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Em setembro de 2004, a nova fase da TV iniciada em 2001, com a estreia de 24 Horas (desculpa, mundo, mas essa é a verdade, você aceitando ou não) alcançava o seu ápice. Uma nova safra de séries cinematográficas, com produção acima da média e roteiros muito bem construídos e amarrados começava a surgir, foi justamente na temporada 2004-2005 que esse novo momento se consolidou. Uma das melhores fall seasons de todos os tempos foi marcada por estreias de séries dramáticas de qualidade em quase todos os canais. Só a ABC conseguiu emplacar quatro grandes séries nessa temporada. Mas uma delas simplesmente revolucionou, quebrando vários paradigmas na TV. Seu nome? Lost.

Nunca a ABC/Disney apostou tanto em uma série na sua história. Um dos pilotos mais caros de todos os tempos (US$ 14 milhões), um marketing agressivo, e uma proposta narrativa calcada no inexplicável. Não era a primeira vez que a própria ABC apostava no mistério em um enredo para segurar o telespectador diante da TV para contar uma história (Twin Peaks na década de 1990 fez isso, e muito bem), mas dessa vez o canal ia para ‘ou tudo, ou nada’, com uma aposta de elevado risco, pois as chances do público não comprar a história dos perdidos na ilha eram gigantescas.

Porém, aconteceu exatamente o contrário.

Lost sempre impressionou pela sua grandiosidade, em vários aspectos. É uma produção tecnicamente impecável visualmente falando, com a maior parte da série sendo gravada no Hawaii, com várias cenas externas com elevada complexidade de serem feitas. Além disso, as próprias questões lançadas no começo da série instigaram o telespectador (é sempre bom lembrar que o ser humano é curioso por natureza), e isso chamou a atenção de muitos. Ainda mais com a promessa de J.J. Abrams (co-criador da série) que tudo teria uma conexão na hora de se responder essas perguntas.

Mas o que fez Lost se tornar um fenômeno mundial foi a internet. Antes de Lost, as pessoas se conformavam em ver os episódios de suas séries preferidas quando elas eram exibidas na TV a cabo, mesmo que isso acontecesse dois meses depois de sua exibição nos Estados Unidos (ou em alguns casos, até um ano depois disso… tem canal pago no Brasil que faz isso até hoje… que vergonha…). Depois de Lost, os fãs da série – que em grande quantidade eram internautas convictos -, inconformados com esse cenário absurdo, começaram a buscar alternativas para assistir a série o mais depressa possível.

Por causa de Lost, uma geração inteira de fãs de séries descobriram as tecnologias de compartilhamento de arquivos de mídia, formatos de arquivos compactados, recursos para legendar as séries, e até mesmo o inglês para poder compreender a série, ou colaborar com a tradução da mesma. Aliás, muita gente começou a ver séries de TV por causa de Lost, e esse é um legado que considero único para qualquer grande série. Estimular as pessoas a consumirem esse tipo de conteúdo vale mais do que qualquer Emmy que uma série receba.

Lost foi aquela série que despertou amor e ódio em basicamente todos os fãs de séries. E só uma série diferenciada consegue isso. A grande maioria das séries de TV passa desapercebida pela grande massa de telespectadores. As boas séries se destacam, mas passam indiferentes por aqueles que não gostam dessa série. Já Lost sempre estimulou discussões acaloradas entre os fãs e os haters da série. Muitos consideram até hoje a melhor série de todos os tempos. Já outros continuam acreditando que foi apenas uma série superestimada, e nada mais.

Fato é: todo mundo que vê séries nos últimos 10 anos falou de Lost, pelo menos uma vez na vida!

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Depois de 10 anos de sua estreia, 6 temporadas e 121 episódios, Lost conquistou um merecido Emmy Award de Melhor Série Dramática em 2005, por conta de sua primeira temporada. Foi uma das séries mais bem sucedidas comercialmente da história, sendo classificada nas mais diferentes listas especializadas como uma das melhores séries de TV de todos os tempos. Se tornou um fenômeno televisivo e cultural por onde foi exibida, se traduzindo em um fenômeno sem precedentes na história da TV.

