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Relaxa. Sem spoilers. Até porque não queremos estragar a surpresa de ninguém.

Um dos filmes mais esperados dos últimos 18 meses, talvez. Ou desde quando Ben Affleck foi anunciado como o novo Batman em agosto de 2013 (ou seja, longos 31 meses). Na época, eu me lembro como as pessoas reclamaram dessa escolha, muitos traumatizados por conta de sua performance em O Demolidor. Mal sabiam eles que, no final das contas, Affleck nem chega a ser um problema diante de tudo o que aconteceu em ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’.

O filme é dirigido por Zack Snyder, e não podemos simplesmente ignorar esse fator. Ele é muito importante para o resultado final do processo. O longa de 151 minutos de duração tem algumas de suas marcas registradas, tanto para o bem como para o mal, e se há alguém que deve ser diretamente responsabilizado por tudo o que vimos durante esse tempo, esse alguém foi ele. Existem pontos positivos e negativos no filme. Vamos a esses pontos e, ao longo do texto, falaremos mais sobre as escolhas de Snyder sobre essa produção. ]

‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’ mostra os acontecimentos ocorridos após os eventos de ‘O Homem de Aço’ (2013), que é quando o Superman (Henry Cavil) efetivamente aparece para o mundo, derrotando Zod que invadiu a Terra na tentativa de eliminar o filho de Jor-El, do planeta Krypton. A maioria da população entende que estamos diante de um deus salvador/protetor da Humanidade. Mas é a maioria apenas. A minoria, que gosta de fazer barulho, tende a se incomodar com o fato de que chegou o cara que é o autêntico P*ca das Galáxias, que pode cuidar da p**ra toda, tornando por exemplo o Exército dos Estados Unidos algo inútil.

Logo, o mesmo conflito ético e existencial que já apareceu em ‘O Homem de Aço’ se repete nesse filme. O governo e as Forças Armadas seguem se questionando se o mundo realmente precisa de um alienígena para nos proteger, deixando evidente que os humanos não conseguem se defender deles mesmos. Por outro lado, esses mesmos militares não conseguem sequer compreender a dimensão daquilo que acertou a Terra na invasão de Zod, e o que pode estar por vir por conta da megalomania humana.

Esse é um dos conflitos éticos que essa série de filmes propõe que acho interessante. Acreditamos em Deus, mas quando um deus aparece para salvar a Humanidade, o renegamos. Ou seja, só podemos ter fé naquilo que não podemos ver? Quando saímos do campo da fé nos tornamos céticos e nos damos o direito de renegar aquele que nos salva?

Enfim, do outro lado da questão está Bruce Wayne (Ben Affleck), que já é o Batman há pelo menos 20 anos, mas parece que ninguém deu a mínima o suficiente para o Homem Morcego, uma vez que ele pode fazer justiça com as próprias mãos em Gotham City, mas nem a polícia, nem a imprensa, nem qualquer pessoa aparentemente se incomodou com isso. Mas falo disso mais adiante.

Wayne não gostou do que viu na invasão da Terra por alienígenas. Não gostou de ter seu prédio atingido, de ter seus funcionários mortos, de ter funcionários acusando ele de não ter feito nada. E por tudo isso, Wayne comete um erro comum entre os seres humanos: o erro de julgamento subjetivo.

O Cavaleiro das Trevas ignora toda a trajetória feita por Superman até culminar naquela batalha épica para simplesmente concluir que o dito salvador de outro planeta foi também o responsável por trazer a guerra para o nosso planeta e, por conta disso, merece ser detido. Afinal de contas, só a Humanidade pode destruir a Humanidade com duas grandes guerras mundiais, atentados terroristas e ameaças de outras espécies.

Aliás, uma coisa que me incomoda e muito foi ver Batman ser definido como um adulto traumatizado e revoltado, que se julga acima do bem e do mal. Ou seja, ele pode violar os direitos humanos a hora que ele quiser, passar por cima da polícia de Gotham (que historicamente sempre foi incapaz de lidar com as ameaças que assolavam a cidade… mesmo assim….), torturar e matar pessoas mesmo sendo apenas um cara com uma capa cheio de gadgets. Mas o Superman, que tem que enfrentar um ALIENÍGENA… não!

Beleza!

Por outro lado, Clark Kent não se preocupou em nenhum momento em analisar as motivações do Batman em estabelecer justiça em uma terra sem lei. Basicamente não viu que o que o Cavaleiro das Trevas fazia era essencialmente a mesma coisa que ele mesmo fazia como Superman, mas em escalas bem menores. Não se importaram em dialogar para resolver os seus conflitos e divergências. Ambos se basearam nas primeiras impressões causadas, e foram até o fim nisso, com convicções cegas, sem olhar para detalhes, sem ouvir a opinião pública. Tudo na base do achismo.

