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A temporada vem apostando cada vez mais em séries sangrentas e com muito suspense, e nessa semana não poderia ser diferente. In The Flesh e Bates Motel nos traz um pacote cheio de boas surpresas aonde os protagonistas são adoráveis anti-heróis.

As estratégias das duas séries são parecidas, contar a história a partir da perspectiva do “vilão”, o que está se tornando algo comum no mundo dos seriados. Com isso, ganhamos novas possibilidades de enxergar a história, e até somos pegos de surpresa, cativados e tentados a entender um lado que antes era mostrado de maneira muito pontual e superficial. Embora as séries já estreiem no entrave de estarem se aproveitando da moda atual. Afinal de contas, psicopatas e zumbis são os “novos vampiros”. As duas novas séries conseguem cada uma a sua maneira demonstrar que não estão dispostas a serem canceladas na próximas semanas, e apostam na narrativa, fotografia, atuação e construção de personagens muito similar à estética do cinema.

 

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Família Walker: Pais capazes de tudo para proteger seu filho monstro

Em In The Flesh, série inglesa que estrou no dia 17 de março no canal BBC3, encontramos uma história que, a primeira vista, tem tudo pra cair na galhofada. Uma história sobre a reintegração do zumbi na sociedade? Zumbi, não pessoas que sofrem com “Síndrome de Falência Parcial”. A proposta é tratar pessoas que morreram, mas de alguma forma retornaram parcialmente à vida (mais ou menos como acontece em The Walking Dead ).

A série conta a história de Kieren Walker, um adolescente de 17 anos que após receber um tratamento médico financiado pelo governo (ou pela Umbrella), volta a morar com sua família em um vilarejo ao sul da Inglaterra, e lá se depara com um território hostil e protegido pela Human Volunteer Force, uma espécie de milícia que extermina e captura zumbis, tendo como um dos integrantes a irmã do protagonista.

Rapidamente, somos levados a imaginar que a série é uma comédia pastelão ou uma carnificina desenfreada, mas em menos de 10 minutos a série nos conquista, sendo um drama familiar com zumbis (oras, por que não?).  Tudo em In The Flesh é tratado com delicadeza, tomando exatamente esse cuidado para a série não virar uma vergonha alheia. O zumbi foi uma forma lúdica de evidenciar os problemas que já enfrentamos na sociedade atual. Exemplifico: imagine você se o seu vizinho fosse um serial killer que é reintroduzido pelo governo à sociedade, e vai morar a 10 metros de você.

É exatamente essa a premissa que In The Flesh quer abordar, tratando o tema zumbi de uma maneira mais realística (se é que isso é possível), dando ao telespectador a oportunidade de acompanhar sobre várias perspectivas a posição de cada personagem em relação a esse mundo, além de abordar temas atuais como guerra do Afeganistão, suicídio e até mesmo bullying. 

No final, somos banhados por tudo que gostamos numa série: uma cena que precede o final com suspense e drama que sintetizam tudo o que está acontecendo no contexto da história, um segredo do protagonista revelado aonde queremos aprofundar mais, uma surpresa que pode mudar a ordem das coisas e uma ótima cena final para esperarmos ansiosos para a próxima semana.

In The Flesh contará com apenas 03 episódios de uma hora de duração. Se você gostou da premissa e acha a quantidade de episódios escassa, o canal CW (o mesmo de Gossip Girl e Vampire Diaries) encomendou um piloto com uma trama bem parecida. A série se chama Awakening, que vai contar um drama familiar de duas irmãs zumbis e sua reinserção à uma sociedade pós-apocalíptica.

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Norma e Norman Bates: Nova cidade, novos sonhos e novas vítimas

Em Bates Motel, contamos com uma história também muito delicada para ser adaptada. O prelúdio da série é simplesmente do filme Psicose, uma obra prima de um dos maiores diretores do cinema, Alfred Hitchcok (sim, esse é ano o diretor está em alta em todas as mídias com boas surpresas). A trama mostra o desenvolvimento do lado sombrio e psicótico de Norman Bates a partir da adolescência, explicando como o amor possessivo de sua mãe, Norma, ajudou a moldar um dos mais conhecidos maníacos da história do cinema.

A série consegue criar uma esfera atemporal (se não fosse a presença dos iPhones, eu não teria certeza se eles estavam no mundo contemporâneo), com um excelente trabalho de figurino e cenografia. Também percebemos grandes sequências com câmeras muito similares ao que o próprio Hitchcok utilizou na obra original, além de atuações inspiradas. A produção é completamente cinematográfica, e por algumas vezes esquecemos que estamos diante de uma série televisiva.

A relação que começa a se estabelecer entre Norma e Norman Bates consegue fluir de maneira muito suave entre o carinho e a manipulação. O roteiro cria uma narrativa cheia de possibilidades, onde por vezes somos pegos de surpresa em uma história que parecíamos conhecer.

O personagem de Norman (interpretado pelo ator Freddie Highmore) consegue ser assertivo como adolescente tímido e depressivo em busca de novos amigos, o que pode confundir com sua objetividade e frieza nas cenas mais violentas. Já Vera Farmiga no papel de Norma Bates se mostra completamente à vontade no papel (cuidado, Claire Danes), e brinca com o estereótipo de dona de casa e viúva inocente, passando somente com um olhar para assassina fria e mãe obsessiva. Um prato cheio de possibilidades e personalidades para a atriz explorar durante a temporada.

A série estreou no dia 18 de março nos Estados Unidos, no canal A&E, e promete um bom suspense dramático, já que a temporada tem apenas 10 episódios, e isso pode nos render uma melhor qualidade, uma vez que a série está planejada (pelo menos é o que quero acreditar).

Se você gosta de TV com cara de cinema e dramas familiares um tanto quanto incomuns, a semana foi um prato cheio. Agora nos resta aguardar se as séries conseguirão cumprir a jornada de forma impecável sem cair na “síndrome do piloto da série hit” e não se torne uma grande frustração (e isso não é sobre The Following).