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No final da década de 1990, eu ainda era uma criança quando assisti (acreditem, na escola) o que viria a ser uma das maiores franquias do terror moderno: Pânico. Pela primeira vez um filme de terror veio varrer toda uma cultura cinematográfica criada nas décadas de 1970 e 1980. Iniciava ali a releitura do gênero para uma nova geração. Hoje, Pânico se tornou um clássico. Mesmo o primeiro filme sendo relativamente recente (1996), todos os filmes de terror posteriores tiveram algo inspirado em Pânico, seja no formato, na edição, no roteiro e, em muitas vezes, em tudo.

A história de Sidney Prescott foi criada por Kevin Williamson, o mesmo criador da série The Following, e contava com um caldeirão de referências a filmes de terror antigos, regras pré-estabelecidas, humor espontâneo, e uma grande reviravolta final: a grande revelação que a história tinha dois assassinos.

Quase duas décadas se passaram, e Kevin Williamson nos convidou novamente a acompanhar uma história sobre o mesmo tema, agora com o acréscimo de que ao invés de dois, seria uma seita com um incontável número de assassinos. Com isso, temos um universo de possibilidades, com mais ação, mais suspense, e referências muito mais complexas como a obra de Edgar Allan Poe. Uma proposta ousada e madura, como foi citada em sua estréia.

Porém, no decorrer de sua temporada de estreia, tudo parece ter se perdido. O universo expandido se tornou absurdo, a suspensão de realidade dos fãs teve ser elevada a máxima potência para relevar os furos de roteiro, o psicopata que era sombrio e sádico se mostrou uma fanfarrão que nem parece saber o que está em sua volta. O FBI é um capítulo a parte: seus membros parecem ter a inteligência de uma panicat (não estou dizendo que elas são burras), e o especialista Ryan Hardy, único que supostamente conheceria a mente do psicopata Joe Carrol, não consegue ser um trunfo nas mãos do FBI.

Mas nem tudo é ruim na série. Até arrisco a dizer que ela está procurando entender o que ela é e pra onde ela vai. Por isso os episódios estão tão atrapalhados e com tantos problemas, mas como diária minha avó “quando a gente se perde no caminho, o melhor é voltar para o começo” e esse começo é justamente a franquia de filmes Pânico, que é para onde Kevin Williamson deveria retornar pelos motivos a seguir:

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The Following transforma a morte um espetáculo literário

Não tenha medo de matar: nesse universo psicopata, os personagens precisam morrerem, mesmo que eles sejam importantes na trama. Todo mundo ficou surpreso quando Drew Barrymore morreu na primeira sequência do filme, até porque ele fez o público acreditar que ela era a protagonista, e depois rapidamente a tirou da história. A partir daí, ele já sugeriu ao público a acreditar que naquela história, ninguém está a salvo (escola Shonda Rhimes), e que tudo poderia acontecer. Ele repetiu a estratégia no piloto de The Following, matando a única sobrevivente do massacre de Carrol no piloto, mas isso não se consolidou no decorrer da série.

Use referências atuais: em Pânico, Willianson sempre utiliza referências recentes (década de 1980 e 1990) do terror e da cultura pop, onde nada precisa ser explicado, pois todo mundo entende rapidamente. Já  The Following fica nessa de reescrever a grande obra de Allan Poe, homem que morreu em 1849. O resultado é toda hora tem que explicar e explicar as referências, isso está se demonstrando cansativo. Usa uns autores mais atuais, como Stephenie Meyer, Stephen King, E L James, Bruna Surfistinha, sei lá. O legal da metalinguagem de Pânico é que não há necessidade de explicar muito e isso fica mais dinâmico e engraçado.

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Gale Weathers: não existe serial Killer páreo para ela

Contrate a Courtney Cox: Gale Weathers é a melhor personagem de Pânico. No universo de The Following, ela já tinha descoberto todos os membros da seita, ironizado todo o FBI por estar sempre à frente deles, entrevistado exclusivamente o Joe Carrol, escrito um e-book, vendido os direitos pro cinema e ainda e ainda estaria noiva do Ryan. Gale era um personagem importante porque era a única personagem realmente inteligente naquele universo de assassinos desastrados, com a participação especial de uma mocinha birrenta. Ela seguia seus instintos e era a âncora do desenvolvimento da história, trazendo o seu olhar ampliado e faro jornalístico. The Following precisa de um personagem que traga uma terceira visão, e não ficar nessa dualidade entre o lado psicopata e o lado policial.

Seja bem humorada: Pânico não se levava totalmente a sério, e consegue equilibrar os momentos cômicos com os de terror. Uma história de suspense te relaxa só pra depois te prender na cadeira. Funciona melhor assim e tudo se torna muito mais interessante, pois o espectador fica mais à deriva e os furos de roteiro passam mais despercebidos.

Use uma mascara: em vez de colocar um monte de gente aleatória comentando assassinatos, coloque um suspense sobre quem está cometendo. A máscara cria mistério. E ainda você pode economizar contratando um ator só.

Invista em personagens: quando você cria personagens e explica os seus dramas, traumas, qualidades e defeitos, a história fica mais cativante, fazendo o público se importar com esse personagem. Só nessa iniciativa, você já tem metade do sucesso garantido. The Following só agora (depois do 10° episódio) nos apresenta de maneira mais convincente a que veio seus personagens. Um pouco tarde já que muita gente abandonou a série.

O importante não é ter amigos e sim fãs. Não é isso, Williamson? Então, pare de querer produzir uma série nível HBO (Girls ou Game of Thrones) e passe a produzir uma série estilo Fox (Uma mistura de Glee e Bones). Neste momento talvez o melhor caminho seja voltar às origens, e recriar uma série que seja violenta, divertida, criativa, eficiente e o mais importante: que tenha bom senso.