o filme da minha vida

O Filme da Minha Vida divide opiniões em sobre como resolve os seus conflitos, em como apresenta as aspirações de seus personagens, em como eles se desenvolvem ao longo da trama… mas fato é que, para mim, foi uma das mais interessantes experiências em uma sala de cinema de 2017.

Compreendo os críticos que afirmam que o longa dirigido por Selton Mello é auto-explicativo em vários momentos. Uma cena explicando o que vai acontecer na cena seguinte, e isso faz com que o filme se torne previsível para os olhos mais atentos. E, mesmo quando esboça ter um ar de imprevisibilidade, os seus plot twists não são dos melhores.

São problemas de um filme que não é perfeito.

Por outro lado, levando em consideração a sua proposta geral, O Filme da Minha Vida entrega resultados positivos. Para começar, o filme tem uma estrutura narrativa simples e objetiva, de fácil compreensão por qualquer pessoa. A ideia aqui foi contar uma história simples, de pessoas simples, para um grande público, onde o mais importante está nas causas e consequências dos personagens do que necessariamente na evolução deles e da própria trama.

Um dos pontos interessantes da história é que seu protagonista é o tempo todo testado e preparado para que, no final do filme, se coloque em um lugar melhor, ficando mais forte e preparado para viver a vida. Além disso, depois de tantas traições, decepções e frustrações, ele finalmente encontra tudo o que ele precisa para ser feliz, viver e seguir em frente.

Na verdade, Tony reluta em compreender que só conseguimos mesmo encontrar o que procuramos na vida quando saímos do lugar para ir de encontro ao mundo. Para conquistar o mundo com coragem. Ir na mesma estação todos os dias é uma metáfora que mostra como ele simplesmente ficou preso no tempo, esperando por uma volta que nunca aconteceu. Esperando por alguém que não ia voltar.

Na procura de alguém que estava mais perto do que ele imaginava.

Ao mesmo tempo, enquanto Tony ficava preso ao passado, olhando para apenas um lugar e indo para apenas uma única direção, ele não se permitia ver as possibilidades que estavam ao seu redor. Principalmente ver quem realmente o amava. Pelo contrário: o aproximava de pessoas que não o amavam tanto assim, já que estavam muito mais dispostos a se protegerem nas tramas de mentiras criadas por eles mesmos.

O Filme da Minha Vida fala também da conexão pessoal dos protagonistas com a sétima arte, onde talvez este seja um aspecto menos relevante em toda a trama, já que ficou como pano de fundo de toda a ação do filme. De qualquer forma, é o elo de conexão emocional necessário para as motivações dos envolvidos.

O longa tem como característica mais marcante a grande maioria das cenas com sua câmera estática, colocando o elemento principal da cena bem no centro. Como se cada cena fosse uma fotografia do protagonista, registrada em uma perspectiva narrativa mais pessoal do que geral. Além disso, essa proposta de enquadramento vinha de encontro com a proposta que a própria narrativa do filme lançava de tempos em tempos: muitas cenas dando destaque aos olhos (elemento fundamental para ver o mundo) e os pés (mecanismo de movimento para seguirmos em frente), inclusive em cenas onde propositalmente todo o corpo dos personagens era exibido, ou nas pedaladas de bicicleta por parte do protagonista.

O Filme da Minha Vida pode não ser um filme perfeito. Eu mesmo reconheço seus problemas. Mas, para mim, é um dos melhores filmes de 2017. Uma produção impecável, imersível, apresentando apuro técnico, mas ao mesmo tempo entregando sentimentos em cada cena. É um filme sensível para quem quer ver uma história de uma pessoa que precisa se encontrar no mundo a partir da busca de alguém que não vai voltar. E que só se encontra quando efetivamente perde tudo aquilo que ele considerava mais importante.

Tal e como acontece com muitas pessoas, todos os dias.