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O Pequeno Príncipe é um dos livros mais conhecidos de todos os tempos. A obra do escritor e ilustrador francês Antoine de Saint-Exupéry já foi traduzida e adaptada para o mundo todo, e quando temos mais um filme sobre esse livro, muitos podem se preocupar: ‘por que eu vou assistir a um filme que eu já conheço como é a história?’. Simples: para não se esquecer.

A versão cinematográfica de 2015 dirigida por Mark Osborne tem duas missões muito importantes. Primeiro, apresentar para as novas gerações uma das histórias mais espetaculares já criadas pela mente humana. E segundo, fazer com que os adultos ‘não se esqueçam’. Ou relembrem essa história. Ou em como essa história pode ter mudado a vida de muitos.

Eu me lembro quando eu li O Pequeno Príncipe pela primeira vez. Me lembro que ‘devorei’ (não literalmente… sim, tenho que explicar para quem não sabe ler ironias em texto…) o livro na primeira leitura, e que reli pelo menos três vezes antes de pegar outro livro para ler. E o mais legal de tudo é que, quando você procura ler o livro em outra fase da sua vida, ele ainda se mantém atual, mesmo que você assuma uma outra interpretação que apenas a sabedoria da idade pode oferecer.

Quando criança, nos prendemos ao mágico. Ao espetacular. Ao lúdico de poder viajar por entre planetas. Em voar pelo espaço com a ajuda de aves te puxando por cordas. Ao fantástico movimento de pegar um asteroide e chegar na Terra. O mundo da fantasia expresso em O Pequeno Príncipe é tão saboroso, divertido e, ao mesmo tempo, simples… que é impossível você ler esse livro apenas uma vez em toda a sua vida. É o tipo de livro que você faz questão de ser transportado para aquele universo por mais de uma vez.

Mas quando chegamos na adolescência e idade adulta… ler O Pequeno Príncipe se torna uma grande lição. Aliás, várias.

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Antoine de Saint-Exupéry é brilhante na hora de apresentar os diferentes movimentos da vida em metáforas sutis e singelas. O amor, a vaidade, a saudade. A distância que reforça o sentimento de amor. A importância sobre como a viagem é tão valorosa quanto o ponto final. A faceta fria dos adultos diante da racionalidade e da urgência em serem brilhantes. A amizade. A importância de se cultivar a amizade de alguém. A dor do afastamento. A necessidade de voltar para quem se ama. A morte.

Tudo isso é contado nessa história, com o objetivo de lembrar ao adulto sobre o quão importante são essas fases da vida. E que para passar por elas, ajuda muito o fato de ‘não esquecer’ que, na infância, você acreditou que todo o lúdico que você viveu valeu a pena. E que te ajudará a não ser um adulto frio, centrado apenas na competência, ou na superficialidade que a perfeição apresenta.

O filme de Mark Osborne faz uma releitura dessas metáforas. Mostra como a história do livro pode impactar a vida das pessoas. Em como essas lições podem ser valorosas para as crianças se tornarem adultos incríveis no futuro. O livro ajudou a formar o caráter e a personalidade de muita gente, e no filme, isso não é diferente.

Uma menina que teve a sua vida programada pela mãe até a fase adulta, com uma rotina totalmente centrada na eficiência de horários e estudo. Sem tempo para amigos, para o lazer. Sem tempo para ser criança. E é necessário um outro adulto para mudar isso. Na verdade, um idoso. Um velho aviador, que um dia, encontrou no deserto do Saara um menino, que se dizia príncipe, e que lhe pediu para desenhar um carneiro.

A amizade do velho aviador com a menina floresceu, sempre baseada na fantasia de ser criança, mesmo quando um deles está no fim da vida. Durante aquela convivência, o aviador finalmente encontrou a pessoa certa para ouvir a sua história. Sobre como o fato daquele menino cruzar o seu caminho mudou a sua vida. E como isso foi importante para que a sua existência não fosse algo comum e banal, como é a vida da maioria dos adultos que conhecemos.

A missão da menina não é só não se esquecer do velho amigo. É também de levar essa história adiante. Manter viva a ideia da fantasia e da amizade sincera, que supera o tempo e o espaço. Não se deixar levar pela falsa eficiência dos adultos. E a partir dai ser um adulto que cresceu, mas não esqueceu.

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Tecnicamente, O Pequeno Príncipe é um filme muito interessante. Diferentes técnicas de animação são aplicadas, onde eles utilizam até os traços do próprio Antoine de Saint-Exupéry para ilustrar o livro propriamente dito. As transições entre a história narrada na tela e aquela contada pelo velho aviador (e consumida pela menina) são bem perceptíveis e bem feitas, e ninguém vai ficar perdido em momento algum durante o filme.

Aliás, o resultado final da animação é realmente muito bom. A ambientação do filme é excelente, e alguns gráficos utilizam técnicas modernas de animação, onde as imagens reproduzidas são altamente inspiradas em objetos reais. Ou seja, até um filme com um contexto teoricamente simples pode oferecer elementos modernos na parte técnica.

Outro ponto positivo é o seu texto e enredo. É um texto objetivo, onde os personagens da história principal se comunicam sem rodeios. Uma ideia interessante foi o diretor inserir as falas do livro em suas passagens, o que tornou a narrativa ainda mais sensível. O filme segue um ritmo crescente, até se tornar uma aventura propriamente dita quando chega nos seus 30 minutos finais. Algumas das escolhas tomadas pelo diretor podem ser consideradas banais e óbvias para alguns, mas são necessárias para que a mensagem principal do filme fosse transmitida.

A homenagem para Antoine de Saint-Exupéry é simplesmente brilhante. O filme conseguiu captar (e transmitir) claramente a mensagem que o autor original imaginou quando criou a obra. Entendo que os franceses, que já eram orgulhosos por terem como compatriota o criador de O Pequeno Príncipe, poderão se sentir satisfeitos com o resultado final apresentado nos cinemas de todo o planeta.

Por fim, O Pequeno Príncipe é um filme para todos. Crianças, jovens e adultos. É um filme que, quando você sai do cinema, deixa as mensagens na mente e no coração. Faz você ter vontade de ligar para aquela pessoa especial, que mesmo à distância, está perto de você quando você fecha os olhos, se concentra, e deseja no mais fundo do seu coração.

Até porque aquilo que é especial e único para nós é invisível aos nossos olhos.