A NBC estreou duas séries de mid-season (meia temporada, 13 episódios) neste mês de janeiro. A primeira, nós já comentamos aqui, The Cape (batendo na madeira três vezes…). A outra, vamos comentar agora. E digo logo de cara que Harry’s Law é um refresco de bom gosto diante da história do tal homem da capa.

Mas antes de falar mais especificamente do piloto da série, devo aqui dizer que Harry’s Law fala, essencialmente, da arte do recomeço. Feliz aquele que pode na vida recomeçar, se reciclar, rever conceitos e opiniões. Mudar perspectivas de vida mostram o nosso crescimento como indivíduos, e não nos deixam em uma condição estagnada, imutável, irredutível. E os recomeços são muito claros na série.

Harry’s Law conta a história de Harriet Korn (Kathy Bates), que estava entediada na sua vida profissional. Depois de mais de 30 anos trabalhando como advogada de casos de patentes, ela se cansou dessa vida, e não via mais muito sentido em continuar defendendo os interesses de grandes corporações. O que ela não esperava é ser demitida por causa da sua falta de empenho. Tudo bem, ela estava entediada, mas se sentia cômoda com sua posição. E aí começam os recomeços.

Harriet se via sem chão, sem rumo, sem caminho. Tão sem caminho que o destino acaba lhe indicando o que fazer e com quem fazer os próximos passos de sua vida. Duas vezes. E de modo acidental, como uma boa peça do destino. A série cumpre à risca com a máxima: “o destino se encarrega de colocar as pessoas mais importantes da sua vida diante de você”.

E nisso, Harriet encontra Adam Branch (Nate Corddry), advogado rival de Harriet no mundo das patentes, que quer trabalhar com ela “porque é mais divertido defender as pessoas ao lado dela”, Jenna Backstrom (Brittany Snow), secretária de Harriet, que vê novas possibilidades ao continuar trabalhando ao lado da chefe (mesmo que seja em um ambiente bem menos charmoso que o emprego anterior), e Malcolm Davies (Aml Ameen), um jovem problemático, em liberdade condicional, que vira assistente de Harriet após ser defendido por ela no primeiro caso da série.

Todos ali estão recomeçando. Todos ali querem um sabor novo nas suas vidas, uma perspectiva nova em suas carreiras, um futuro diferente para si, e a possibilidade de fazerem algo especial de suas vidas. E o recomeço é ainda mais radical para Harriet, que vai para um dos bairros mais barra pesada de Cincinatti (sim, amigos… David E. Kelley não quis usar Boston dessa vez), mas ainda assim mostra que, na vida, ainda existe a filosofia do “eu te ajudo, se você me ajudar”. Mais ou menos como é na vida real.

Harry’s Law é um belo recomeço para David E. Kelley, que por mais de 20 anos prestou serviços para a 20th Century Fox, produzindo séries maravilhosas, como The Practice, Chicago Hope, L.A. Law, Boston Public, Ally McBeal e Boston Legal. A série tem bem a sua vibe, com situações absurdas, diálogos inteligentes e personagens carismáticos. Quem gosta do seu estilo de fazer séries vai gostar do que ele apresenta em Harry’s Law. Fazer algo para a NBC é um desafio, por ser um canal com perfil diferente da Fox, que permitia quase tudo.

É um recomeço para Kathy Bates. Dona de uma carreira sólida, com atuações em filmes de sucesso como Tomates Verdes Fritos e Titanic, vencedora do Oscar e do Globo de Ouro, viu sua vida se transformar ao tomar conhecimento do seu diagnóstico de câncer de ovário em 2003, que só foi revelado ao grande público em 2009. Hoje, aos 62 anos, ela recomeça tomando a frente da série da NBC, com uma atuação consistente, de uma advogada veterana amargurada, cansada da vida, mas ao mesmo tempo, desejosa, ansiosa para saber quais os rumos que este novo caminho vai ter. Bates meio que se mistura com os olhares e expressões de Harriet, pois sabe que está recomeçando em sua própria vida. E quem assistir a série, vai perceber isso.

Por fim, Harry’s Law não é a nova melhor série nova da temporada, mas é, para mim, a melhor série nova entre aquelas que estrearam em janeiro. Para quem souber aproveitar daquilo que a série tem para oferecer, vai perceber que Harry’s Law nos mostra que recomeçar na vida não é sinal de que você ganhou ou perdeu, e sim de que você é humano o suficiente para reconhecer que algo precisa mudar na sua vida. E que, para isso, você vai contar com pessoas que vão desejar exatamente o mesmo que você.