o mínimo para viver

Porque estamos vivos!

Assisti ao filme O Mínimo Para Viver enquanto voltava da casa dos meus pais. Eu voltei para a minha cidade natal porque minha mãe estava completando 76 anos de vida. Não fui apenas porque a data era importante, mas porque ter uma mãe hoje em dia é um privilégio. Nem todos podem ter uma boa referência materna e paterna, e podem sofrer por isso.

Me surpreendi com esse filme por abordar o problema da anorexia de forma nua e crua, mas também por colocar o dedo na ferida de muita gente. É um filme que gerou muitos falatórios sobre como responsabilizou vários fatores que nos cercam na nossa realidade atual como culpados ou responsáveis para que os jovens acabem caindo nessa situação que, convenhamos, é crítica.

O filme mostra o dia a dia de jovens que sofrem de anorexia, ou seja, não sentem a menor vontade ou estímulo de se alimentarem normalmente. E não pense você que esses jovens não comem porque se consideram gordos demais. Seria, de fato, um motivo bem fútil para não comer. Aqui, os problemas são bem mais sérios do que se imagina, e muito mais profundos do que os nossos olhos podem ver à primeira vista.

 

 

A trama é centrada em uma garota na casa dos seus 20 anos de idade, que não reconhece que tem alguns problemas, principalmente quando se refere nos seus hábitos alimentares. Porém, não só a sua aparência física demonstrava que ela não estava bem, mas todo o seu entorno: ela era filha de pais separados, mas morava com uma tia e uma prima. A mãe achou que ela era um fardo pesado demais para ela carregar, e que seus problemas poderiam atrapalhar o seu novo relacionamento amoroso. E seu pai era sempre ausente. E ela perguntava por ele o tempo todo.

Ela é aconselhada a se internar em uma clínica de reabilitação que, de certo modo, atua como um grupo de ajuda. Lá, além de encontrar pessoas completamente diferentes de sua personalidade, encontra problemas semelhantes aos seus, mas com as mais diferentes origens: fim de uma carreira na dança, problemas com drogas, gravidez precoce, doenças terminais… ali, ela vê que não é só ela que tem problemas. E entende que a solução para a sua anorexia está no que sempre fez falta à ela: os pais.

O Mínimo Para Viver gerou certa polêmica por responsabilizar a ausência dos pais, a influência da cultura pop, a exigência da vida profissional, a pressão e preconceito da sociedade e vários outros fatores que podem levar um jovem a não ter mais vontade de comer. Isso não foi bem visto por algumas pessoas. Alguns entendem que o jovem também deve ser responsável por se matar aos poucos ao adotar a restrição alimentar como norma de sua vida.

Entendo que as duas pontas do processo tem a sua parcela de responsabilidade de culpa. Mas também entendo que tem muitos adultos que se esqueceram que já foram adolescentes um dia, e que o adolescente é ainda um ser em formação, e invariavelmente são mais frágeis emocionalmente. Não é fácil ficar longe dos pais enquanto adulto (eu posso falar isso com conhecimento de causa), imagine enquanto adolescente, onde o mundo tem mais perguntas do que respostas.

Logo, acusar o filme de ser fantasioso demais ou lúdico demais sobre as origens dos problemas de anorexia é um tanto quanto irresponsável. Nesse aspecto, o filme é bem claro e objetivo.

Algumas cenas são realmente fortes, como aquelas que mostram o corpo da protagonista em pele e osso, ou quando uma das internas da clínica sofre um aborto. Isso realmente pode sensibilizar aos mais sensíveis, mas pelo lado negativo, achando que aquele conteúdo é forte demais. Porém, eu entendo que, tal e como acontece com outras enfermidades dos tempos modernos, se a verdade não for mostrada nua e crua, ela não é sentida pelo grande público. A maioria vai continuar a achar que é um problema banal, ou que é apenas frescura de adolescentes com muito tempo livre na vida. E não é assim que funciona.

 

 

O Mínimo Para Viver tem uma narrativa propositalmente lenta, para que você efetivamente faça a leitura das aspirações, motivações, anseios e dramas dos personagens, principalmente da protagonista. Podemos não ter atuações brilhantes ao longo do filme, mas são convincentes para te colocar a par do problema.

Concordo que existem algumas situações um tanto quanto forçadas, mas elas não comprometem o conjunto da obra. Podem passar completamente batidas diante de todo o contexto geral apresentado, já que o que é mais importante nisso tudo é o sinal de alerta que temos em tempos tão individualistas que passamos.

Recomendo que O Mínimo Para Viver seja visto por adolescentes e adultos e, se possível, que seja visto com pais e filhos juntos. Que discutam o tema. E que as duas partes do processo possam se abrir e discutir o tema com seriedade e maturidade.