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A história, você já conhece. Mas é assim que a Rede Record vê essa história.

Temos aqui um recorde de bilheteria dos cinemas nacionais. Levei um mês para criar coragem para ir até os cinemas para assistir Os Dez Mandamentos – O Filme, e isso porque ouvi muitas pessoas consideradas imparciais afirmarem com certa convicção que o filme era bom, apesar dos pesares. E quando digo pesares, devo afirmar que eles existem. Não vou entrar no mérito da questão sobre como eles alcançaram esse recorde de bilheteria (2 milhões de ingressos vendidos na pré-venda, e recorde de salas ocupadas em todo o Brasil… apesar de várias estarem vazias nos primeiros dias de exibição) ou sobre a filosofia dos envolvidos. Vou analisar o filme e nada mais. Até porque minhas opiniões sobre determinadas instituições não ajudam em nada na concepção desse post.

Um dos chamarizes do filme está no fato dele ter um final diferente da novela exibida pela Rede Record, além das ditas cenas inéditas e materiais que não foram aproveitados na novela. Ou seja, apesar de ser uma história onde boa parte das pessoas sabem como termina, o filme tem sim um final alternativo. Bom, mais ou menos. As cenas finais talvez sejam diferentes da novela (não vi a novela, mas os comentários foram esses), dando um desfecho para o filme com um eventual gancho para uma segunda parte.

Sem mais delongas, Os Dez Mandamentos – O Filme conta a história da vida de Moisés, adaptando quatro livros da Bíblia (Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Para quem não sabe (acho difícil), Moisés guiou o povo hebreu para a terra prometida, uma vez que os mesmos eram escravos dos egípcios. Moisés é adotado pela filha do faraó, cresce como príncipe do Egito, mas descobre que é filho de uma família de escravos hebreus. Se volta contra o reino, e decide liberar o seu povo. Não entrarei em muitos detalhes sobre o enredo para evitar os spoilers para quem não é familiarizado com a história. Mas em linhas gerais, é isso aí.

Por partes.

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Muitos entendem que partes importantes da história de Moisés ficou de fora em Os Dez Mandamentos – O Filme, como por exemplo o triângulo amoroso entre os três protagonistas da novela (Moisés, Nefertari e Ramsés). Porém, precisamos entender que esta é uma adaptação da TV para o cinema, e em duas horas de filme é preciso garantir que as coisas mais importantes da história do protagonista estarão presentes no filme. Até porque precisa ser um filme acessível para todos os públicos, mostrando o que realmente é relevante nessa história.

Ao meu ver, a adaptação executada pela Rede Record e Paris Filmes alcança esse objetivo. Os momentos mais importantes da história de Moisés são contados durante o filme, e apresenta essa história para quem não conhece, revisa de forma conceitual para quem conhece, e mantém uma linha narrativa minimamente coerente para que o telespectador não se sinta perdido.

Bom… sobre essa última… mais ou menos…

Os Dez Mandamentos – O Filme tem um problema seríssimo: a edição.

O filme é, de fato, um combinado de cenas extraídas da novela exibida pela Rede Record, e sua edição deixa isso evidente. Não tem como salvar muito nesse caso. Desde o início a novela foi editada como novela, pensada como novela e estruturada como novela. Ao passar para a linguagem cinematográfica, a edição final acaba seriamente prejudicada, porque acaba sendo uma verdadeira colcha de retalhos das cenas da novela. Em alguns momentos, a impressão clara que fica é que a edição do filme foi feita “nas coxas” ou às pressas, apenas com o objetivo final de entregar um filme para capitalizar ainda mais em cima do sucesso da novela.

Bom… isso… e uma filha do faraó com unhas perfeitas, com um esmalte incrível. Mas deixemos isso para lá (não foi pior do que ver um extintor em cena na novela).

De fato, a edição “mata” um pouco da boa experiência do filme. O que compensa é que Os Dez Mandamentos – O Filme também acompanha a grandiosidade da novela na sua produção. Aliás, uma super produção. Várias cenas de externas embasbacantes, e efeitos visuais realmente bem feitos. Algumas cenas são realmente impressionantes quando vemos a grandiosidade e complexidade da produção. Também preciso dizer que os efeitos visuais do filme nã agridem em nenhum momento. Pelo contrário: enaltece ainda mais a qualidade final da estética da produção.

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A tão falada cena de Moisés abrindo o mar (gente, desculpe, mas não isso não é spoiler nem mesmo para aqueles que já viram certos episódios de The Simpsons…) tem um impacto visual realmente espetacular. É o auge do filme em todos os sentidos. Vale o ingresso com certeza. Além disso, algumas cenas com diálogos pontuais são emocionantes e bem dirigidas (fiquem atentos para a oração do pai biológico de Moisés clamando pelo povo hebreu… é algo tocante).

Olha… colocando tudo em uma balança, Os Dez Mandamentos – O Filme é sim um bom filme, mesmo com os problemas e edição. Acho que, como uma forma de apresentar uma história bíblica para a grande parcela da população, o filme cumpre o seu papel. Em termos de produção, o trabalho é realmente grandioso, com um saldo final bem positivo.

A única coisa que lamento é ver uma corporação se orgulhar de bater recordes de bilheteria na pré-venda, e testemunhar salas de cinema vazios. Não seria mais legal ver esses ingressos distribuídos para aquela parcela da população que não tem condições de ir a um cinema? Ou que nunca foram para uma sala de cinema?

Fica a reflexão.

P.S.: aí, ABC… ficou pequeno para vocês com Of Kings and Prophets… se até a Rede Record consegue fazer algo bem feito com história bíblica… cuidado com a porcaria que vocês podem oferecer.