Lost quebrou paradigmas, mudou conceitos, e transformou os hábitos dos telespectadores no consumo de conteúdo televisivo de forma definitiva. Colocou uma galera toda para raciocinar, buscar easter eggs, criar teorias… praticamente realizou o sonho de muitos nerds que conheço, que é colocar um “role playing game” na TV. O seu universo fora da televisão (criado em fóruns e sites especializados na série) era tão expandido, que as pessoas basicamente assistiam a série para não apenas buscar as respostas depois do final do episódio, mas criar possíveis soluções para as tramas apresentadas.

Aliás, outro grande mérito de Lost foi o envolvimento que a série gerou em sua audiência. As pessoas compraram a ideia do “acidente aéreo mais bem sucedido da história”, dos mistérios da ilha, da Dharma, dos outros, da ilha ser um disco no tempo, entre outras propostas lançadas. Bom, quero dizer… nem todos… conheço algumas pessoas que não gostaram muito da conclusão geral da história. E até hoje amaldiçoam os envolvidos por isso.

Bom… já que vamos falar sobre isso…

Antes desse post chegar ao fim, é preciso lembrar algumas coisas. Como um ser humano que sempre achou que Lost não era essa série toda, e só viu a série inteira quatro anos depois que acabou (ou seja, já conhecendo o final da série e sem se envolver tanto com os mistérios propostos pela mesma), devo dizer que Lost fez um grande favor para muitos dos seus fãs. Boa parte da audiência de Lost era composta por adolescentes (ou jovens adultos), que ainda não haviam compreendido as diversas metáforas da vida propostas na série. E, vendo com calma todos os 121 episódios, consegui compreender que, apesar da série ter se desviado completamente de sua proposta original, de uma coisa ela nunca fugiu…

É uma série sobre pessoas…

Calma! Não me odeiem. O ponto comum de Lost nas suas seis temporadas é o fato daquelas pessoas passarem por tudo aquilo precisando fazer escolhas (muitas delas bem difíceis), e responder pelas consequências dessas escolhas. Assim como acontece com nossas vidas cotidianas. Mais do que isso: Lost é uma série que fala sobre segundas oportunidades. A possibilidade de reescrever as nossas histórias de vida, de corrigir erros do passado, de perdoar as próprias mágoas do passado. De se perdoar, acima de qualquer coisa.

Pode parecer um papo babaca para muita gente. Muitos ainda estão revoltados pela série ter abandonado toda uma estrutura narrativa que apontava para os mistérios, mas que se concluiu como uma novela de Manoel Carlos. Não tiro a razão de vocês, pois ao acompanhar a série, eu também tive essa impressão (e acho que isso foi bem sacana por parte de criadores, showrunner e roteiristas).

Porém, o aspecto humano sempre esteve lá. Afinal de contas, o “we have to go back” é uma clara metáfora da proposta de “segunda oportunidade” que a série sempre apresentou.

Além de apresentar personagens interessantíssimos, Lost definitivamente colocou em evidência esses aspectos da natureza humana, que pelo menos para mim são sim lições válidas que temos que carregar pelo resto da vida. Ninguém é perfeito nesse mundo (muito menos a série Lost), e todos nós, em algum momento, vamos sonhar com uma segunda chance. A série de J.J. Abrams se propôs a mostrar isso.

Ok, jogou a Dharma fora… mesmo assim…

Por fim, Lost completa 10 anos de estreia com o seu lugar na história da TV mais do que garantido. Não entra na minha lista de melhores séries de todos os tempos, mas não nego o impacto causado em muita gente. E… honestamente? Eu acho bom que uma série produza esse efeito nas pessoas. De tempos em tempos nós precisamos de algo que mexa com o nosso íntimo, que nos tire do lugar comum, que nos leve para o próximo nível. E acredito que Lost foi essa série para uma geração inteira.

A primeira grande série da “geração internet” também é a série da vida da geração “see you in another life, brotha”.