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“Unidos, venceremos. Divididos, cairemos”.

A frase dita por Bob Marley foi sabiamente utilizada para sintetizar o real mote para “Capitão América: Guerra Civil”, novo filme da Marvel, e que dá sequência ao projeto da Marvel Cinematic Universe (MCU), iniciando a dita fase três, que deve culminar em “Os Vingadores: Guerra Infinita – Parte II”. Aqui, temos um filme de heróis sim, temos vilões sim, mas reforça algo que já destaquei em “Os Vingadores: A Era de Ultron”: acima de qualquer coisa, eles são humanos.

É difícil falar de um filme com vários detalhes que precisam ser pontuados para te convencer a ir no cinema agora, mas prometo que vou tentar maneirar. Vou segurar a onda.

Em linhas cronológicas, “Capitão América: Guerra Civil” é uma sequência direta de “Os Vingadores: A Era de Ultron”, pelo menos no seu plot de fundo. Os governos não sentem essa segurança toda nos Vingadores: os incidentes em Nova York, Washington, Londres e Sokóvia reforçam isso. No mundo real, um grupo de humanos com habilidades sobre-humanas seria altamente questionado pelas organizações governamentais. Some isso à paranoia do terrorismo e o fim da privacidade que alguns países querem promover hoje, e verá que o plot inicial desse filme não é tão absurdo assim.

Porém, esse não é o motivo pelo qual uma guerra entre os Vingadores vai explodir. As razões são mais profundas, mais pessoais. Na verdade, nenhum dos lados está se importando muito para o que os governos querem. Eles mesmos sabem que estão acima disso. Os dois lados defendem argumentos pessoais para se posicionarem de lados opostos. Você até pode achar esses motivos torpes, mas são motivos que levam Steve Rodgers e Tony Stark a repensarem de forma profunda suas posturas e atitudes diante de um mesmo tema: vale tudo para salvar uma vida, inclusive aceitar “perdas deduzíveis” e colocar em risco pessoas inocentes?

Tanto Steve como Tony sofrem seus conflitos pessoais. São cobrados pelas perdas de inocentes em nome de um bem maior. É um conflito ético que todo herói passa eventualmente, mas nesse caso, tudo foi humanizado. Os dois sofrem as perdas de suas vidas, lidam com seus traumas, seus sentimentos de culpa. Seus arrependimentos. Vemos os dois lidando com a cobrança da morte, e em como isso vai impactar a relação dos dois. Que, por sinal, nunca foi boa.

Falando bem sério: Steve Rodgers e Tony Stark NUNCA FORAM AMIGOS. Só ficaram juntos até agora porque 1) um precisava do outro; 2) ou os dois se uniam ou a Humanidade estava ferrada. Logo, era a parceria pelo bem maior. Fora isso, todo mundo esperava ver os dois entrando na porrada bem antes desse filme.

E as rusgas vem de longa data. Aliás, tudo será desenterrado de uma tal forma, que você nem vai se lembrar que tem os governos tentando controlar os Vingadores.

Lidar com o passado é difícil, ainda mais para duas pessoas emocionalmente instáveis e machucadas. Steve Rodgers viveu tempo demais sozinho na vida, e não falo isso só do tempo que ficou congelado. Sem falar que, mesmo sendo o soldado mais poderoso do mundo, ele sabe que não é feliz. Não é livre. Não vive em um mundo livre. Não vive a liberdade que ele sempre sonhou, e pelo qual ele lutou no passado para proteger.

Por outro lado, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que mais explora as frustrações de Tony Stark com seu pai, Howard, e sua veneração pela mãe. Sabemos que Tony nunca teve uma relação sadia com o pai, mas dessa vez vemos a origem e o fim disso. Ou talvez o que deve fazer com que ele finalmente se assuma como um herói na íntegra, devotando sua vida para efetivamente proteger e salvar vidas inocentes, e não fazer isso como uma auto-promoção, ou algo para alimentar o seu ego.

