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Eu confesso que sou menos fã de Doctor Who do que a maioria dos fãs. Eu não sou fã das antigas. Comecei a ver a produção a partir da “fase 2005”, com Christoper Eccleston como protagonista. Comecei a ver a série no finado canal People+Arts, mas depois só voltei a assistir com a “era da internet” (se é que vocês me entendem). Mas como todo aquele que gosta de séries, eu me coloquei a assistir o episódio comemorativo de 50 anos, o “The Day of the Doctor”. E é com muita alegria que compartilho essa experiência com vocês.

Não se preocupe, esse post não tem spoilers. Até porque eu entendo que muita gente não viu o episódio (uma vez que o canal BBC HD não é tão difundido na TV paga brasileira). Mas o que eu posso dizer é que Steven Moffat e sua equipe conseguiu entregar aos fãs aquilo que eles mais desejavam: um episódio para os fãs. E, por tabela, um ótimo episódio para apresentar a série para quem ainda não conhece. Tudo bem, quem nunca viu Doctor Who na vida vai ficar um pouco perdido com a sequência de acontecimentos. Mas isso não quer dizer que você não vai absorver nada desse episódio.

Pelo contrário. Fará parte de uma experiência peculiar, saborosa e muito interessante.

Doctor Who é a série de ficção científica mais bem sucedida da história da TV, e não por acaso. Soube trabalhar ao longo das décadas não só com a possibilidade da viagem no tempo, a vida fora da Terra e outras questões científicas que tanto fascinam os nerds. A série trabalha com as ferramentas mais poderosas do planeta: o cérebro e o coração.

Estimular a imaginação do telespectador com uma cabine de polícia que, na verdade, é uma máquina do tempo é algo que poucos conseguem fazer. Apresentar alienígenas, meta-morfos e robôs semi-artesanais, e ainda assim conquistar uma legião de fãs é algo heroico na TV atual (ainda mais na era da alta definição). Mas em Doctor Who, tudo é feito com o objetivo de colocar o telespectador dentro de um cenário lúdico, quase que feito por ele mesmo, e trabalhar com isso de forma simples e objetiva. E divertida, também.

Isso resulta em uma conexão sentimental forte. Você se apega ao Doutor, de diferentes eras (mesmo quando esse Doutor é um “esquecido” – ou de uma fase que nem mesmo o Doutor quer lembrar). Sabe, Doctor Who me faz mesmo acreditar que, no dia que um alienígena chegar na Terra, ele não só vai ter uma tecnologia mais avançada, mas terá o bom humor e o sarcasmo do Doutor, ao ver que a maioria dos humanos são, no mínimo, muito engraçados.

Aliás, não posso me esquecer que David Tennant, Matt Smith e John Hurt estavam impecáveis como os seus respectivos doutores.

Mas não é só isso.

The Day of the Doctor lembra ao telespectador por que eles acompanharam essa série até aqui, e por que vale a pena se permitir a levar a sua imaginação para um universo que oferece a oportunidade de rever os acontecimentos do passado, para compreender o presente. E, se possível, fazer de tudo isso um futuro melhor. Afinal, esse é o objetivo de todo ser humano, certo? Fazer do seu futuro algo melhor e, com isso, contribuir com um futuro melhor para todos. Mesmo que seja o mínimo.

The Day of the Doctor lembra a necessidade de cada um perdoar a si mesmo. Reconhecer os erros e corrigir o que está errado. Aceitar que algo precisa ser feito quando e como precisa ser feito, e aceitar as consequências disso. E acreditar em si mesmo. Para absorver tudo isso, você não precisa ser fã de Doctor Who. Basta você ter sensibilidade.

Doctor Who entrou nesse final de semana para o Guinness Book (Livro dos Recordes), por ser a maior transmissão simultânea de um episódio de série dramática no planeta (mais de 60 países assistiram de forma simultânea o episódio The Day of the Doctor). Mas entendo que foi além. Ofereceu um dos melhores episódios de série na TV em 2013, e uma excelente forma daqueles que nunca ouviram falar sobre o Doutor começar a acompanhar a série. Se em 90 minutos eles conseguiram entregar tal experiência, imagine o que ela pode fazer nas temporadas que você ainda não assistiu?

Por fim, entendo que os fãs mais fiéis de Doctor Who estão com um sorriso de orelha a orelha. Eu pelo menos estou.