23 de maio de 2010 foi um dia memorável e tumultuado no mundo das séries. Lost (ABC) chegava ao seu final, encerrando um ciclo que envolveu de um lado a paixão de uma legião de fãs, e um alívio para quem escreve sobre o mundo das séries. Um ano depois do final da série, vamos aqui apresentar algumas lições, para os fãs, não-fãs, blogueiros, e para a indústria da TV em si.

Não vamos discutir aqui se a série é boa ou não, e muito menos se ela é a melhor de todos os tempos ou não (mesmo porque não é). Vamos nos centrar nas lições. Lições essas que perduram de forma velada, mas constante em todos que se envolveram de forma direta e indireta com a série mais comentada (e cultuada) dos últimos 10 anos.

1) Fã de Lost era chato. Mas, em compensação…

A semana do Series Finale de Lost foi uma das mais insuportáveis de todos os tempos nas mídias sociais. Naquela altura dos acontecimentos, tinha fã de Lost brigando com fã de Lost, e os dois lados temerosos pelo o que aconteceria no final. Aqueles que não gostavam ou criticavam a série eram tratados como raças inferiores ou alienígenas, e indivíduos que ameaçassem soltar spoilers sobre a série no Twitter durante a exibição do final eram ameaçados de morte.

No dia do episódio final, alguns fãs simplesmente se isolaram do mundo, e só voltaram à sociedade depois que constataram o final “Manoel Carlos Mode” diante da tela do PC. Esse comportamento psicopata era algo realmente insuportável, e fez com que muita gente se afastasse da série pelo fanatismo absurdo que as pessoas exerciam sobre a mesma. E fico feliz que muitos dos meus amigos “voltaram ao normal”.

Em compensação, com a nova Fall Season, tivemos uma nova horda de fãs xiitas por outras séries. Mas de modo piorado: aqueles fãs que queriam por todo custo justificar que uma série muito ruim era muito boa, mesmo quando estava na cara de todo mundo que não era. Independente de gosto pessoal, Lost ao menos tinha a dignidade de ter uma boa produção, ou de ter uma proposta razoavelmente concisa (até a quarta temporada, com certeza).

Já outras séries dessa temporada, que tinham alguns fãs, contavam com histórias mal feitas, com roteiros sem sentido, e com um resultado final que não justifica a tal devoção dessas pessoas. Não vou citar exemplos de quais séries estamos falando, mas quem acompanha o podcast sabe bem quais são. É só pensar na frase “você pode gostar de bosta, mas não venha me dizer que bosta é boa porque não é”. Nesse aspecto, os fãs de Lost eram chatos, mas o motivo até que era justo.

2) Todo canal quis lançar o “novo Lost”. E falhou!

Quando uma fórmula na TV dá certo, os outros canais resolvem ir na esteira da tal proposta, para tentar pegar a sua fatia de mercado. Não são culpados por isso, pois nos dias de hoje, “nada se cria, tudo se copia”. Mas, se vai copiar, ou copia direito, ou nem tenta. Exemplos: Flash Forward (ABC) foi um grande fiasco, tendo a cara de pau de ir na esteira do “mistério inexplicável, utilizando viagens no tempo”.

The Event (NBC) foi outra que colocou na tela a proposta do “qual é o evento” ou “o que vai acontecer depois”. Também não colou. Talvez o motivo desses fracassos é que Lost começou a ir ladeira abaixo para muitos quando introduziu o elemento viagem no tempo na sua trama (muita gente abandonou a série nesse ponto). Logo, todo mundo que tentar isso tem poucas chances de acertar. Fringe (FOX) se deu bem porque conseguiu mostrar uma excelente estrutura de realidade alternativa. Já Alcatraz (FOX) e Terra Nova (FOX) precisam ficar de olhos bem abertos, senão vão naufragar.

3) Lost iniciou a era dos downloads e legendagem de séries pela internet

Lost iniciou uma nova fase na cultura de séries televisivas: a era do download. E isso foi no mundo inteiro, e não apenas no Brasil. Se Lost não existisse, muito provavelmente estaríamos conformados em assistir as séries pela TV a cabo ou por DVD, já que a ansiedade não tomaria conta dos usuários para buscar o episódio recém lançado. Lost apresentou o mundo das séries à uma nova geração de expectadores, motivando essa nova geração a buscar mais informações sobre a série na internet, promovendo a mesma nas mídias digitais como nenhuma outra série até então conseguiu.

