2012 foi o ano da queda de um “gigante” na TV norte-americana. Pela primeira vez em sua história, American Idol (Fox) não foi o programa líder de audiência em uma de suas noites de exibição. Na verdade, o reality musical perdeu por várias semanas em audiência para The Big Bang Theory (CBS), mostrando que o programa “perdeu a mão”, com sinais claros de decadência. E aqui temos a pergunta: o que aconteceu? Para entender o presente, temos que ir para o passado. Lá para o ano de 2002.

Em 2002, o cenário musical era dominado pela música pop, pelas boy bands e pelas cantoras teen. O cenário musical estava começando a se modificar, com o advento da internet para compartilhamento de músicas (via Napster) e com a chegada do iPod da Apple, que mudou a forma do norte-americano ouvir música. O TRL da MTV era o programa musical mais visto dos EUA, mas isso não era o suficiente. Algo precisava ser feito para que a grande massa se interessasse mais por música. E isso foi feito, com o lançamento de American Idol.

No começo, o reality show era considerado “brega” (e era mesmo) e de gosto duvidoso, com cantores de qualidade duvidosa. Mas tudo bem, era a primeira temporada, logo, dá-se um desconto. Mas, mesmo assim, o programa virou sucesso imediato, alternando entre bizarros, bonitinhos e talentosos. Além disso, com uma bancada de jurados que contava com a inusitada combinação de Paula Abdul e Simon Cowell, as chances de Idol dar errado eram realmente muito pequenas. Isso, sem falar que Ryan Seacrest se transformou em um dos maiores apresentadores da TV norte-americana.

Tudo ia muito bem… até a terceira temporada.

Depois de uma segunda temporada polêmica, onde supostamente Paula Abdul teve um caso com um dos candidatos, e a diferença entre o vencedor e o segundo colocado foi realmente mínima, um dos graves problemas de American Idol apareceu de forma crítica: a votação popular. Preterir candidatos que são claramente mais preparados do que aqueles ditos mais populares (ou com uma história de vida mais dramática) começou a ser o comportamento padrão do telespectador norte-americano, que cometeu injustiças musicalmente grosseiras ao longo dos anos.

Na dita terceira temporada, Fantasia Barrino venceu, gritando (ou grunindo, você escolhe) do meio pro fim da parte final (performances ao vivo), enquanto que Jennifer Hudson foi inexplicavelmente eliminada, para que candidatas como Tamyra Gray e Diana DeGarmo tivessem a chance de disputarem o título da temporada. Ok, o tempo mostrou que Hudson era muito maior que isso, tanto que ganhou um Oscar e um Grammy. Mas, mesmo assim, a coisa já era bem estranha.

Na quarta temporada, não houve erros. Carrie Underwood venceu com sobras, tendo a maior votação em todos os programas da fase final.

Na quinta temporada, a injustiça, para muitos, foi maior ainda. Na quinta temporada, a mesma coisa. Venceu Taylor Hicks, que hoje, não quer dizer muita coisa no cenário musical, enquanto que a vice-campeã, Katherine McPhee, estrela o novo sucesso da NBC, a série musical Smash. Mais: a audiência eliminou Chris Daughtry,  que vinha chamando a atenção de todos durante a fase final. Até ser eliminado, por “preguiça dos americanos em votar”. A essa altura, Simon Cowell já havia alertado que o programa estava “perdendo o seu objetivo principal”, e clamava por alguma mudança na mecânica do programa, principalmente em como o público influenciaria na escolha do vencedor.

Na sexta temporada, o público decidiu “se vingar” de Simon, com a campanha “vote for the worst”, escolhendo Sanjaya Malakar como o seu “ídolo”, fazendo com que o cantor de origem indiana (e baixíssimas qualidades musicais) ficasse o máximo de tempo possível, eliminando cantores mais capacitados. Mesmo na final, vencida por Jordin Sparks, a escolha de Blake Lewis como vice-campeão é questionável, uma vez que ele só sabia fazer o beat-box e nada mais (cansou de desafinar na final).

Na sétima temporada, tivemos uma final justa, onde David Archuletta e David Cook chegaram à final com méritos, e Cook se tornou um justíssimo vencedor do programa. A mudança solicitada por Simon só aconteceu na oitava temporada (a primeira com Kara DioGuardi como jurada, e a última com Paula Abdul), quando o recurso de “resgate” foi implantado pela primeira vez (Matt Giraud foi salvo no Top 7). Mesmo assim, isso não impediu que o hoje desconhecido Kris Allen fosse o vencedor, deixando Adam Lambert como segundo colocado.

E foi aqui que o programa começou a se perder de vez.

Começou o troca-troca de jurados. Entra Ellen DeGeneres, que prometeu muito, mas foi um fiasco. Saiu Simon Cowell, que já de saco cheio do programa, resolveu trazer o The X-Factor para os EUA, onde o controle dos jurados é maior. A Fox voltou a enfatizar o drama e minorizar os resultados. Resultado: Lee DeWyze venceu, dexiando Crystal Bowersox, muito mais interessante musicalmente falando, na segunda posição. Na décima temporada, Scott McCreery venceu com méritos, reforçando a força da música country nos Estados Unidos, mas candidatas como Pia Toscano e Casey Abrams ficaram pelo caminho, para que Lauren Alaina chegasse à final.

E na última temporada… Jennifer Lopez, mais interessada em sua carreira musical que foi resgatada por causa de American Idol, e Steven Tyler, mais preocupado em cantar as candidatas (mesmo sendo menores de idade, e com o pai delas presentes nas audições), transformaram a temporada na pior de todas, e a audiência respondeu de forma direta à isso: a média de audiência da décima primeira temporada de Idol foi a pior em média excluindo a primeira, (21.93 milhões), e tanto as performances ao vivo quanto o Season Finale tiveram as piores audiências de toda a história do programa. Incluindo a primeira.

Foi tão ruim, que nem indicada ao Emmy como melhor reality competition o programa foi.

2013 vem aí. Mariah Carey também. Peço desculpas a quem gosta, mas Carey é o retrato do que o programa está se tornando: decadente. As escolhas da Fox são feitas para atrair audiência e público. Tal como em The X-Factor, com Demi Lovatto e Britney Spears na bancada de jurados. O problema é que em um programa, ainda temos Simon Cowell, e em outro, não.

Mais: o problema é que, em um programa, estamos apenas na segunda temporada do programa, enquanto que no outro, além de depender do bom senso do público, faz escolhas equivocadas naqueles que escolhem os candidatos para a votação popular. Talvez seja a hora da Fox repensar a ideia do American Idol, antes que a ideia atual deixe de dar dois dígitos para o canal. Caso contrário, nem Ryan Seacrest vai salvar.