No meio de tudo isso, temos Lex Luthor (Jesse Eisenberg), que também quer deter o Homem de Aço, e fica de olho nos movimentos do Homem Morcego em Gotham City (até porque em 20 anos a imprensa não se importou com isso). É Lex quem encontra a pedra dentro da nave kryptoniana que degenera as células dos alienígenas, tornando os mesmos tão mortais como os humanos, doravante conhecida como kryptonita. Propõe para o Departamento de Defesa explorar esse material para impedir que outras ameaças desse porte dominem a Terra, incluindo o próprio Superman.

Aqui, temos um conflito claro de interesses das duas partes. O governo norte-americano não quer que uma grande corporação explore uma tecnologia alienígena, de material radioativo. Por falar nisso… não é estranho que a Lexcorp tenha encontrado a kryptonita ANTES do governo norte-americano, que aparentemente deixou uma nave alienígena cair no mar do Oceano Pacífico e simplesmente pensou “vamos deixar isso para lá”, só confiscando a nave sem explorar nada do que tem dentro dela? Em dois anos?

Ok… tudo bem…

Por outro lado, Lex Luthor não quer ser o salvador da Humanidade. Quer dinheiro, é claro. E não é só para comprar balas. Além do dinheiro, quer preencher seu ego para ser o maior filantropo de todos os tempos, criando a tecnologia que chuta bundas de alienígenas. Apenas pela vaidade pessoal. E para ele ter mais temas para suas metáforas absurdas.

Sem falar que Lex é um dos que estão envolvidos em todos os eventos que visam atrair o Superman para esse cenário de crise. É de interesse dele ver o Homem de Aço incriminado de alguma forma, levantando a dúvida razoável na população, e para que Batman acredite de forma quase cega que ele é mesmo capaz de derrotar a ameaça alienígena. Mesmo ele sendo apenas um mero mortal.

Mas o que realmente incomoda nesse Lex Luthor é que ele é apenas um megalomaníaco surtado e chato. Não é um gênio do mal. Seu plano nem é tão bem elaborado assim, e sua resolução é bem óbvia, se pensarmos de forma fria e racional. Lex passou a perna no Batman E  no Superman sem maiores dificuldades, com uma estratégia bem simples: uso minhas metáforas, crio factoides e coloco um herói contra o outro apenas pela sua diversão doentia. Nada mais do que isso. Não há sequer o mérito de ter criado um super vilão com seu próprio sangue. Nem isso foi um grande plano de Lex. Quase beirou uma c*g*da científica.

O filme basicamente é composto pelo cruzamento do destino desses três personagens, e todos os eventos subsequentes giram em torno deles. Eles são a força motriz do filme.

A boa notícia é que: sim, eu não contei nenhum spoiler para você. Mas se você assistiu a todos os trailers de ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’, você com certeza tomou vários. Afinal de contas, os trailers resumem basicamente tudo o que eu contei para você nas últimas mil palavras. Logo, não é novidade nenhuma o que acabei de escrever.

E o que é o pior de tudo: o filme é basicamente isso. E nada mais.

 

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Voltemos a falar de Zack Snyder.

Temos um filme de Zack Snyder em ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’, sem tirar nem por. Algumas das características do diretor são vistas claramente ao longo do filme, assim como os seus vícios na hora de resolver problemas que ele insiste em se mostrar pouco hábil para resolvê-los. E por isso não posso dizer que esse filme é uma decepção. Pelo contrário. Eu esperava isso de um filme desse cara.

Para começar, o filme tem problemas de montagem. Os eventos são dispostos de foram quase aleatória, sem atender a uma ordem que coloque o ritmo necessário para que seja um filme que prenda o interesse na trama. Os eventos são apresentados de forma desordenada e, em alguns casos, de forma preguiçosa. Em algumas cenas, a impressão que dá é que algum chefão na Warner Bros começou a gritar “precisamos enfiar essa cena no filme de qualquer maneira”, mas não foi isso o que aconteceu. Foi só Snyder não fazendo escolhas adequadas na hora de contar sua história.

História que, no sinal, é bem rasa. Não é difícil de entender a trama geral, e não é necessário ter assistido ao filme ‘O Homem de Aço’ para ver esse novo filme. Aliás, estranho em partes Snyder não gastar mais tempo na história do passado de Bruce Wayne. Entendo que a grande maioria dos fãs já sabem o que aconteceu com Bruce e como ele se tornou o Cavaleiro das Trevas. Porém, isso ajudaria a criar uma empatia maior com o personagem.