Steve e Tony simplesmente vão explodir suas mágoas, diferenças, frustrações. E descontar isso um no outro. Na porrada, que é o ponto final quando todas as formas minimamente civilizadas de entendimento se esgotam.

Talvez a lealdade de Rodgers com Bucky Barnes incomode um pouco. Mas é uma história de mais de 70 anos. É compreensível por esse lado. Além disso, o plot do Soldado Invernal é fundamental para os acontecimentos desse filme recém estreado, pois conclui o arco onde o próprio Bucky aparece pela primeira vez. Algo que é bem positivo nesse filme é justamente mostrar a dualidade do personagem, e que isso se resolve com coerência, mostrando que nem todo mundo é bom ou mau o tempo todo.

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Dois novos personagens foram apresentados/introduzidos no universo da MCU em “Capitão América: Guerra Civil”. Um deles foi esboçado em “A Era de Ultron”: Pantera Negra. O segundo é velho conhecido dos fãs da Marvel, e foi “resgatado” para ter sua história recontada (já que a Sony por duas vezes deu algumas escorregadas): Homem-Aranha. Nos dois casos, os personagens foram muito bem inseridos no filme, com papel de destaque para os dois. Não foram jogados à esmo no contexto. É claro que duas portas estão bem escancaradas para conhecermos a origem dos dois dentro desse universo, ainda mais no caso de Peter Parker, que será 100% tutelado por Tony Stark.

Aliás, os dois times de heróis receberam sua importância em dados momentos, e mantendo a lógica que o longa se propôs desde o começo: humanizar os personagens. Mostrar que eles cometem erros banais e infantis, equívocos até óbvios (ainda mais no caso de Tony Stark), e que seus sentimentos mais profundos interferem nas suas decisões. Até mesmo o Visão foi humanizado.

É difícil achar um ponto negativo em “Capitão América: Guerra Civil”. É um dos filmes mais bem amarrados da MCU no seu roteiro, que apesar de ser objetivo, guarda suas pequenas surpresas que se apresentam ao longo do filme, mudando o rumo dos acontecimentos de forma decisiva. O trabalho de roteiro mais uma vez foi bem feito, colocando os eventos em uma ordem que, no final das contas, tudo faça sentido.

Também não preciso me alongar muito no trabalho de produção, que mais uma vez foi grandioso, algo gigantesco. Além disso, a dupla Anthony e Joe Russo usaram de planos de câmera que coloca o telespectador praticamente do lado da luta, com recursos de câmera que oferecem um resultado final muito interessante. Talvez um pouco frenético em algumas cenas de ação, mas que não causam cansaço. Aliás, este é um filme que não vai te cansar: as 2h30 passam voando, você não olha para o relógio nenhuma vez, e sai do cinema satisfeito com tudo o que foi apresentado.

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No final das contas, “Capitão América: Guerra Civil” é um filme que podemos dizer que é sobre pessoas. Sem brincadeira ou provocações. São heróis sim, mas são humanos. Aliás, todo herói traz em si a humanidade para salvar vidas. Mas dessa vez, isso vem à tona de forma natural, coerente, à flor da pele. O ressentimento, a mágoa, as diferenças pessoais… estes são protagonistas de um filme que é sim um filme protagonizado pelo Capitão América. O Homem de Ferro é um antagonista às motivações de Rodgers, mas não é o grande vilão do filme. Aliás, o filme não tem um grande vilão. Tem um vilão sim, mas é mais um manipulador do que uma efetiva ameaça à humanidade.

Quando duas pessoas emocionalmente machucadas decidem resolver suas diferenças fisicamente, o vilão está nas consequências geradas por essas divergências. Todos saem perdendo com isso.

Mas… na vida, também aprendemos que a distância aproxima as pessoas. E que em alguns casos precisamos destruir para depois construir algo muito maior.

 

P.S.1: um filme com a Viúva Negra. Eu imploro, Marvel. 

P.S.2: duas cenas pós-créditos.