Feud

 

Toda competição nasce não pelo ódio que sentimos pelo nosso oponente, mas sim pela admiração que temos por ele e, principalmente, pela dor que trazemos dentro de nós mesmos.

Não me canso de dizer que o sangue de Ryan Murphy tem poder. Esse cara realmente manja do riscado, e no quesito “prender o telespectador com histórias interessantes”, ele é mestre. O responsável pelas antologias American Horror Story e American Crime Story conseguiu emplacar mais uma: Feud. E digo desde já: não tem como dar errado.

Eu já escrevi antes que a realidade é muito melhor que a ficção. Não apenas porque a realidade é imprevisível, mas principalmente pelo simples fato das pessoas se sentirem mais atraídas pelo conflito, pelo confronto. Falando francamente: a maioria das pessoas esperam ansiosamente que uma discussão termine na base da porrada.

O MMA é uma prova do que estou falando.

Nesse caso, estamos diante da franquia que vai mostrar as maiores rivalidades da história da humanidade, não apenas no segmento do entretenimento, mas de qualquer setor da sociedade que envolva duas pessoas realmente relevantes.

Quem sabe Dilma e Temer não aparecem nessa? Mal posso esperar para ver o episódio da carta com frase em latim ser retratada por Ttita Ryan…

Mas essa é outra história.

 

 

A primeira temporada de Feud recebe o nome Bette and Joan, e mostra a rivalidade entre duas das maiores atrizes de sua geração, Joan Crawford (Jessica Lange) e Bette Davis (Susan Sarandon). A maioria de vocês que vão ler esse post não viu as duas. Eu mesmo só me lembro do final da carreira de Davis. Mas saibam que são duas das grandes atrizes de Hollywood que, naquele momento de suas carreiras, precisavam de um grande filme para voltarem a receber a notoriedade de um passado não muito distante.

Crawford estava em um momento de vida um pouco melhor do que Davis. Estava recém viúva do seu quarto marido, um executivo da Pepsi, o que a deixou financeiramente estável. Porém, ela queria os holofotes e a atenção da mídia novamente. Já Davis, vencedora do Oscar, se separou do marido porque priorizou a carreira. Foi para a Broadway, mas estava infeliz. Queria voltar para Hollywood.

A ideia da parceria que, em teoria, seria lucrativa para ambas foi de Crawford, que ofereceu o projeto de adaptação do filme O Que Terá Acontecido com Baby Jane? (1962) ao diretor Robert Aldrich (Alfred Molina), que acabou hipotecando pela segunda vez a sua casa para que o projeto saísse do papel. Sem falar que tinha que passar pela torturante missão de ter que ficar entre as duas divas, evitando que uma matasse a outra dentro dos sets de filmagem.

A admiração mútua até existia. O que não existia era o respeito mútuo. Bette, sempre mais temperamental, achava que Crawford era medíocre. Por sua vez, Crawford reconhecia o talento monstruoso de Bette, mas não queria ficar por baixo nunca, já que a ideia do filme foi dela.

Veremos então um duelo épico de personalidades fortes e machucadas, que devem render ótimas histórias para o telespectador do presente.

 

 

Feud: Bette and Joan é um grande acerto do FX, e mais um gol de placa de Ryan Murphy.

Eu mantenho minha aposta de que essa série já deu certo, e não falo apenas pela renovação para a segunda temporada antes mesmo da primeira estrear (aliás, saiba que a segunda temporada vai mostrar a conturbada relação entre o Príncipe Charles e a Princesa Diana… IM-PER-DÍ-VEL), mas principalmente pelo mesmo motivo que, antes mesmo de ver American Crime Story eu afirmei que daria certo: o fator “baseado em fatos reais”.

Não tinha muito como errar na história do caso O. J. Simpson. E não tem muito como errar nas brigas entre Davis e Crawford. Tudo aquilo aconteceu, e é tão sensacional que vamos gostar da história, de forma inevitável. Ryan Murphy não tem como viajar bizarramente no roteiro. Tem que contar a história como foi. E só por isso as chances de sucesso são enormes.

Além disso, o trio principal do elenco está ótimo. Porém, Susan Sarandon e Jessica Lange começam dando show. Aposto nas duas indicadas ao Emmys 2017 com certa facilidade. Papéis com essa magnitude, com personalidades tão importantes fazem com que atrizes desse porte se sobressaiam naturalmente.

Sem falar na produção da série, que é enorme, muito bem detalhada e muito bem cuidada. A estética te remete imediatamente aos anos 60, onde figurino, cabelo, maquiagem e adereços cênicos ganham uma importância enorme dentro desse processo de viagem no tempo proposto pela série.

 

Será sensacional acompanhar essa briga. Mais sensacional ainda é saber que tudo aquilo aconteceu. Bom, várias coisas de Feud: Bette and Joan podem ser romantizadas para envolver o telespectador. Mas fato é que a disputa está lá. A rivalidade à flor da pele, também.

Estamos diante de mais um sucesso de Ryan Murphy na televisão. Como ele consegue: Não sei. Mas cada vez menos dependo de American Horror Story para dizer que esse cara é muito bom para produzir um entretenimento de qualidade.

E acho isso ótimo!