Combine os seguintes provérbios: “nunca assine um contrato sem ler”, “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, “inimigo do meu inimigo é meu amigo”, “mulher de amigo meu… é mulher mesmo”, “pacto com o diabo não tem volta” e “cuidado, pois a sua casa pode te engolir”, que você tem 666 Park Avenue, o novo drama de terror da ABC. Seguindo na esteira de sucesso de American Horror Story, temos um piloto onde deve passar alguma tensão e suspense para o telespectador, mas combina um festival de clichês e referências a outras produções do gênero.

A série conta a história de Henry Martin (Dave Annable) e Jane Van Veen (Rachel Taylor), um casal novo, que acaba sendo contratado como novos co-gerentes do prédio residencial 999 Park Avenue, em Nova York. Os donos desse prédio são o casal Doran. Gavin (Terry O’Quinn) é um magnata sofisticado e mega poderoso. Aliás, mais poderoso do que todo mundo imagina. Ele é casado com sua fiel parceira (de crimes) Olivia (Vanessa Williams), igualmente sofisticada e tão misteriosa quanto o marido.

Uma coisa muito importante, que você precisa saber: o assassino é o prédio, ok? Ele é o real e imediato perigo da série. Ok, o prédio é controlado (literalmente) por Gavin, que claramente tem um pacto com alguma coisa que não é terrena (ou o próprio Gavin é essa coisa não terrena), mas ele mesmo não suja as mãos. Faz tudo com o poder do olhar, e barbariza com a ajuda do papel de parede, cheio de mãos e rostos inseridos por computador.

A trama é tão louca, que eu nem sei direito como começar. A história principal é centrada nos donos do prédio, que encontram no novo casal de gerentes “novas possibilidades”. Por exemplo, a nossa amiga Olivia está preparando Jane para que o seu marido Gavin consiga “finalizar a moça” (se é que vocês me entendem), mas sem que o futuro corno Henry saiba disso. Nesse meio tempo, Jane começa a desconfiar que a coisa está rápida e fácil demais quando ganha da esposa do seu chefe um vestido de US$ 4 mil. Então, começa a investigar por que diabos o prédio possui desenhos de figuras monstruosas no chão.

Além de querer cornear o novo funcionário, Gavin ainda precisa se livrar dos seus inimigos. Para isso, faz pequenas “trocas de favores” com pessoas dispostas a tudo para ter de volta as pessoas que mais amam, e que por qualquer motivo, não pertencem mais a esse mundo. O acordo é simples: Gavin encomenda o serviço, o coitado vai lá e mata a vítima, e o sangue derramado serve como moeda de troca para manter o morto vivo. Simples assim.

Nesse meio do caminho, tem o vizinho voyeur Brian (Robert Buckley), que é “punido” (ou beneficiado) rapidamente pelo prédio, que resolve machucar um pouquinho a sua esposa Louise (Mercedes Masohn).

Tenho que confessar que esperava coisa muito pior de 666 Park Avenue, e mesmo assim, não gostei do piloto. A série exagera demais, forçando a barra para “tudo na série envolve momentos de suspense”. Aliás, a trilha de suspense está presente no episódio piloto o tempo todo, a ponto de irritar. Teve som de suspense até quando tinha gente lixando as unhas. Aí, não dá!

Diversas referências de filmes clássicos de suspense são vistas na série, mas isso não é um ponto negativo da produção. O que mais incomodou é que a série foi adicionando um monte de argumentos à esmo, em uma história que beira o óbvio (ninguém desconfia que esse emprego está muito fácil, ou que esse apartamento é muito perfeito?), e com uma trama facilmente descartável.

E sabe o que é pior? Pode dar certo, pelo menos para o novo público da ABC.

Calma, eu explico. Diferente do ano passado, que eu cravei que Once Upon A Time não ia dar certo, e ela foi renovada (e hoje, está melhor que Grey’s Anatomy), eu nem me atrevo a apostar que 666 Park Avenue não vai para frente. Para começar, a série é novelesca, no estilo de Revenge, que deu certo na ABC (não questiono aqui qualidade, e sim, eficiência, que fique bem claro). E a série também é “de fantasia”, assim como Once Upon A Time é (terror ficcional, que fique bem claro), e que também vai muito bem na ABC. Logo, combinar os dois estilos, por mais duvidosa que seja a proposta, é uma aposta até que coerente para o canal.

Além disso, mesmo contando com Vanessa Williams repetindo o mesmo papel pela terceira série consecutiva (temos, de novo, uma Wilhermina Slater na tela), parece que a audiência da ABC gosta mesmo da atriz. Senão, o canal não ia apostar nela fazendo a mesma vilã, com a diferença que agora ela tem poderes sobrenaturais.

Ou seja, 666 Park Avenue é a série boba e tediosa que eu imaginava. Não vou acompanhar sua temporada, mas estou certo que algumas pessoas vão gostar da trama, e não duvido que ela possa contar com os seus fãs nos Estados Unidos, que é onde interessa. Honestamente? Por mim, não passaria nem do piloto, mas tem gosto para tudo. Infelizmente, não será surpresa se aparecerem os primeiros fãs (ou haters) me xingando por causa desse post.