girls01

Girls é a série queridinha do momento, que tenta conversar com essa nova geração de “jovens adultos”. Mas no final da sua segunda temporada, percebemos que Hannah e suas amigas, por mais que ainda tenham que passar por diversas experiências para encontrar o seu verdadeiro “eu”, no fundo só buscam pelo bom e velho príncipe encantado, que as resgate da bruxa malvada chamada “Vida”.

Em meio a um monte de séries corriqueiras e cotidianas, que quase nada se focam sobre o universo do jovem atual, em 2012, fomos apresentados a Girls. E mesmo que a série tivesse uma estrutura já muito utilizada em outras produções, ao menos ela se propunha a discutir e demonstrar como essa geração lida com os conflitos do mundo atual. Logo, a série ganhou o status de revolucionária e amada pela crítica e pelo púbico.

Mas eu costumo desconfiar daquilo que se diz “novo demais, moderno demais ou  revolucionário demais”. E assim foi com Girls, que surgiu como o “Sexy and The City da nova geração” (embora os conflitos sejam praticamente os mesmos da série do final da década de 1990). A série me deixou um pouco constrangido: afinal de contas, como é ver sua geração representada numa série de TV?

Na busca de respostas e vivências, me contive a assistir a série por um tempo, e só agora, na reta final da segunda temporada, acompanhei toda a história numa tacada só. E o que levo a crer é que Girls fala mesmo com essa atual nova geração. Não da maneira revolucionária e inovadora, mas da maneira que sempre esteve sendo descrita por aí. Porque, no final, todos nós queremos nos sentir completos e seguros quando estamos com alguém que realmente amamos. Talvez por essa resposta (tão óbvia), muitas pessoas ficaram decepcionadas com o final da segunda temporada. Mas o que a série poderia ser capaz de trazer para que ela continuasse sendo maior do que realmente é?

Um apagão? Um apocalipse zumbi? Um acidente de avião matando metade do elenco? A descoberta de um portal para outra dimensão, no porão do vizinho viciado de Hannah? Talvez a melhor saída para ser revolucionária é partir do princípio que a vida é mais simples do que parece ser, e que não é necessário um roteiro mirabolante com dramas supérfluos e personagens gritando e batendo as portas ao sair para entendermos que é algo realmente grande, Tudo pode se resumir em só uma cena final de cumplicidade e amor.

girls02

A mocinha revolucionária ainda se esconde atrás da cama

Girls é uma série sobre amor, e representa a nova geração que está em busca de fazer da vida o que realmente da ama. De saltar “para fora do quadrado”, buscando onde a mágica da vida realmente acontece. Não mais vivemos em um mundo onde as garotas precisam casar antes dos 21, e os rapazes precisam ser o provedor da família, e pronto. Tudo está resolvido. Vivemos em um mundo repleto de opções.

Girls é sobre esse grande experimento de ser um jovem adulto, e de se apropriar de todas essas opções que essa nova maneira de viver a vida nos impõe, mesmo que de forma vergonhosa. Mas acredite, leitor: a vida é vergonhosa. As decisões e implicações egoístas e mimadas (de todo o elenco, e não só de Hannah) tem a ver com o fato de cada vez mais querermos coisas apenas e tão somente nossas, do nosso jeito. E as consequências, por vezes nos levam à solidão e desespero.

E quem vai nos salvar? Nós mesmos? Ou o príncipe encantado que corre seminu, pelas ruas de Nova York, tentando dizer palavras de apoio e encorajamento para a princesa no alto do seu apartamento? Que arromba a porta para salvá-la de seu cativeiro psicológico, aonde ela se encontra?

Embora ele não venha mais em um cavalo branco, e nem você esteja em uma torre em perigo envenenada por uma maçã, isso não quer dizer que não as garotas dessa geração não desejem isso intimamente, por mais vergonhoso que seja assumir esse desejo. E Girls é exatamente sobre isso: entrar na intimidade na vida dos personagens, além do que eles querem e aparentam ser.

Em tempos de tanta revolução, e de uma geração completamente desesperada para mostrar ao que veio ao mundo, para ser autossuficiente e se destacar no meio da multidão, Girls só mostra que a vida é falha, e que por mais medo que possamos ter, não é vergonha estar no alto da torre e pedir ajuda.

No final, não é demérito ser uma série que simplesmente tenha um final de temporada feliz. Pode não ser o final que queríamos neste momento da série, mas com certeza é o que a série precisa neste momento. Ser menos autoral (eu acredito que ela seja altamente autobiográfica, e gire em torno da vida de sua criadora, Lena Dunhan) e mais humana, mostrando as fraquezas ocultas desses personagens e as consequências de nossas ações, aonde sempre é possível recomeçar, mesmo que seja de um ponto simples.

Por mais que a maioria das pessoas acredite que uma ideia para ser respeitada deve ser grandiosa, inovadora e chocante, eu aprendi com Girls que grandioso e revolucionário hoje é dar valor para as coisas pequenas, cotidianas, rotineiras e casuais. Afinal, são esses elementos que formam a “cola da vida”.