Lá nos idos de mil novecentos e antigamente, quando eu tinha cabelo e você provavelmente nem tinha nascido, a gente nem fazia ideia que as séries eram divididas por temporadas. Afinal, passava tudo no canal aberto, sem uma ordem específica, e em alguns casos, a série reprisava por meses, e a gente nem percebia. O conceito de temporada veio para o brasileiro com a chegada dos canais pagos, que começaram a transmitir as séries na ordem como elas eram exibidas nos Estados Unidos (ou quase isso).

Aí, veio a internet. Com ela, identificamos de forma mais fácil a ordem dos episódios, quantos capítulos ela tinha, e principalmente, que a TV internacional dividia as temporadas de séries em duas: a Fall Season, que para nós compreende entre agosto/setembro de um ano até maio do outro ano, e a Mid-Season, que vai de junho até agosto. Os norte-americanos também consideram como Mid-Season o período dos “Holidays”, ou festas de final de ano, que começa no final de semana do Dia de Ação de Graças, e vai até o meio do mês de janeiro, mas isso é uma outra história.

Mas… se você parou para perceber… a Mid-Season passou a ter uma grande importância nos últimos anos. Para nós, e para eles. Motivos para isso não faltam.

Para começar, a qualidade das séries de Mid-Season subiu muito nos últimos dez anos. Os canais de TV (principalmente os canais pagos norte-americanos) perceberam que esse era o período ideal de lançar as suas produções, pois não teriam a concorrência da TV aberta. Além disso, com a tendência de ter menos pessoas assistindo TV nos Estados Unidos (por ser um período de férias, onde as famílias viajam), qualquer audiência extra acumulada nesse período é lucro. E aí eles começaram a atacar com tudo, mostrando produções que causaram grande impacto. Aos poucos, mas causaram.

Falamos hoje de The Newsroom (HBO) como a melhor série dessa Mid-Season (2012), mas não devemos nos esquecer que a própria HBO apresentou ao mundo lá atrás séries como Six Feet Under, Sex And The City e The Sopranos como propostas alternativas às séries de temporada regular, e foram muito bem sucedidos, abrindo um novo segmento para a TV norte-americana.

Com isso, temos hoje verdadeiros hits de meia temporada, como Mad Men (AMC), Breaking Bad (AMC), The Walking Dead (AMC), True Blood (HBO), Dexter (Showtime), Nurse Jackie (Showtime), Damages (Directv), entre outras. Algumas fizeram tanto sucesso que foram deslocadas do meio do ano para entrar em períodos onde a audiência é maior, como no começo do mês de setembro.

Por conta disso, séries como Homeland (Showtime), Spartacus (Starz) Veep (HBO), Girls (HBO) e outras passaram a receber cada vez mais a atenção do público e da crítica especializada logo na primeira temporada, ampliando o leque de opções de séries, e fazendo com que o telespectador continue se programando na frente da TV para acompanhar as séries com a mesma atenção que fariam durante a Fall Season. E, por tabela, fazer o DVR funcionar um pouco mais, já que é humanamente impossível ver tudo sem deixar alguma coisa para trás.

Em comum, essas séries (em geral) apresentam histórias diferenciadas, com propostas que mais adultas e ousadas que na TV aberta, com uma estética visual mais apurada e roteiros mais detalhados (claro, tem exceções, mas não vou citá-las). Ao longo dos últimos dez anos, fomos seduzidos pela possibilidade da TV paga dos Estados Unidos produzir séries tão ou mais interessantes que aquelas exibidas na TV aberta. Ao mesmo tempo, vimos a maioria dos dramas da TV aberta dos EUA ficando cada vez mais desinteressantes, com histórias clichês e personagens menos carismáticos.

Hoje, temos nas principais premiações o domínio das séries de TV paga entre as principais indicadas nas categorias dramáticas. E esse processo começou justamente com a Mid-Season. Essa mesma Mid-Season ofereceu uma evolução fundamental para as histórias exibidas na TV, colocando as histórias em um patamar que, em muitos casos, realmente enchem os nossos olhos.

Conheço muitas pessoas que gostam mais da Mid-Season do que da Fall Season. Com tantas decepções causadas pelas séries falidas que foram apresentadas pela TV aberta norte-americana nos últimos anos, o “oásis” de boas produções foi encontrado no meio do ano. O que é ótimo. Afinal de contas, sempre vamos ter alguma coisa para assistir em algum momento do ano.