felicity Huffman), que por questões políticas (proteger o bom nome que a escola tem junto à sociedade e aos seus investidores), faz vista grossa sobre o assunto, afirmando que tudo foi o resultado de uma farra de adolescentes bêbados, e que Taylor também tinha parte da culpa por aquilo ter acontecido.

Mas, só para garantir que tudo vai ficar sob controle, Leslie comunica o assunto para o treinador do time de basquete da escola, Dan Sullivan (Timothy Hutton), que já tinha percebido o comportamento explicitamente sexual dos estudantes do colégio, incluindo a sua própria filha, que não tinha pudor nenhum de rebolar para os coleguinhas. Dan ao menos tem uma conversa séria com os jogadores do time, e vários dos alunos são considerados suspeitos em potencial do crime.

Logo, temos aqui um dos cenários mais complexos. Um estupro homossexual, que pode ter sido cometido por um negro, o que fatalmente vai levantar o tema do racismo. Tudo isso é turbinado pela questão da sexualidade dos adolescentes, o consumo de bebidas alcoólicas e substâncias ilícitas por eles. E a forma como a sociedade lida com tudo isso: ou com medo, ou com hipocrisia, ou com vergonha.

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Faltam palavras para dizer como essa estreia da segunda temporada de American Crime foi boa. Aliás, ótima. Excelente. Viu, já achei três palavras.

As propostas apresentadas no piloto criam uma elevada expectativa de uma temporada tensa, intensa, complexa e envolvente. Não dá para passar indiferente aos temas levantados pela série, e a forma séria e madura com que tudo foi abordado empolga qualquer um que gosta de uma boa série. Entendo que terão os críticos que vão dizer que “a série tem um ritmo lento demais”. Mas, nesse caso, ela precisa ser lenta. São temas delicados demais, onde os detalhes da personalidade de cada um dos envolvidos passa a ser algo fundamental para um parecer mais preciso sobre tudo o que foi apresentado. Não dá para contar tudo às carreiras, correndo.

Sem falar que esse ritmo mais pausado também resulta em um resultado final mais apurado em vários aspectos, principalmente na estética da série, que volta a ser muito bem cuidada e pensada na proposta de história que eles estão contando. Uma fotografia mais sombria, com uma certa ausência de cores, algo já adotado na primeira temporada, se torna ainda mais vital nessa segunda história, dando o tom mais bucólico e melancólico do cenário geral da trama. Além disso, várias das cenas são feitas em close nos personagens, mostrando de forma mais enfática suas expressões faciais, o que também indica os traços mais fortes de personalidade de cada um dos envolvidos.

Por fim, todo o elenco de American Crime está muito bem. Prevejo mais uma vez Felicity Huffman, Timothy Hutton e Regina King destruindo em suas atuações, mas não podemos deixar de lado Lili Taylor, que foi excelente nesse primeiro episódio. Temos que afirmar que ajuda muito quando se tem um bom texto nas mãos, e American Crime se preza por isso.

Enfim, American Crime 2ª temporada repete a ótima fórmula adotada no ano passado, e é uma das séries que você não pode deixar de ver em 2016. Diferente de Wicked City, que foi a tentativa de “chocar por chocar” que não deu certo, a série criada por John Ridley é muito bem pensada, bem estruturada e otimamente executada. É o tipo de drama inteligente, que tira o telespectador da sua zona de conforto, fazendo boa parte da população em refletir sobre aquilo que eles não querem nem pensar no seu dia a dia.

Ter séries assim no ar é algo que nos motiva a continuar a escrever sobre séries todos os dias.