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Eu tenho a plena convicção que Roberto Gómez Bolaños partiu desse mundo sem ter a real noção do quão importante ele foi para a vida de muita gente. Eu até acredito que ele sabe que criou uma obra muito grande, mas não fazia ideia do quanto ele era amado. Um amor sincero, genuíno, único. Um amor que está se tornando cada vez mais raro no mundo do entretenimento.

Um dos legados que personagens como Chaves e Chapolin Colorado deixa para a TV está no fato de se aproveitar – e muito bem – da imaginação do telespectador para contar histórias. Em Chapolin Colorado, a gente tinha um herói, onde a sua maior virtude era justamente… ter medo. E enfrentar esse medo para seguir em frente. Essa é uma das metáforas da vida mais preciosas e verdadeiras. Pois na realidade, o herói não é aquele que salva pessoas caindo dos prédios com sua teia, enfrenta alienígenas invadindo a Terra com uma armadura de ferro, ou derrota líderes de um exército com uma superforça. Nada disso.

O verdadeiro herói é aquele que abdica dos seus próprios medos em prol dos outros. Supera suas limitações para que alguém não se machuque.

E que ensina para gente o que são os tais aerolitos.

Já Chaves pode ser considerada uma das séries mais bem sucedidas da história da TV mundial. Foi dublada em mais de 50 países, exibida no mundo todo, e que ajudou a colocar o canal Televisa no mapa. E tudo isso, com um orçamento considerado ridículo. Bolanõs tornou realidade o sonho de qualquer canal de TV: criou um fenômeno de massa com baixo orçamento. Na verdade, foi além disso.

Eu acho que muitos da minha geração um dia se imaginaram naquela vila. Tiveram naqueles personagens os seus amigos de infância. Aqueles que você sabia onde e quando encontrar depois de chegar da escola. Pelo menos isso aconteceu comigo. Eu não enxergava adultos vestidos de crianças, interpretando crianças. Era possível ver a alma de cada um daqueles personagens. Pude ver que cada um apresentava sua personalidade, com propostas simples de humor, e acessíveis para qualquer pessoa.

Chaves fazia rir pela inocência. A inocência humana que nos faz falta na vida adulta. Conseguia trazer qualquer pessoa de novo para a proposta de ‘brincar de ser criança’. Convidava à todos para que, por alguns minutos, deixem de lado os problemas cotidianos, e testemunhassem o dia a dia daquela vila, onde entre uma bola quadrada e um sanduíche de presunto, eles divertiam à todos com suas histórias.

Bolanõs foi o ‘Charlie Chaplin’ das Américas. Um gênio. Conseguiu trazer humor e alegria para milhões de telespectadores, e utilizando aquilo que o ser humano tem de melhor: a simplicidade. Tocou o corações de todos com propostas simples. Fez o humor pelo humor. Com essência. Com excelência. Merece ser aplaudido de pé por todos nós, por tudo o que fez na TV e pela TV.

Bolaños vai fazer falta sim. Sentimos a morte dele muito mais do que poderíamos imaginar. É estranho esse sentimento de perda por uma pessoa que nunca vimos na vida, mas que fez parte da nossa vida de forma tão intensa, que quando ela vai embora, a gente sofre. E quando chegamos nesse ponto, podemos dizer, sem medo de errar, que esse alguém é especial.

O legado deixado por Bolaños é tão grande, que fica difícil medir em palavras. Pelo menos quatro gerações de telespectadores acompanharam as suas séries e, pelo visto, isso vai se repetir pelas próximas gerações. Seus personagens agora entram para a eternidade. Aliás, não tem honra maior para qualquer artista do que ser eternizado pelos seus fãs. Nem conto muito com o fato do SBT exibir Chaves em modo ‘ad eternum’ daqui para frente, mas sim pelo fato que a minha geração e – pelo menos – a dos nossos filhos se encarregarem de não deixar esse legado esquecido.

No final das contas, a gente não devia ficar triste com a morte de Bolaños. Devemos agradecer por sua obra significar tanto nas nossas vidas, a ponto de considerarmos a pessoa física alguém muito especial. De fato, seus personagens ficarão marcados em nossas mentes e corações pelas lições. Simples, porém, objetivas. Afinal, de tempos em temposs, fazemos coisas que são dignas de um ‘foi sem querer querendo’. Temos a fome de viver e encontrar a felicidade – e devorá-la, como se fosse um sanduíche de presunto. Não nos misturamos com as gentalhas… e por aí vai.

Mas a mais importante lição que podemos aprender com os personagens criados por Roberto Gómez Bolaños – e o que torna o seu legado único – é…

“A juventude que nunca morrerá”.

Por causa de Bolaños, essa juventude será eterna em nossos corações. Felizmente.

Descanse em paz.

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