Estamos nas duas últimas semanas da Fall Season 2009-2010. Em uma temporada de TV tão intensa, mas com tantas coisas ruins que foram ao ar, chega a ser uma vitória moral quando duas produções que recebiam destaque em diversos blogs/sites de TV justamente pela baixa oferta ao público em termos de qualidade (a.k.a. histórias que qualquer um de nós, com boa vontade e bom senso, faríamos melhor) são canceladas. E mais: foram muito mais comemoradas do que renovações de séries que muita gente gosta. Este post é a homenagem do Spin-Off para estas séries que tanto conteúdo inútil nos deram para achincalhar produtores, roteiristas e atores, e que, honestamente, vamos sentir saudades de baixar o porrete nelas. Vamos começar pela mais nova.

Flash Forward (ABC/AXN). Eu, Eduardo Moreira, fui um daqueles que foi estupidamente enganados pelo conceito, e mais ainda, pelo seu episódio piloto, que é um dos melhores que eu vi na vida. Mas, a vida ensina a não julgar nada pelas aparências. Mesmo que seja um julgamento positivo. E todas as vezes que eu penso em Flash Forward, me vem junto o sentimento de revolta contra mim mesmo. Por ter acreditado em um piloto muito bom, por ter ficado para ver o que iria acontecer depois de 6 meses, no que representavam estes 2 minutos e 17 segundos… enfim, descobri no episódio 07 o que tudo isso significava: que eu era um perfeito idiota por continuar a assistir a trama.

Personagens sem o mínimo de carisma, episódios absurdamente arrastados, respostas sem sentido e sem nexo logo de cara, com revelações e argumentos que, para uma série que só estava no começo, beiravam ao patético. Flash Forward era um dos melhores argumentos possíveis para uma série de TV, pois aliava ciência, mistério, ação policial e dramas pessoais, mas tudo isso foi rasgado de forma quase que imoral por roteiristas incompetentes e atores que davam a impressão que foram agrupados para fazer algo que não estavam nem um pouco a fim de fazer.

Um baita tiro no pé da ABC, que prometeu a série como “o novo Lost”, e não chegou nem perto de ser “o novo Chisperito”. A lição que fica é que um canal de TV nunca, JAMAIS deve prometer algo sem ver qual a reação do público diante deste algo. Tem gente afirmando que, nestes últimos episódios, a série melhorou muito do marasmo que era quando a pausa aconteceu. O que eu posso dizer é que “essa é a melhora da morte” do paciente que, quando foi internado, já dava a impressão que iria morrer, entrou em estado crítico, e melhorou para receber a extrema-unção.

Além disso, para quem abandonou a série no começo, não iria mais voltar agora, e pelos números da audiência, a série só agradou a alguns poucos: na premiere da série, ela teve mais de 12 milhões de média; quando voltou da pausa, já eram menos de 6 milhões, e seu último episódio exibido nos EUA teve pouco mais de 4 milhões de média. Ou seja, Flash Forward não passa de um dos maiores fracassos, fiascos, tentativas de enganação, eventos de vergonha alheia da história da TV.

Heroes (NBC/Universal) é um caso de amor e ódio. Amor porque eu amava detonar esta série no Spin-Off Podcast. Ódio porque, a cada vez que vejo um promo, um teaser ou qualquer coisa da série, logo me vem à mente “como uma série pode ter um promo tão bom e, ao mesmo tempo, ser uma série tão lixo?”. Mais ainda: é sempre bom lembrar que a série de Tim Kring teve a honra de ser indicada ao Emmy de Melhor Série Dramática de 2006, em sua primeira temporada, o que é um feito para poucas séries. E isso ocorreu com justiça, pois a Season 1 de Heroes é realmente muito boa. Porém, depois disso, em compensação…

Uma sequência inacreditável de eventos desnecessários e totalmente desencontrados com a linha de tempo que a própria série criou foi jogado na nossa tela, como se fossem baldes de coliformes fecais na nossa cara (como diria André Zuil). A amostra de que seria ridícula a sequência das temporadas veio no final da primeira, quando um vilão huge-motha-fucka é derrotado com uma faquinha de pão Pullman, empunhada por um japonês que ficava gritando “Yatta”. Depois, o mesmo japonês é jogado para outro século, e fica preso lá, sem servir pra nada, durante UMA TEMPORADA INTEIRA.

Nesse meio tempo, o mega-vilão recobra a memória, se vira contra a tal Companhia, o copiador de poderes continua sem saber usá-los, tem o irmão ganancioso, a cheerleader que quer ter vida normal, o policial babaca, o tempo passa… e aí eles descobrem que os culpados disso tudo são os pais deles.

Aí, os filhos vão à luta (sem antes ouvir as desculpas de Tim Kring pelo conteúdo apresentado). Rapidamente, percebemos que os vilões são bem mais interessantes do que os heróis, que se revezam em trapalhadas de roteiros e argumentos, além de viagens no tempo e linhas alternativas que nunca se concretizaram. Chegam os vilões, tocam o terror na série, dá-se a impressão que a série iria melhorar… até que, não mais do que de repente, eles estragam tudo de novo, criando uma brincadeira de gato e rato, entre o governo dos EUA e os nossos heróis (até mesmo colocando um clone de Barack Obama na série). Tim Kring, de novo, pede desculpas.

A brincadeira de gato e rato é o que há de pior na série: heróis que morrem com tiro na barriga, todo mundo podendo pintar o futuro, pessoas que não tem poder acabam desenvolvendo poderes… e no final, o vilão huge-motha-fucka é derrotado. Como? Ele é induzido a ser um outro personagem, apenas pela força do pensamento. Mas… POR QUE NÃO FIZERAM ISSO ANTES??? Beleza, vamos pra próxima: novos vilões. Na verdade, apenas um deles, que usa cajal no olho e vive em um circo mambeme. Aliás, circo mambembe foi o a tônica da temporada derradeira de uma das maiores decepções que os fãs de séries tiveram em todos os tempos.

De Heroes se esperava muito, e se encerrou de forma patética, com o vilão mega-poderoso virando um herói. Por que? Porque ele simplesmente pensou: “eu quero sair desta vida de matar pessoas e catalogar poderes que, ao longo das temporadas, eu nem me lembrei de metade deles, para me livrar das emboscadas de roteiros que me colocaram”. É, tinha mesmo que acabar. Era o sofrimento por todos os lados. Tem algumas pessoas que rumoram que a NBC ainda vai produzir 4 ou 5 episódios para contar o final da história. Honestamente, eu duvido.

Heroes e Flash Forward tiveram seus cancelamentos anunciados, e isso foi mais comemorado do que várias renovações que vi ao longo dos anos. Aliás, poucas vezes vi uma manifestação tão festiva em torno de um cancelamento, e no caso de Heroes, foi tão falado que foi parar no Trending Topics Brasil do Twitter.

De qualquer modo, vão para nunca mais voltar, mas lá no fundo, todos nós vamos sentir falta do sentimento incontido de detonar, sem dó nem piedade, produções que, em seu enredo, revelavam o quão infeliz pode ser um canal de TV que investe nestes produtos. Fica aqui o registro do Spin-Off que, apesar do alívio de não precisar mais colocar estas séries no upfront 2010-2011, teremos sempre um lugar especial no nosso pensamento, pois serão casos a serem lembrados sempre de “como jamais um canal de TV deve fazer”.

R.I.P.

Heroes (2006-2010)
Flash Forward (2009-2010)