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Em 2009, American Idol era um verdadeiro fenômeno da TV norte-americana. Com uma audiência média acima dos 25 milhões de telespectadores, o reality musical era a maior audiência da Fox e da TV dos EUA. Talvez esse ano tenha marcado a última grande temporada do programa, que começou a declinar depois que a América escolheu Kris Allen como vencedor no lugar de Adam Lambert. Mesmo assim, Kevin Reilly, na época CEO do canal, decidiu apostar em uma série musical para capitalizar em cima daquele momento onde as pessoas estavam mais propensas a consumir música. E decidiu colocar no ar a série Glee.

O projeto era de responsabilidade da dupla Ryan Murphy e Brad Falchuck, que já eram conhecidos do gurpo Fox por conta do drama Nip/Tuck. Quando o projeto da série foi revelado, eu me animei por dois motivos. O primeiro, por ser uma série musical – e eu adoro música. E o segundo, pelo fato da proposta geral da série em mostrar o lado dos perdedores, dos excluídos, ou da “base da cadeia alimentar” de um colégio qualquer do interior dos Estados Unidos.

Bom, pelo menos na teoria. Convenhamos, o começo da série foi bem calcado nisso. Se a série se perdeu depois, é outra história.

O segundo motivo para mim sempre foi o motivo pelo qual eu assisti pelo menos as três primeiras temporadas de Glee. A primeira temporada da série é realmente muito boa, com episódios excelentes, que mostravam as dificuldades daqueles jovens que não estavam nos grupos dos mais populares do colégio, e que usavam da música para expressar o que sentiam. E feliz daqueles que conseguem fazer isso.

A música é a grande válvula de escape para muita gente. Para aqueles que não contam com uma jaqueta de um time de futebol americano, ou uma roupa de cheerleader para se fortalecer (como se fosse um manto de popularidade), as canções podem ser a única forma de expressar as dores, os dissabores e as dificuldades. E, nesse aspecto, entendo que Glee fez um favor para muita gente. Se conectar com os “loosers”, com aqueles que só queriam ser especiais dentro de suas realidades.

Aqueles que só queriam ser aceitos por serem como são.

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Particularmente, ao ver os dos últimos episódios de Glee, me agradou mais ver o “piloto alternativo”, focado em 2009. Sim, pois não só eles recontaram a história do início daquele grupo de coral, mas também mostraram essa história sobre a perspectiva dos demais envolvidos. Se você rever o piloto original, ele está 100% focado nos personagens Rachel Berry e Finn Hudson (e isso se alinha ao final original que Ryan Murphy queria dar para a série, focado nos dois).

Ou seja, os dois episódios se completam. O penúltimo episódio de Glee foi pensado naquele que viu o primeiro episódio da série. E voltar para 2009 não foi uma má ideia. Pelo contrário.

O sentimento foi o de nostalgia. Foi de ver como tudo começou, e como a ideia inicial da série era boa o suficiente para me estimular a acompanhar essa história. Confesso que fiquei empolgado ao rever pela 57ª vez “Don’t Stop Believin'”, porque o episódio como um todo mostra como faz sentido essa música estar no começo da série. Até porque a jornada de todos eles se resumiu em um único verbo: acreditar.

Acreditar que aquele pequeno clube de coral na escondida cidade de Lima, Ohio, poderia mudar a vida de todos para sempre. Acreditar que eles seriam mesmo aceitos por serem quem eles são, trabalhando em grupo, apesar de todas as personalidades muito diferentes. Acreditar que eles se destacariam pelos talentos genuínos, e não pelos rótulos que os demais colocavam.

Acreditar nos sonhos.

Se Glee tem algum grande mérito, é justamente esse. Mostrar para uma geração que vive na era do bullying, dos rótulos, do individualismo e do consumo desenfreado que é sim possível assumir o seu próprio destino, sendo diferente, fazendo parte de algo especial, e sem necessariamente se envolver com o movimento das massas. Mostrou ao mundo que os “loosers” podem se transformar em “winners”, e que não viver nos padrões não é necessariamente um problema. Desde que você seja sempre você mesmo.

Acredito que a primeira temporada de Glee, por estar mais alinhada à esses valores do que nas vendas de músicas, foi mesmo a melhor da série. A prova disso são as 19 indicações ao Emmy Awards em 2009, e o Globo de Ouro de 2010, como melhor série de comédia ou musical, derrotando a queridinha dos críticos 30 Rock (vocês se lembram do aplauso debochado de Tina Fey ao perder o prêmio?). Logo, voltar para 2009 foi uma das coisas boas desse final de série.

Não estou desprezando o episódio final. Acho que Glee teve a chance de encerrar a série falando do seu passado e do seu futuro, e se deu bem nessa proposta. Tudo bem, tivemos resoluções um tanto quanto cretinas e absurdas, mas… estamos falando do senhor Ryan Murphy, que já tinha largado a mão da série a algum tempo, e sequer se deu ao trabalho de dirigir o episódio final de sua obra.

E nessas horas eu penso: “que pena que Glee se perdeu”.

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Se perdeu quando a Fox percebeu que a série era uma máquina de ganhar dinheiro pelos direitos internacionais de exibição, e pelas vendas dos singles. Se perdeu pela ganância de Kevin Reilly, em achar que a série era maior do que realmente era, renovando para duas temporadas (de forma desnecessária). Se perdeu quando focou mais no pop – e nas bizarrices cotidianas/sexuais de Titia Ryan Murphy – no lugar de continuar a contar as histórias dos perdedores…

…e que pena que Ryan Murphy se perdeu quando perdeu Cory Monteith.

Acho que para aqueles que acompanharam Glee do começo ao fim (não foi o meu caso) ficou evidente que a motivação e capacidade criativa de Murphy se esvaíram diante de uma tragédia. Sim. Acho que alguém tão novo como Cory não deveria partir tão cedo, e da forma como partiu. Não vou aqui discutir sua capacidade de atuação ou potencial na série, mas sim o fato dele estar em uma série voltada para o público jovem, passar a imagem de alguém cheio de vida, mas encerrar sua jornada da forma como aconteceu.

É realmente uma pena.

Enfim, Glee chegou ao fim, e de certo modo, entra para a história da TV por reintroduzir os musicais no momento certo. A partir daí, os demais canais apostaram no segmento, com mais ou menos sucesso. Smash, Nashville e agora o fenômeno Empire. Nada disso teria acontecido se Glee não estreasse. E esse é um legado que não deve ser desprezado.

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Entendo que depois de seis anos – com alguns deles de sofrimento -, os fãs de Glee podem agora pensar no que vão fazer daqui para frente, ou em qual série vão dedicar seu tempo. Bem ou mal, contou a sua história. E tenho certeza que vai ter uma galera que vai sentir saudades dos tempos do McKinley High.

Uma dica? Empire está aí. E está bombando.