Da forma como tudo foi apresentado, Batman é um homem sem critérios e sem padrões. Só tem prendido ladrão pé de chinelo nos seus últimos anos em Gotham City, e encontra no Superman o cara que ele é capaz de derrotar. Fora isso, é um chato irritante, insuportável, que não supera os traumas do passado e, por isso, se torna um babaca escroto. Nada mais do que isso.

O festival de incoerências apresentadas em ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’ é o que considero o pior do filme. Pior até mesmo do que sua montagem mal feita. Algumas delas gritam a ponto de quem está assistindo perceber e comentar negativamente, dizendo ‘que p**ra é essa’? Alguns desses problemas eu já citei nesse post, mas o pior deles é sem dúvida a ‘solução’ para que Batman e Superman se tornem ‘amigos’. É tão vergonhoso que você fica nervoso ao ver aquilo acontecer.

Em linhas gerais, ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’ é um filme frio e sombrio. Tenta ser sério ao abordar questões como a fé da Humanidade, a essência de um herói, e pelo o que se luta nessa vida. O problema é que Snyder faz questão de mostrar que esses personagens são humanos e falíveis, passíveis de cometer erros de julgamento, até (quem sabe) destruir parte de uma cidade para que cada um mostre claramente qual é o seu ponto. E esse traço de humanidade não é o problema tão sério, já que como humanos falíveis não dialogamos para resolver nossos conflitos. O grande problema foi traduzir isso em uma atmosfera onde a racionalidade vai toda para o espaço, e isso vindo de dois personagens onde essa mesma racionalidade é um dos seus traços mais importantes durante sua trajetória nos quadrinhos.

Tanto Batman quanto Superman agem por impulso na sua motivação de um destruir o outro, enxergando em si ameaças à ordem natural das coisas. São contrapontos psicológicos que são expostos apenas pelo argumento de se ter um duelo entre os dois, desafiando fortemente o fator crível que o filme deveria ter nesse aspecto. Na prática, se ambos tivessem pesquisado por 15 minutos no Google a trajetória um do outro, ambos entenderiam rapidamente que estão lutando pelos mesmos ideais. Mesmo levando em consideração que a mídia poderia manipular e distorcer a imagem dos dois, sendo este um cenário perfeitamente plausível.

O filme em si é fraco. Peca pela falta de ritmo e coerência de seu roteiro. No final das contas, Ben Affleck como Batman não é um problema como todos alardeavam. Pelo contrário. Fez bem o seu papel de Homem Morcego. Não compromete a trama e suas atuações estavam bem convincentes. Acho que diante de todos os erros apresentados, fica difícil colocar o toda a culpa nas costas desse ou daquele personagem.

Temos UM plot twist, no qual você pensa “agora vai!”, mas na verdade, é só mais um evento no meio de tantos outros para preparar para o duelo final. Que é um duelo envolvendo o Homem de Ferro contra o Homem de Aço (e todo mundo viu isso nos trailers). Tem até um Hulk nesse filme (assista e vai identificar qual é).

Nem acho tanto que foi “uma forma de forçar a barra” a inclusão da Mulher Maravilha nesse filme. Entendo mais como uma apresentação do personagem (algo que foi feito com os demais personagens da dita Liga da Justiça), mas dando mais atenção à ela, por ser a personagem mais popular depois de Superman e Batman.

 

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Enfim, ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’ tem problemas. Problemas típicos de Zack Snyder. Nem acho o filme tão ruim assim, mas não supera muito minhas expectativas, e me decepciona bastante por conta de tantos erros apresentados. É um filme que poderia sim ser mais frio e sombrio como se propõe, mas em um filme de ação que você não ri de absolutamente nada, se levando a sério o tempo todo, mesmo quando o grande plot é a luta de um humano contra um alienígena.

Nada disso me decepcionou. Ao ver os promos, já esperava que esse filme trouxesse uma série de viciações do seu diretor. Infelizmente, tudo isso acontece em um filme de grande porte. Um dos mais esperados dos últimos 18 meses.

 

P.S.1: não tem cena pós créditos. Pode levantar e sair do cinema normalmente. 

P.S.2: Henry Cavil não me convence como Superman. Definitivamente. 

P.S.3: Zack Snyder vai dirigir o filme da Liga da Justiça. Logo, já sabem pelo o que esperar.