os trapalhões

Nunca mexa nos clássicos. Nunca.

É impossível recriar Os Trapalhões. O grupo, que fez sua primeira aparição na Rede Globo em 1977, é icônico. Espontâneo, carismático, com piadas ácidas e politicamente incorretas para a época, eles foram simplesmente lendários.

Infelizmente, as perdas de Mussum e Zacarias foram definitivas para o fim do grupo. Não adiantava incluir Conrado e Jacaré (sim, o do É  o Tchan) para tentar substituir humoristas insubstituíveis. Simplesmente não era a mesma coisa.

O tempo passou. Didi e Dedé brigaram, se reconciliaram, voltaram a trabalhar juntos e, em 2017, Os Trapalhões comemoram 40 anos de vida. E alguém na Rede Globo achou que seria uma boa ideia fazer um revival do grupo, com um novo elenco.

E assim temos Os Trapalhões 2017.

A ideia do revival é criar a conexão entre as duas gerações da seguinte forma: todos os novos protagonistas são sobrinhos dos personagens originais e, dessa forma, seguirão as trapalhadas dos tios, cada um mantendo as marcantes personalidades dos originais.

Partindo desse princípio, veremos Didi e Dedé interagindo com Didico, Dedeco, Mussa e Zaca, nas tipicas situações cômicas que popularizaram o grupo em todo o Brasil. Algumas histórias são adaptações de piadas clássicas com uma repaginação para os tempos atuais. Já outras são sátiras do cotidiano, combinando elementos da cultura pop e até da cultura nerd, procurando assim se conectar com um público mais jovem.

Outros personagens que faziam parte do grupo de coadjuvantes de Os Trapalhões foram adaptados para essa nova versão, em forma de homenagem aos comediantes que ajudaram o grupo na ascensão ao sucesso. Um deles é o Tião, interpretado pelo Nego do Borel, que é uma referência direta ao Tião Macalé.

 

 

Não se recria os clássicos. Não se mexe naquilo que não tem como melhorar. Fato.

Entendo a ideia da Rede Globo em fazer o revival de Os Trapalhões. Apesar de achar a ideia muito errada, entendo que não é um erro fazer esse revival agora. Bom, é melhor fazer agora, quando Didi e Dedé ainda estão vivos, prestando uma homenagem aos dois em vida, algo que acho válido.

Porém, o grande problema dessa nova versão é, basicamente, não ser Os Trapalhões que todos nós sempre conhecemos. Não ser os mesmos comediantes automaticamente nos leva a encarar os novos atores como caricaturas dos humoristas do passado. Em alguns casos, caricaturas forçadas, como são os casos de Didi e Dedé. Mumuzinho surpreendentemente até vai bem ao substituir Mussum, e Gui Santana simplesmente incorpora o Zacarias, o que torna essa escolha quase automática para qualquer tipo de adaptação do grupo.

E, por mais que tentem justificar que esse revival também tem como objetivo apresentar o programa para novas gerações, é inegável que o público alvo principal da Rede Globo é as gerações que viram os verdadeiros Trapalhões no canal. Caso contrário, o programa teria estreado no Multi Show, casa dos programas de humor para as novas gerações, e não no Canal Viva, casa da audiência mais veterana, que gosta de ver os programas exibidos no passado pela vênus platinada.

Há um lado relativamente positivo nisso: o time de roteiristas tentou resgatar o tom de piadas do programa original, com várias piadas físicas e algumas metáforas do cotidiano repaginadas para os tempos atuais. O tom mais ácido e politicamente incorreto do texto que sempre esteve presente em Os Trapalhões pode ser percebido em alguns momentos, e isso pode ser positivo para o modo de humor que eles estão fazendo.

Entendo que hoje há um pouco mais de abertura para piadas um pouco mais pesadas e sugestivas, ao mesmo tempo que existe uma certa resistência da audiência atual nesse tipo de humor mais politicamente incorreto. Os roteiristas desse programa terão que lidar com os dois lados, andando na corda bamba o tempo todo, o que vai exigir uma maior habilidade de quem escreve tais piadas. No final das contas, o risco que eles vão assumir pode resultar em um programa com uma qualidade um pouco melhor.

Os Trapalhões pode até ser uma pedida para os mais novos terem uma ideia do que as gerações mais velhas consideravam o melhor do humor brasileiro. Mas sempre recomendo que os mais novos usem o YouTube para ver o grupo original. Com apenas nove episódios encomendados, o programa será exibido em um momento posterior na TV aberta. Se funcionar, deve ser renovado.

Mas… insisto: nunca mexa nos clássicos. Nunca.