E o dia 27 de maio chegou, e a versão tupiniquim de Saturday Night Live foi ao ar. Com uma equipe de humoristas capitaneada por Rafinha Bastos, a Rede TV coloca ao ar um formato de humor que já é conhecido no Brasil (esquetes cômicas ao vivo), mas em um formato de programa que a grande maioria dos brasileiros não conhece. Será que foram bem sucedidos na estreia? Vamos ver…

No seu formato (veja bem, estou falando do formato, e não do conteúdo), o SNL Brasil está a cópia fiel do seu original. A disposição dos segmentos, a parte gráfica, estúdios, vinhetas, etc. Como a Rede TV tem os direitos da franquia no Brasil, poderia explorá-lo como quisesse nesse aspecto, e aproveitou para usar e abusar de todas as características visuais e conceituais do programa. Até o relógio da “Grande Estação de Trem” de Nova York estava lá. Particularmente, achei estranho, mas se é uma adaptação, dá pra deixar passar.

Aí vem aquela frase: se vai fazer, faz direito. O problema de trazer um programa como o SNL no Brasil passa pela cultura humorística, pela capacidade da produção do programa, pelo talento (ou falta de talento) de quem escreve para o programa e pela cultura do brasileiro médio. Se a Rede TV até fez um bom trabalho em reproduzir o ambiente visual e as características gráficas do programa de maior duração da NBC, nos demais aspectos, deixou a desejar.

O primeiro programa do SNL Brasil teve pontos bons e pontos terríveis. A paródia sobre a entrevista da Xuxa foi hilária (apesar de algumas pessoas já preverem processos da própria… e aí entra o problema do brasileiro médio, mas falo disso mais pra frente), o próprio monólogo do Rafinha Bastos foi bom, e o Weekend Update, segmento “jornalístico” do programa foi, ao meu ver, o melhor quadro, ou onde as risadas saíram de forma mais fácil.

O grande problema do SNL Brasil ficou por conta das esquetes ao vivo, que por sinal, foram poucas. Com quatro segmentos pré-gravados, ficou difícil chamar o programa de “Live”, uma vez que contei apenas três esquetes feitas no palco (fora o próprio Weekend Update).

Algumas pessoas falaram que o problemas das esquetes ao vivo estão na duração dessas esquetes. Eu já penso que o problema era o texto mesmo. O texto era fraco, as situações eram meio bobas, e como os próprios disseram em uma fala improvisada, quase (eu disse quase) não tinha diferença com um quadro do Zorra Total (Globo). Talvez falte aquela pegada mais crítica, com paródias sobre política e seus programas de debates. Talvez isso role mais pra frente no programa. Talvez não, porque os políticos daqui são cheios  de “não me toques”, e como diz o ditado popular, “quem tem …, tem medo”. E a Rede TV, devendo até as calças, tem muito medo.

Outro fator a ser observado: muita gente comparou a estreia do SNL Brasil com a estreia do Pânico na Rede TV. Vale lembrar que, mesmo que todos saibam quem é Rafinha Bastos (por amá-lo ou odiá-lo), quase ninguém sabe o que é o tal Saturday Night Live. Já o Pânico é ouvido pelo Brasil inteiro, e criou-se uma grande expectativa de como seria essa adaptação do programa de rádio para a TV. Dito isso, a estreia não teve bons índices de audiência: teve pico de 2 pontos, caiu para 1 quando o Pânico na Band começou, e ficou nisso.

O SNL Brasil começou fraco, precisando melhorar muito no texto de suas piadas. Algumas esquetes foram bobas demais para serem risíveis. E tais ajustes precisam ser feitos com urgência. O programa realmente conta com bons talentos do humor brasileiro, mas faltou timing de comédia na maioria das piadas feitas. Além disso, é função do programa “apresentar” a sua proposta de humor de forma mais didática e gradativa para a maioria dos brasileiros que nunca ouviram falar da sigla SNL. Para quem já conhece o original, produzido por Lorne Michaels, as chances de ter odiado a versão nacional são enormes.

E um dos grandes desafios do SNL Brasil é enfrentar a cultura burra do “politicamente correto” que tomou conta do brasileiro médio. Hoje, não podemos falar nada, não se pode fazer piada de nada, e programas como Viva o Gordo e Os Trapalhões, ambos da década de 1980, jamais poderiam ir para o ar hoje. Afinal de contas, ambos citavam etnias, esteriótipos, vícios, tendências a malandragem e outros tantos elementos considerados hoje “proibidos para a TV”.

O mais estranho é que algumas pessoas acabam aplaudindo as mesmas piadas do módulo “foda-se” quando vem de humoristas como Ricky Gervais, Seth McFarlane, Mike Judge, Matt Groening, Louis C.K. e os roteiristas de South Park (Comedy Central). Chamamos eles de “gênios” porque eles são capazes de dizer aquilo que nós sempre quisemos, mas não temos coragem, sem olhar para os lados, ou se importar se vão atingir a alguém ou não. Já no Brasil…

Mas tudo isso não isenta o SNL Brasil. O humor apresentado pelo programa ontem é fraco, bem longe de ser considerado engraçado em alguns momentos. Salvo algumas exceções, tem muito a melhorar. Vamos acompanhar (com uma certa distância, é claro) os próximos episódios.