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Dá até para ouvir um coro no fundo (liderado por Eduardo Sacer), que diz mais ou menos assim: “se o DiCaprio não ganhar, ole ole olá… o pau vai quebrar!”.

Eu assisti O Regresso porque só agora o filme chegou ao Brasil. Acho que não apenas por ser um dos principais indicados ao Academy Awards 2016, mas porque é um filme tão grande visualmente falando, era mais do que justo investir meu tempo e dinheiro para ir até o cinema para conferir esse filme. Logo, nada de torrents dessa vez. Tudo como manda o figurino e as regras da sétima arte.

O Regresso é um filme que, essencialmente, fala sobre vingança. Porém, é muito raso você analisar 2h36 minutos de obra apenas com essa ideia em mente. É preciso entender que, dentro daquele cenário, a única forma de resolver as coisas era mesmo na base da porrada. Pra quê diálogo quando você tem uma arma? Ou seja, antes de sair julgando premissas gerais de certos filmes, é preciso analisar o contexto da situação e, se possível, se imaginar naquele contexto para a partir daí começar a perceber o que uma determinada obra te diz no seu mais íntimo.

Apesar de não ser o tipo de filme que mais me agrada, fui ver O Regresso sem preconceitos na mente e no coração. Talvez a minha impressão geral sobre a narrativa do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu não me agrade tanto como quando ele fez com Birdman (2014), que também é um filme mais lento, porém, psicologicamente mais atraente. Dessa vez, temos um filme que mexe mais com as emoções à flor da pele, mais palpável para a maioria das pessoas, uma vez que o grande combustível da história é efetivamente se conectar com toda a luta do personagem central em concretizar a sua vingança, motivada pela perda do seu bem mais querido: o seu filho.

Em 1823, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é um caçador experiente, que está no norte da Louisiana, no período de inverno mais rigoroso. Por conta de um ataque surpresa dos nativos americanos, muitos dos caçadores do seu grupo são abatidos, e os sobreviventes conseguem fugir em um barco. Justamente por conta de sua experiência – e por ele conhecer bem a região -, Hugh e outros caçadores abandonam a rota de fuga e começam a retornar para o seu posto a pé.

Nem todo mundo gostou dessa ideia, entre eles John Fitzgerald (Tom Hardy), que não gosta dos nativos por ter sido praticamente escalpelado por eles anos antes.

Durante a jornada, Hugh é atacado por um urso que estava protegendo os seus filhotes. Em uma luta insana, ele mata o urso, mas fica à beira da morte com tantos ferimentos. Ao ver aquele cenário, Fitzgerald sugere para deixar Hugh para trás, alegando que ele não vai sobreviver aos ferimentos, e sua presença só iria atrasar o grupo. É proposto a John (na verdade, ele receberia dinheiro por isso) que ele e outros caçadores ficassem com Glass até que ele morresse, garantindo que o mesmo tivesse um enterro digno.

Porém, Fitzgerald tenta acelerar o processo, em uma tentativa de matar Glass, que fracassa. Com um pequeno derramamento de sangue, John consegue fugir, deixando Glass semi-enterrado vivo. A partir daí, ele começa efetivamente a sua jornada de retorno, com um plano de vingança em mente. Até porque no meio do caminho ele descobre que Fitzgerald matou seu filho, o que só alimenta o ódio do nosso protagonista.

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Ou seja, em linhas gerais, o argumento principal de O Regresso é, como já disse, a vingança. Porém, toda a jornada feita por Hugh Glass é algo realmente impressionante. Desde o momento em que ele enfrenta o urso até o duelo final com Fitzgerald, tudo o que presenciamos é a luta constante de um homem contra a morte para lavar a sua honra com sangue. Não que isso seja algo edificante – e nem estou pensando nisso nesse momento, pois não estou julgando a moralidade dos acontecimentos dentro do cenário apresentado -, mas é comovente ver todos os sacrifícios que esse homem faz para poder alcançar essa meta. E acho que, diante do fato que ele está atrás de vingar a morte do seu próprio filho, é algo perfeitamente compreensível a sua perseverança e obstinação para alcançar essa meta.

Aqui, muitos podem pensar que Leonardo DiCaprio não tem o biotipo de pessoa que sobrevive à todas as dores que Hugh Glass suportou ao longo de sua jornada. Mas entendo que, na realidade, Hugh era um personagem com uma força mental extrema. E para isso, você não necessariamente precisa ser alguém fisicamente forte.

Por isso, o corinho liderado pelo Sacer faz todo o sentido do universo.

A entrega de Leonardo DiCaprio ao papel é simplesmente absurda. OK, muitos vão alegar que ele está usando a “regra Tom Hanks” para ganhar o primeiro Oscar de sua vida em mais de 20 anos de tentativas (começando por Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador, de 1994), onde é preciso fazer um personagem que passa por mazelas físicas extremas, exigindo do ator sacrifícios acima do comum para incorporar esse personagem.

Tá… e daí?

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Um monte de gente fala no tal do “laboratório” para compor o personagem… que tem que servir para isso. Ou vai me dizer que você ia acreditar se (por exemplo) Tom Hanks fizesse um soropositivo obeso? Nada disso. Se o personagem requer que um vegetariano coma carne, ele vai lá e faz! E isso também é levado em consideração na hora de avaliar o desempenho geral de um determinado ator.

Logo, Leonardo DiCaprio é responsável por boa parte do sucesso de O Regresso. Você se importa com a sua causa, entende suas motivações, e torce por ele o tempo todo para que ele consiga se vingar. Não é a vingança pura e simples. Não é o depreciar a vida do alheio apenas para ver alguém sofrer. É a resiliência de uma alma ferida, machucada e destruída que precisa de uma redenção. E DiCaprio nesse aspecto vendeu muito bem essa proposta.

Alejandro González Iñárritu foi soberbo no gerenciamento dos recursos de produção desse filme. Várias cenas de externas, fazendo os atores “brincarem” com o gelo, terra, grama e todos os tipos de elementos naturais daquela região. Sem falar que os elementos digitalizados estavam muito bem feitos. A cena da luta de Glass com o urso é uma longa sequência que mostra o quão bom pode ser o resultado final de uma cena que usa a alta tecnologia, desde que a mesma seja utilizada com sabedoria e parcimônia. E não aquela b*sta que os tolos defendem em Shadowhunters (eu sei, eu sei… não devemos comparar um filme indicado ao Academy Awards 2016 com uma série do canal Freeform… mas eu não me importo).

A direção de O Regresso é outro show a parte. Diálogos fortes em mais de um idioma, DiCaprio e Tom Hardy com atuações marcantes, várias cenas com perspectivas de câmeras muito envolventes, inserindo o telespectador na ação, como se todo mundo fosse mesmo testemunha de todos os eventos. O nível de imersão que se tem é impressionante, e é impossível ficar alheio a tudo o que acontece diante dos seus olhos. É realmente um dos melhores filmes do ano nesse aspecto.

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Dito tudo isso, entendo que O Regresso é mesmo um forte indicado aos principais prêmios do Academy Awards 2016. São 12 indicações, incluindo algumas das principais (Filme, Direção, Ator e Ator Coadjuvante) e várias indicações técnicas. Terminei o filme com a mesma impressão do começo: não é o tipo de história que me agrada, mas é envolvente demais para que eu ficasse indiferente. E quando um filme consegue esse tipo de reação, tem os seus méritos e reconhecimento.

Não será surpresa se for o grande vencedor da noite do dia 28 de fevereiro.