Além disso, aproveitou o momento em que as conexões de internet estavam se tornando mais rápidas, e isso motivou o farto compartilhamento online de episódios de série. Talvez esse seja o maior legado de Lost: ser a série da primeira geração online.

4) O final pode te surpreender. Para o bem, e para o mal

Desde que o SpinOff começou, em 2008, eu apostava que o final da série não iria agradar a maioria dos fãs que estavam paranoicos com “equação de Valenzetti”, “os números”, “o broche da Eloise”, entre outros. Muitos fãs xiitas, ditos “os especialistas em Lost” afirmavam que, quem não gostava da série era burro, ou não tinha inteligência para acompanhar a trama e seus elementos complexos.

Ok. Conforme a temporada final foi avançando, foi se comprovando que os tais elementos não serviam para resolver ABSOLUTAMENTE NADA, e eram apenas referências de diversas culturas (como toda trama inclui na sua narrativa), e aqueles que tratavam os normais como raças inferiores foram, aos poucos, se decepcionando ao verem que estavam errados.

Na verdade, ninguém (e eu disse ninguém) acertou como seria o final de Lost. E digo: ao meu ver, o final não foi ruim. É um bom episódio para encerrar uma série. Talvez o maior pecado é que a história contada no final não condiz em nada com a proposta inicial da série. Afinal, uma série que começou como uma série de ficção, com um mistério envolvendo algo gigante (a Dharma Initiative), terminou como uma série de fantasia, com toques de Caverna do Dragão, e com um final digno de novela da Globo.

E isso porque eu nem falei da pior parte: a metáfora que foi real (no caso, “a ilha é uma rolha”; e tinha uma rolha de verdade no momento mais crucial do final). Mas, mesmo assim, o final contemplou aqueles que viram a série apenas como a série foi: uma história que foi contada. Já os fãs xiitas, que perderam parte de suas vidas buscando teorias que não levaram à lugar nenhum, faltou o quesito ACEITAÇÃO, que toda história de ficção exige.

5) Com a Fall Season que tivemos, temos que dizer: Lost faz falta!

A Fall Season 2010/2011 foi uma das mais fracas que já tivemos. Poucas séries novas se sustentaram, e nenhuma delas conseguiu chegar perto da atenção que Lost gerava. Hawaii Five-0 (CBS) funcionou porque era um remake que não tinha como dar errado, mas é uma história que beira ao reciclável (não estou dizendo que é ruim, mas também não é complexa), e isso atrai público fácil. Do mais, não tivemos nenhuma grande série da TV aberta dos Estados Unidos que desponte como “a” grande série da temporada. Pelo contrário.

A atual Fall Season foi recheada de um festival de dramas medíocres, com propostas pouco criativas, com variações do mesmo tema que foram mal feitos, apenas para atrair o telespectador pela forma mais fácil e objetiva possível. Não houve nenhuma série que despertasse nos fãs o desejo pela espera a cada semana, o download de forma mais rápida, a legendagem de um dia para outro.

A TV aberta dos Estados Unidos ficou com um buraco a ser preenchido bem maior que o buraco da rolha no episódio final de Lost. Para muitos, valia a pena gastar dinheiro em mais uma temporada de Lost do que algumas estreias dessa temporada.

A lição final: Lost entra para a história, como um produto único.

Não me lembro de uma série antes ter criado tanta devoção e ódio como Lost. Talvez se a internet existisse quando Twin Peaks e Arquivo X foram lançadas, o efeito colateral seria o mesmo, mas ainda acho que não seria tão intenso. Lost consegiu aquilo que todo criador de série deseja: entrou para a história.

Se diversos blogs de séries estão relembrando a data de hoje, é porque não estamos falando de uma série qualquer. Estamos falando de um produto televisivo que mudou a TV como conhecemos, apresentou o mundo das séries para uma geração inteira, e se definiu como um modelo de como mobilizar a geração internet diante de um produto televisivo.

Como disse antes, não cabe mais discutir se Lost é a melhor série de todos os tempos. Eu, particularmente, não acho isso. Mas não sou leviano a ponto de não considerá-la uma das melhores e mais importantes da história da TV. Depois de um ano, vemos Lost como aquela série que sempre será lembrada em qualquer lista de blogs e sites especializados. E vai levar um bom tempo para que outra série alcance o mesmo impacto que Lost causou em milhões de fãs ao redor do mundo.