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Um dos mais duros golpes sofridos pela Igreja Católica em sua história, pela ótica de quem foi atrás da verdade.

Antes de mais nada, não vamos aqui julgar esta ou aquela religião. Não fiz isso quando analisei o filme Os Dez Mandamentos, e não pretendo fazer isso com esse filme. Vamos falar do filme, dos fatos que ele relata, e tudo o que nos interessa como uma análise que visa recomendar ou não o filme para vocês. Dito isso, Spotlight é ALTAMENTE RECOMENDADO para qualquer pessoa. Inclusive para os católicos.

Mas para começar, é preciso explicar o que quer dizer o termo “Spotlight”.

“Spotlight” (ou “Holofotes”) é um pequeno time de jornalistas de uma redação que, durante meses, pesquisa e trabalha em cima de um único tema, para produzir artigos investigativos para a sua editoria. Esses profissionais normalmente não tem medo de ir atrás da informação, de questionar pessoas envolvidas, de levantar provas, e conseguem fazer um trabalho melhor do que autoridades policiais, promotoria e outros órgãos responsáveis. É o tipo de jornalismo que edifica essa profissão, pois efetivamente presta um serviço de utilidade pública que vai além da informação. Pode fazer a denúncia que pode mudar vidas. Ou derrubar governos, impérios… abalar estruturas religiosas…

O filme é baseado em fatos reais.

Em 2001, quando Marty Baron (Liev Schreiber) é contratado como novo editor do The Boston Globe, ele traz debaixo do braço uma coluna que ele leu sobre o advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), que denuncia o Arcebispo da cidade de Boston, o Cardeal Law (Len Cariou) de saber que o padre John Geoghan estava abusando sexualmente de crianças, mas que nada fez a respeito disso. Marty se reúne com o editor-chefe do time Spotlight do The Boston Globe, Walter Robinson (Michael Keaton), e dá o sinal verde para eles investigarem o assunto, a partir dessa denúncia.

Dentro do time de jornalistas, Michael Rezendes (Mark Ruffalo) será um elemento chave, pois ele será o contato mais próximo do jornal com Garabedian, que é pressionado a colaborar diante do fato do The Boston Globe seguir adiante com o assunto. Os jornalistas achavam inicialmente que este era um caso isolado, e que o padre em questão foi realocado várias vezes. Porém, as investigações apontam para um padrão de abuso de crianças pelos padres de todo o estado de Massachusetts, em um esquema que era de conhecimento da Arquidiocese de Boston, que por motivos óbvios, encobria tudo.

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Então, o time Spotlight começa a ampliar a sua pesquisa, e conforme o processo avança, eles encontram evidências que o número de padres envolvidos em abuso sexual infantil no estado poderia ser muito maior do que o esperado. Aliás, o que os jornalistas de 2001 fizeram era o serviço que o próprio time do The Boston Globe não fez: em 1993, o próprio Garabedian enviou para a redação do jornal a denúncia de 13 padres envolvidos. Mas na ocasião, o time chefiado por Robinson nada quis fazer sobre o assunto.

No final das contas, o número de padres envolvidos era consideravelmente maior. E a divulgação desse esquema ao grande público mudou radicalmente as coisas para a Igreja Católica e para a comunidade. De forma irreversível.

Spotlight é um filme que chama a atenção pela sua objetividade. Não é um filme chamativo visualmente falando, não tem efeitos especiais, explosões, cenas de correria, perseguições, tiros, porradas e bombas. É um filme praticamente todo composto de cenas com diálogos. Sempre tem pelo menos duas pessoas em cena, interagindo uma com a outra através de um diálogo direto, mostrando de forma indireta a necessidade da comunicação entre duas pessoas dentro de um objetivo comum.

Outro aspecto positivo do filme é que o mesmo tem uma linguagem altamente documental. É um filme com estética jornalística, como se o telespectador fosse testemunha ocular de tudo o que está acontecendo, ou acompanhando essa investigação como se fosse um integrante do time Spotlight. Isso cria um nível de imersão bom o suficiente para não só prender a atenção do telespectador para um filme com uma história interessante, mas também ajuda a não cansar esse mesmo telespectador.

A produção do filme é mais um acerto. Utilizar trechos de gravações, de imagens da época, dados históricos, equipamentos e tecnologias que reportam ao ano de 2001 (inclusive trazendo o 11 de setembro, período importante também para as investigações do time de jornalistas). Isso foi feito de forma impecável pelo filme, que mesmo sendo visualmente discreto, conseguem se ambientar de forma eficiente.

Um dos maiores méritos de Spotlight é o seu elenco. E sim… eu estou dizendo isso mesmo com o Liev Schreiber nele!

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Todo mundo sabe o que eu penso desse moço em Ray Donovan (Showtime). Quando me disseram que Liev Schreiber estava MUITO BEM em Spotlight, eu não quis acreditar. Depois de mais de 2h de filme, me convenci que o problema mesmo era o diretor da série do cara que resolve tudo quanto é problema.

Aliás, o elenco desse filme é ótimo. Todos estão muito equilibrados, com atuações mais ou menos expressivas, de acordo com a importância dos seus papéis na trama. Não existem pontos destoantes nesse aspecto. Obviamente os atores são ajudados por uma boa história (a trama toda do filme é muito interessante, com um roteiro muito bem amarrado) e por ótimos diálogos. É um texto que em alguns momentos é impactante, mas sem ser exageradamente dramático ou chamativo. Algumas falas que chamam mais a atenção para as questões morais de toda a situação são ditas de forma sutil, calma e pausada.

Por fim, Spotlight é um ótimo filme. Não só por abordar um dos maiores escândalos da Igreja Católica em sua história, mas por apresentar uma visão jornalística desse processo, que pode até ser romantizada, mas que no final, dá aquele tesão de sair correndo para uma redação para produzir notícias. Bom, estou falando por mim, que está dentro desse ofício de alguma forma. Mesmo assim… tudo é feito de forma tão testemunhal, tão próxima do telespectador, que é impossível não se envolver com o processo.

Filme altamente recomendado. Para todos. Inclusive para os católicos. E não para dar lição de moral. Mas simplesmente para mostrar que tudo pode mudar. E para melhor.