Sem Buffy, a Caça-Vampiros, jamais teríamos histórias com protagonistas heroínas, que tentam salvar o mundo enquanto precisam resolver seus próprios problemas. A série criada por Joss Whedon completou 20 anos de sua estreia no finado canal The WB nos EUA, e se transformou em um clássico. Ou uma das séries mais influentes das últimas duas décadas.

Muito provavelmente apenas The Sopranos (HBO) consegue superar o nível de influência de Buffy.

Ah, você acha que é exagero da minha parte? Pois bem, vou apresentar os meus argumentos.

 

Em 2003, o The New York Times escreveu um artigo que diz que o final de Buffy tinha que ser algo mais do que uma história de vampiros ambientada em um colégio da Califórnia. Transmitida em um canal voltado para o público jovem como era o The WB, Joss Whedom se propôs desde o começo a apresentar uma protagonista que era uma raridade na TV em 1997: uma heroína jovem, forte, que salvava todo mundo, mas ninguém salvava ela.

O próprio Whedon explica que ele queria uma série feminista, mas não queria falar de política feminista (ou feminismo). Queria ver algo que sentia necessidade vem ver. Ele sentia que esse tipo de garota não era representada. Queria uma mulher que comandasse o mundo, e homens que estavam confortáveis com isso.

Na época, já havia uma mulher que mais ou menos fazia isso: Xena, a Princesa Guerreira.

Mas esta série era exibida em canais menores, e suas referências mitológicas, aventuras sem senso do ridículo e anacronismos históricos faziam com que poucas pessoas levassem a trama de Xena a sério.

Buffy não deixava de ser uma série em humorada, mas levava a sério os adolescentes. E levava a sério principalmente a sua protagonista, Buffy Summers.

A protagonista sabia que sua missão era maior que ela mesma. Ao mesmo tempo, também queria ser uma adolescente normal. Com o passar das temporadas, o peso de ser uma caçadora de vampiros era cada vez mais difícil de suportar.

A consequência desse perfil psicológico? O surgimento de personagens como Veronica Mars, a nova era de companions de Doctor Who e a Viúva Negra em Os Vingadores.

Só para começar.

 

 

No final da década de 1990, era comum ver uma série se auto descrever como pertencente de um segmento, e depois sair desse molde com sua evolução. Buffy foi uma série adolescente com história de terror, e seu enredo ajudou a revitalizar as séries teen na TV norte-americana.

Whedon decidiu usar vampiros e monstros como metáfora para os desafios que os adolescentes enfrentam para se tornarem adultos. E um dos plot twists mais interessantes da série para mostrar esses desafios foi justamente o romance envolvendo Buffy (uma caçadora de vampiros) com Angel (um vampiro com alma).

Aqui, temos uma mudança de paradigma sore o tema “perda da virgindade”, mostrando como muitos jovens entendem que este é o pior período de suas vidas. Aliás, a série mostrou que, para muita gente, o colegial (e tudo o que o cerca) pode ser o inferno na Terra.

A forma de usar um gênero de série para falar como é complicado um período da vida é adotada até hoje por diversas séries. Riverdale, recém renovada pela CW para a segunda temporada, é apenas um exemplo recente de como isso permanece vivo na TV norte-americana.

O mais legal de tudo é que Whedon se permitiu a usar das metáforas para falar de temas muito polêmicos, mas que faziam parte da realidade do adolescente médio, como por exemplo uso de drogas e relações homo afetivas. Aliás, Buffy foi uma das primeiras séries a mostrar um relacionamento amoroso lésbico da mesma forma que era mostrado um romance entre os heterossexuais.

 

 

Buffy também se destacava pelos seus diálogos, cheios de referências pop e piadas internas, sempre apostando na serialização, com um grande vilão por temporada. Porém, um ponto comum que perdurou ao longo de 20 anos é o fato dos freaks e excluídos assumirem o controle de tudo. De suas vidas, inclusive.

Buffy mostrou como os jovens podiam escolher suas próprias famílias, ou aquele grupo de pessoas que aceita você como você é. O apoio entre os amigos servia para superar grandes crises, dando poder para quem não tinha, com a certeza que tudo ia ficar bem no final.

As lições que Buffy, a Caça-Vampiros deixa são muito maiores do que você pode imaginar à primeira vista. Vários trabalhos acadêmicos fazem referência à série, e roteiristas de sucesso como Shonda Rhimes reconhecem a série como a sua favorita de todos os tempos.

Whedon criou uma heroína que se transformou no padrão para tudo o que viria depois, e sua cominação de angústia adolescente, ameaça real do fim do mundo, senso de humor e evolução de personagens perduraram no imaginário coletivo por 20 anos.

E, por tudo isso, Buffy se tornou um clássico da TV.