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Texto livre de spoilers.

Todo mundo sabe o que eu penso de Glee. E para aqueles que não sabem, eu digo: eu não gosto de Glee. Acho que Ryan Murphy deixou a série descartável, com claro apelo comercial e fonográfico, e com argumentos de roteiro absurdos. Alguns episódios simplesmente não precisavam existir. Funciona? Claro que sim. Não quer dizer que é bom. Porém… eu deixei tudo de lado para assistir “The Quarterback”. Porque valia a pena. E, de fato, valeu muito. Muito mais do que eu imaginava.

Quando eu recebi a notícia da morte de Cory Monteith, eu me lembro que tive uma sensação estranha. Não só pela surpresa da morte dele (que não foi tanta, levando em conta o fato que ele tinha ido para a reabilitação meses antes), mas por ser ele. Me peguei pensando sobre essa morte repentina, e me importei com isso. Me importei porque Cory era jovem, cheio de vida, com todo um futuro pela frente. É, talvez eu esteja ficando velho mesmo. Com a idade, nos importamos mais com esse tipo de acontecimento, principalmente pela forma como as coisas acontecem. Você começa a pensar mais no sofrimento daqueles que estão ao redor daquele que partiu do que no simples e trivial fato que “ele jogou a sua vida fora”, como alguns insistiram em dizer na época.

Ninguém quer jogar a vida fora. A maioria das pessoas estão nesse mundo com um objetivo comum: a felicidade. Obviamente, esses caminhos nem sempre resultam no pote de ouro (ou, no caso de Finn Hudson, o touchdown). Mas talvez a melhor coisa que pode acontecer nas nossas vidas quando algo dá muito errado é ter a oportunidade de recomeçar. Levantar a cabeça, respirar fundo, e enfrentar o caminho novamente. E eu tenho pena das pessoas que não pensam assim.

Eu decidi assistir aos três primeiros episódios da quinta temporada de Glee, até mesmo para saber qual seria a sequência de acontecimentos que culminariam no episódio de tributo à Finn Hudson/Cory Monteith. De novo: não gosto de Glee, e continuo não achando essa Coca-Cola toda que pregam. Mas reconheço que Ryan Murphy mais uma vez foi genial.

Manteve os planos de dois episódios de tributo aos Beatles, mas inseriu pelo menos uma cena alusiva à perda recente. Lea Michele cantando “Yesterday”, de forma emblemática, no começo da quinta temporada. Ali começou o tributo ao amigo, namorado, colega de elenco… ao quarterback. O episódio de tributo não só mostrou o que aquele grupo de profissionais estava sentindo em relação ao colega de elenco que faleceu. Foi uma terapia em grupo sem precedentes. Foi a forma deles expressarem e até se libertarem de toda a dor que a perda daquele amigo estava representando.

Sim, amigos. Aquele grupo de profissionais se enxergava como um grupo de amigos. Pessoas que se apoiavam, que se amavam, e queriam progredir juntos. Não é pecado pensar assim. Quero entender dessa forma. Pois só dessa forma esse grupo de pessoas poderia ter forças suficientes para fazer o que fizeram.

E o mais importante: compartilharam com os seus fãs o sentimento de perda. Eu imagino que a maioria dos fãs de Glee puderam compartilhar desse tributo, e refletir sobre os pontos apresentados no episódio. Não apenas chorar a morte de Finn/Cory, Ryan Murphy de novo levantou questões relevantes ao cotidiano daquela faixa etária. Tentou abrir os olhos do jovem sobre suas escolhas, sobre a forma de se encarar a vida. Sobre a necessidade de ficar próximo das pessoas que realmente se importam conosco.

Hoje infelizmente, vivemos em um mundo onde temos um grupo de “aborrecentes pseudo-rebeldes/revoltados”, mas que na verdade são apenas crianças crescidas chatas, que acham que são auto-suficientes apenas porque sabem fazer comentários mal educados na internet. A maioria deles não consegue olhar para o seu redor, pois estão afundadas no vazio de sua existência. Boa parte deles, infelizmente, fará escolhas erradas no futuro. E eu torço para que eles NÃO tenham um fim trágico.

Nós, seres humanos ditos racionais, não sabemos ainda como lidar com a perda. A maioria dos leitores do SpinOff, por conta da faixa etária, ainda não perderam alguém realmente importante na vida. E para aqueles que já perderam, sabe do que eu quero dizer. Perder alguém, mesmo quando a gente já sabe que não vai mais ficar conosco por muito tempo, já é algo dolorido. Que dirá uma morte repentina. Acho que depois de “The Quarterback”, os fãs de Glee poderão processar melhor a perda de Cory Monteith.

De novo: eu senti a morte de Cory Monteith. Acho que senti mais pelo simples fato de que essa morte vai diretamente na contra-mão de tudo o que Glee é. Independente daquilo que eu penso sobre a série, eu ao menos tenho a certeza de uma coisa. Glee, antes de tudo, é um dos símbolos mais claros da máxima “vamos celebrar a vida”. Aliás, muito mais do que isso.

Glee sempre foi aquela forma de mostrar ao mundo que os perdedores, os renegados, os “loosers” podem e devem ser felizes, sendo eles mesmos. Muita gente vive por aí não se aceitando, não se olhando no espelho pelo medo ou vergonha, e deixando de aproveitar as oportunidades que a vida oferece. Muita gente vive por aí vivendo outra vida, menos a própria. E Glee mostra que não é necessário nada disso.

Glee é uma série alegre, divertida, que celebra a vida. Falar sobre a morte de forma tão direta não é apenas um desafio para Ryan Murphy e sua equipe de roteiristas. É um desafio para os fãs, principalmente. Não acho que os jovens precisam lidar com a morte da mesma forma que os adultos fazem, mas precisam saber adicionar alguns elementos essenciais para continuar a celebrar a vida. De fato, entendo que a missão da juventude é efetivamente comemorar o fato de estar vivo. Viver e ser feliz. Não só do jovem, mas da criança, do adulto, do idoso… de todo mundo.

O Quarterback se foi. E Ryan Murphy tratou de falar sobre isso com humanidade e dignidade. Tem gente que vai reclamar. Tem gente que vai dizer que foi pelo sentimentalismo barato, que foi para conseguir audiência, que foi para “fazer drama”. Que se dane quem pensa assim. De verdade. Eu não me importo com essas pessoas.

Me importo muito mais com o fato de que um grupo de amigos decidiu prestar a última homenagem ao amigo que se foi. Quis compartilhar com os fãs da série a dor que estavam sentindo. Demonstrou humanidade para falar sobre isso.

Continuarei a não acompanhar Glee, mas mais uma vez aplaudo Ryan Murphy de pé. E, por tabela, aplaudo esse grupo de profissionais que se envolveram nesse episódio. Principalmente Lea Michele, que tirou forças de locais que desconheço para fazer os três primeiros episódios. Entendo que as pessoas precisam ser mais livres para demonstrar os seus mais profundos sentimentos. E por tudo o que acompanhei sobre esse triste episódio, entendo que Glee cumpriu com esse objetivo, independente de qualquer coisa.

A vida para Glee retorna no dia 7 de novembro nos Estados Unidos. Até lá, vamos processar a informação que, dessa vez, e em definitivo, “O Quarterback” se foi.