TEXTO SEM SPOILERS

Tem certos momentos nesta vida em que precisamos parar e refletir porque certas coisas acontecem. No caso do mundo das séries, por que certas séries foram aprovadas para ir ao ar. Não que Human Target (FOX nos EUA, Warner Channel no Brasil) seja um dos casos terríveis da TV, e que mereça ser expurgado da nossa programação. Mas que ela não é a última Coca-Cola do deserto, isso ela não é. Poderia dizer que é, para agradar aos fãs da série, mas prezamos por algo chamado HONESTIDADE.

Levando em conta que o Editorial é o espaço reservado aos colaboradores do blog Spin-Off de apresentarem suas ideias e pensamentos sobre as séries que estão assistindo ultimamente, de forma mais completa e coordenada do que no podcast. Por isso, caso você não concorde com o que você vai ler nas próximas linhas, tem duas alternativas: 1) mandar seus comentários no blog (de forma respeitosa, obviamente, pois não aceito ninguém xingando à mim e meus ascendentes); 2) Escreva o que você pensa no seu próprio blog, que é o que eu estou fazendo.

Pra quem não sabe do que se trata, Human Target é baseada em um personagem de quadrinhos criado por Len Wein e Carmine Infantino, e nasceu em 1972, na revista Action Comics #419. Nos quadrinhos, o personagem apareceu como coadjuvante de histórias do Superman e do Batman, e já teve uma tentativa de adaptação que foi um completo fracasso, exibida pela ABC em 1992, estrelada por Rick Springfield. Mas, como não estamos falando de quadrinhos, e sim de TV, você deve saber logo de cara que a produção da FOX é de responsabilidade de Jonathan E. Steinberg, e é uma co-produção Estados Unidos/Canadá, em parceria com a CTV (tanto que estreou no Canadá antes). Detalhe: eles colocaram San Francisco em Vancouver. E isso me incomoda muito.

Pois bem, o que acontece com esta versão de Human Target?

Quero deixar claro que uma das coisas que mais gosto na série é sua abertura, que é uma das melhores de todas as que estão no ar. Tudo bem, bem chupinhada das aberturas da série de filmes do 007, mas tanto em imagem e som, eu considero boa. Porém…

Human Target é uma sequência inacreditável de clichês de séries/filmes de ação que todos nós já vimos antes, por diversas vezes. No elenco, o herói perfeito/invencível/indestrutível Christoper Chance (Mark Valley, ex-Boston Legal e The Practice), O chefe de polícia aposentado e semi-estressado sempre Laverne Winston (Chi McBride, ex-Boston Public, Pushing Daisies) e o nerd que sabe de tudo de eletrônica e tecnologia, mas beirando à terceira-idade, Guerrero (Jackie Earle Harley, que fez Watchman). É uma espécie de equipe de detetives/serviço de segurança pessoal bem no estilo Missão Impossível. Ou seja, nada de novo.

A premissa da série é mostrar as aventuras de Christoper Chance, protegendo pessoas ameaçadas de morte ou salvando sequestrados das garras de grandes organizações (criminosas ou não). Simples: ele é contratado, faz o serviço, ninguém se machuca, e tudo está resolvido. E, pelo o que se pode ver, Christoper Chance não é lá muito exigido para resolver os problemas. Não que ele não seja inteligente para cumprir as missões (ele é, até demais para meu gosto), mas tudo se resolve, infalivelmente, ou de forma convenientemente eficiente (usando um canhão de prótons para explodir um piso), ou de forma espetacular (como lutar com bandidos no trem de pouso de um avião. Com o avião no ar. Num frio do cacete).

Nos quadrinhos, isso tudo pode ser legal. Porque está nos quadrinhos. Quando estas situações são transportadas para o formato televisivo, estas mesmas situações ficam numa linha muito tênue entre o espetacular e o ridículo que, se não estiver dentro de um contexto muito bem definido, o ridículo vence com toda força. Não que não seja “legal”, mas não é algo pra se levantar do sofá e dizer “caraca, como esse cara fez isso?”, porque são coisas que nós já vimos antes, e em formatos que nós consideramos originais, porque não existia antes. Exemplos? MacGuyver, Missão Impossível (filme e série), série de filmes 007, Charlie’s Angels, SWAT, Alias, a trilogia Bourne… e por aí vai.

Mark Valley faz um Christoper Chance “galã, charmosão e engraçadalho”. Em algumas oportunidades isso chega a irritar, mas é uma característica do personagem que dá até o tom “sessão da tarde” da série. Não lembrar em nada o personagem que ele fez em Boston Legal é bom, e é ruim. Bom porque mostra que, mesmo em uma série que atrapalha e muito, ele é bom ator. Ruim porque muitas vezes o próprio personagem “força a amizade” ao máximo em certas cenas, deixando um misto de irritação e vergonha alheia. Isso, sem contar que em certas cenas de ação, as situações são tão absurdas que se tornam impraticáveis. Mas aí eu acho que o problema está comigo: quando sento diante da TV para assistir a certas séries/filmes, meu cérebro já está programado no modo “história de ficção”. E, por mais que eu me esforce, não compro a proposta de Human Target.

Resumo da ópera: se você quer uma série apenas para assistir, sem comprometimento com os acontecimentos, e ter de volta aquela sensação de “já vi isso em algum lugar”, Human Target é a série para isso. Porém, fica o registro de que, se Human Target não deu certo na década de 90, onde as pessoas estavam muito mais propensas a comprar a ideia de um herói perfeito, invencível, bonitão e engraçadão, não acredito que os 7 milhões de média das quartas-feiras da FOX sejam os suficientes para manter a série no ar por muito tempo. Infelizmente, formatos engessados e pasteurizados como o das aventuras de Christoper Chance não estão tendo mais muito espaço na TV, e as que dão certo, estão capengando a tempos (vide Chuck).