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Eu comecei a visitar a empresa Dunder Mifflin em 24 de março de 2005. Era um novato estúpido, com meus 26 anos de idade. Olhava para o lado, e achei tudo muito chato no começo. Parado, silencioso, estranho. Eram pessoas chatas isoladamente. Mas se tornaram mais interessantes ao longo das visitas semanais que fiz nos últimos nove anos naquela empresa. E hoje, eu faço um resumo dessas visitas, que se encerraram ontem.

A grande graça daquele escritório era ver as peculiaridades daquelas pessoas tão diferentes. Viajar até Scranton, Pensilvânia, nunca foi um incômodo para mim. Até porque o transporte sempre foi rápido e confortável. De qualquer forma, no começo, foi difícil. Conhecer os colegas de trabalho não foi uma das tarefas mais prazerosas. Eram pessoas comuns, sem nenhum toque especial, sem nenhuma habilidade especial.

Na verdade, alguns deles são bem burros. Logo, fui convidado a procurar enxergar a particularidade de cada um, identificar o que cada um tinha de especial. E descobri que a coisa mais valiosa que aquelas pessoas tinham era a força daquele grupo.

União de grupo. Algo que o primeiro gerente regional da Dunder Mifflin (Scranton) sempre quis. Michael Scott é um ser inconveniente, constrangedor, irritante, chato, insuportável… enfim, alguém que você definitivamente não quer que seus amigos o vejam ao seu lado durante algum compromisso importante.

Mas mesmo assim você quer ser amigo dele. Por que? Porque ele faz de tudo para ser “o melhor chefe do mundo”, mesmo não sendo. Mas não faz isso pela vaidade. Faz isso para se sentir querido, aceito, amado. E ele é amado pelos seus comandados. Mesmo que eles não falem isso diretamente para ele.

O antigo sub-gerente regional (que depois conseguiu alcançar o cargo de gerência – sabe-se lá Deus como) Dwight Schrute é um neurótico sociopata, onde todos o achavam o mais babaca do escritório, pelos absurdos criados. Mesmo assim, valia a pena ter ele por perto. Era ele que fazia com que aquele escritório não fosse um marasmo completo. Ele e Jim Halpert, o cara mais descolado da Dunder Mifflin.

O melhor funcionário que esse escritório teve também era a mente diabólica, que armou todos os tipos de pegadinhas com o pobre Dwight. Incluindo clássicos, como objetos de escritório dentro de uma gelatina, ou mover, todos os dias, todos os itens da mesa dele apenas alguns centímetros (até que a mesa estivesse fora do escritório em alguns dias). Sentirei falta desse cara.

Fico feliz por Jim e Pam. Eles foram feitos um para o outro. Foram as pessoas mais normais daquele escritório, mesmo com suas esquisitices. No começo, achava Pam uma sonsa. Depois de nove anos, é uma mulher forte, decidida, que cresceu em todos os aspectos ao lado da pessoa que ama. Jim, por sua vez, saiu de funcionário promissor para dono do seu próprio negócio. E não teria chegado tão longe sem Pam.

Esse é um casal que serve de inspiração para todos: enfrentaram a barra de desfazer seus relacionamentos, a incerteza se seriam felizes em uma vida a dois, se conseguiriam cuidar dos filhos trabalhando fora, e até a ameaça de separação. No final, o amor prevaleceu. Como sempre prevalece.

Também não vou me esquecer daqueles funcionários com os quais eu convivi até o último dia: Phyllis (vendas), a “mãezona” do escritório, Stanley (vendas), que não era muito de papo (talvez por causa da diabetes… eu entendo ele…), Nellie (relações públicas), a maluca (sério, inacreditável como ela conseguiu esse emprego), Angela, Kevin e Oscar (contabilidade), que jamais vou entender como conseguiram trabalhar juntos com personalidades tão diferentes, Erin (recepção), sempre alegre e simpática, mas um tanto quanto inocente demais, Meredith (supervisão de produto), que era “inflamável” em todos os sentidos (para bom entendedor…), Creed (supervisão de produto), que era tão maluco quanto Dwight, mas vivia em um mundo onde não incomodava ninguém, o sempre boa praça Darryl (depósito) e os novatos Pete e Clark (supervisão de produto).

Ah, não me perguntem do Toby (recursos humanos), pois quase não via ele, e torcia para não precisar vê-lo. Putz, que cara chato! Michael tinha razão em não suportá-lo.

Pois bem. 201 visitas depois, eu percebi que essas pessoas tão diferentes mudaram a minha vida. É mais do que um escritório. É uma família. O sonho dito por Michael Scott nas primeiras visitas que fiz ao escritório se tornou uma realidade. Mesmo com suas diferenças acentuadas, essas pessoas se amam, e prazerosamente trabalharam juntas por nove anos, em uma rotina que tinha tudo para ser a mais chata do Universo. Mas por serem aquelas pessoas, eles nunca caíram na rotina. Eles nunca se permitiram viver todos os dias de trabalho da mesma forma.

Mais: mostraram claramente para mim que trabalhar em outros escritórios era um saco. Eu queria trabalhar na Dunder Mifflin durante uns 30 anos. Até porque não era trabalho. Era diversão. Era amizade. Era a retratação das peculiaridades de funcionários comuns, em gestos simples, alguns deles já vistos em outras empresas que visitei. Foi com esse escritório que vi mais uma vez como as pequenas coisas da vida podem ser muito relevantes em momentos pontuais.

Eu acompanhei nove anos da vida dessas pessoas. Me emocionei quando Jim se declarou para Pam. Aliás, a entrada da noiva do casamento deles foi a mais legal que eu vi na vida. O pedido de casamento de Michael Scott também é algo memorável. A aquisição da Dunder Mifflin pela Sabre foi um momento meio tenso, mas necessário. Até porque Andy Bernard depois tornaria a empresa independente novamente. Tá, o casal Ryan Howard e Kelly Kapoor não era aquele que eu queria ver o “felizes para sempre” (e não aconteceu), mas… quer saber? Sentirei falta deles também.

Enfim… recentemente um certo executivo decidiu que o projeto do documentário terminou, e que as visitas à Dunder Mifflin estão encerradas. Tudo bem, vida que segue. Tudo o que posso fazer agora é agradecer por me oferecerem a oportunidade de conhecer uma pequena empresa em Scranton, Pensilvânia. Aliás, por causa dessa empresa que a cidade entrou para o mapa.

Então, Dunder Mifflin… muito obrigado. Obrigado pela amizade de nove anos. Pelos novos amigos que fiz, pelas risadas dadas, e até pelas lágrimas das últimas visitas. Mesmo com todas as dificuldades dos últimos anos, é bom saber que o sentimento de missão cumprida e satisfação vão ficar em mim e naqueles que acompanharam a empresa nesses nove anos. Sou muito grato por tudo o que aconteceu nesse tempo todo. E por mais uma vez me lembrar que as melhores coisas dessa vida estão nas coisas simples. Assim como esse grupo de funcionários e amigos eram: simples.

Valeu, Dunder Mifflin! Até qualquer dia.

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