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Como tudo começou?

Certamente os fãs de The Walking Dead já se fizeram essa pergunta mais de uma vez. E parte da resposta está em Fear the Walking Dead, prequel da obra de Robert Kirkman que estreou ontem (23) no canal AMC. A trama propõe apresentar uma perspectiva bem diferente daquela que já acompanhamos na série original, mas que tem um ponto comum muito claro: o quão confusa a vida pode se tornar diante de um apocalipse zumbi.

Fear the Walking Dead se passa em Los Angeles, e deixa claro que o apocalipse começou em diferentes pontos dos Estados Unidos (quem sabe do planeta), e já era especulado antes dele eclodir. Até porque sempre teremos gordos escrevendo suas teorias conspiratórias na internet, e algumas delas certamente terão o seu fundo de verdade. Dito isso, também vemos claramente como os adultos são resistentes em acreditarem em nerds gordos viciados em internet (com cara de psicopata) ou em filhos drogados que testemunham a amiga drogada de 40 quilos matando os amiguinhos na base das dentadas. Mas isso é outra história.

Deixando de lado o fato de que tento ser engraçadalho em um post do SpinOff, Fear the Walking Dead mostra uma coerência compreensível da personalidade dos adultos: o fator ‘ver para crer’. As histórias contadas pelos jovens que já testemunham eventos anormais são tão absurdas, que eles realmente não vão acreditar que está se iniciando um apocalipse zumbi. E, mesmo que eles acreditassem, eles pouco ou nada poderiam fazer. Fato é que: a m*rda toda só está começando, e o que veremos ao longo da primeira temporada é como as pessoas comuns da ensolarada Los Angeles vão lidar com as perdas.

Familiares, amigos, namorados… um por um, todos vão perecer – e depois virarem mortos vivos -, e diferente do cenário de Atlanta, onde aquelas pessoas já lutam pela sobrevivência, em uma condição mental onde elas se encontram totalmente quebradas e descrentes de um futuro com algum tipo de salvação daquele cenário de caos, o grupo de Los Angeles ainda terá que compreender tudo o que está acontecendo, assimilar os choques durante o trajeto, e iniciar uma efetiva luta pela própria vida.

Nem que para isso seja necessário atirar na cabeça daqueles que eles mais amam.

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O piloto de Fear the Walking Dead é bom. Tem a cara de Robert Kirkman e uma linguagem de graphic novel muito interessante. Mas o que realmente chama a atenção é justamente o contraste do perfil psicológico dos personagens.

Em The Walking Dead, nós temos personalidades forjadas na base do ‘tiro, porrada e bomba’, depois que todo o país virou um grande cenário de caos. Isso faz com que seus personagens se aproximem mais dos heróis, acima da média e dispostos a tudo para ver a luz do sol no dia seguinte. São pessoas quebradas por dentro, mas fortes nas posturas, que não vacilam, e que pela própria descrença no próximo, não especulam muito sobre o próximo passo a ser dado. Se precisar, atiram primeiro e perguntam depois.

Em Fear the Walking Dead, temos um perfil psicológico completamente diferente, e que se alinha diante de um conflito que está apenas começando, e que eles ainda não entendem a real dimensão do problema. Logo, não acreditar no filho drogado ou no nerd gordo é algo mais do que natural. Descer do carro para ver se o amigo do filho (que está andando que nem um maluco no meio da estrada) está bem, mais normal ainda. A crença no crível, no palpável e no racional é algo confortável. É algo do ser humano médio, eu diria.

O que torna Fear the Walking Dead mais interessante é que (com alguma sorte, isso é, se a AMC não ferrar com tudo) veremos como esses personagens serão moldados para a nova realidade. Como cada um deles vão se transformar de pessoas comuns para quase guerreiros que lutam por essa sobrevivência. Como será cada um deles saindo de suas respectivas zonas de conforto, de suas vidinhas tacanhas e comuns para enfrentarem um cenário simplesmente surreal.

Na parte técnica, Fear the Walking Dead é mais uma vez um acerto da AMC. É uma produção grande e impecável, com várias cenas de externas, mostrando cenários icônicos da cidade de Los Angeles, deixando indiretamente a impressão sobre como tudo será maior e ainda mais relevante. Sim, pois estamos falando de um apocalipse zumbi em uma das principais cidades dos Estados Unidos (e bem maior que Atlanta), com a promessa de uma repercussão ainda maior quando os fatos vierem à tona.

Outra boa notícia é que o elenco de Fear the Walking Dead é equilibrado, assim como os seus diálogos bem estruturados. É um piloto que vai crescendo ao longo do episódio, apresentando as principais tramas, principalmente aquele que mostra a família central da temporada. Alguns poderão achar esse piloto lento, ou tão lento quanto boa parte dos episódios de The Walking Dead. Mas vai por mim: melhora. No final, ele entrega um gancho razoável para seguir com o segundo episódio sem muitos traumas.

Por fim, Fear the Walking Dead mantém a mesma estrutura narrativa da série original, mas apresentando uma perspectiva completamente diferente, e isso pode atrair até mesmo os fãs que não aguentam mais um Rick Grimes paranoico/destruidor de comunidades minimamente organizadas sem ele, ou das longas cenas de silêncio e contemplação da série original. Não estou dizendo que não vai ter isso nesse spinoff, mas é possível acreditar que, por apresentar uma dinâmica diferente, os eventos se apresentem com uma certa dose de urgência, o que pode tornar tudo muito mais interessante.

Mesmo porque a luta pela sobrevivência dos moradores de Los Angeles ainda vai começar.