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Porque a mente humana é um universo complexo demais para os adultos entenderem. Logo, foi preciso desenhar tudo.

A grande vantagem que não ter feito nenhuma resenha sobre o filme Divertida Mente na época da sua estreia nos cinemas é que agora eu posso escrever sobre o filme com propriedade. Depois de ver o longa três vezes, consegui processar todas as informações possíveis, e explicar por que esse filme JÁ VENCEU  o Academy Awards 2016 na categoria de Melhor Longa de Animação. Posso dizer isso com duas semanas de antecedência para a premiação acontecer, pois será uma mera formalidade o anúncio desse filme como vencedor.

Não estou sendo presunçoso ou precipitado. É um fato. Aceite, que dói menos. Divertida Mente venceu todas as principais premiações prévias na sua categoria, e é, disparado a melhor animação de 2015. Não só pelo resultado estético que é fascinante, mas principalmente pela complexidade de sua ideia geral. É um filme tão bem pensado, que posso afirmar sem medo de errar que ele é mais voltado para os adultos do que para as crianças.

Afirmo isso por conta do trabalho de pré-produção do filme. O diretor do filme Pete Docter trabalhou a premissa inicial do filme baseada na sua própria experiência pessoal, uma vez que ele mesmo teve que se mudar com a sua família para a Dinamarca com 11 anos de idade, e vivenciar as mesmas experiências de Riley Andersen (Kaitlyn Dias), ou seja, fazer novos amigos, frequentar uma nova escola e iniciar uma nova vida em um local totalmente estranho. Mais: esse processo se repetiu com a filha de Pete, Elie, também aos 11 anos de idade.

Para Pete, era importante entender o que acontecia com a mente humana quando as emoções assumem o controle do comportamento de uma criança (ou um pré-adolescente). Ele começou a pesquisar essas informações ao lado de outros produtores, e consultou o psicólogo norte-americano Paul Ekman, especialista no estudo das emoções, e Dacher Keltner, professor de psicologia na Universidade da Califórnia.

E foi justamente os conhecimentos de Ekman que ajudaram a construir os elementos principais de Divertida Mente.

O estudo do psicólogo concluiu que o ser humano possui seis emoções principais, que são: raiva, medo, tristeza, nojo, alegria e surpresa. Docter considerou surpresa e medo emoções muito semelhantes, onde apenas cinco emoções principais foram escolhidas para o filme: Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho.

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Essas cinco emoções principais gerenciam a vida da Riley desde o seu nascimento. As emoções ficam em uma área da consciência chamada Sede, influenciando nas suas ações e, com isso, criando as memórias da menina ao longo da vida. Cada nova memória é alojada no cérebro, e no final do dia, elas são enviadas para um local chamado “memórias de longo prazo”. Os eventos mais importantes da vida da pessoa são transformados em memórias base, que criam as “ilhas”, que por sua vez, definem aspectos da personalidade do indivíduo.

Como Riley é uma menina alegre, a Alegria é a emoção dominante, mantendo tudo em ordem. Cada emoção tem uma razão de ser, e um momento para entrar em ação…. menos a Tristeza. Ninguém sabe direito o que ela está fazendo lá, e ninguém quer a Tristeza por perto. Porém, ela vai se mostrar fundamental para o equilíbrio de tudo.

Para Riley, tudo começa a mudar quando aos 11 anos de idade ela e sua família se mudam para São Francisco. Todos sentem que existe algo errado, mas é a Tristeza a primeira que tenta consertar as coisas, mas do modo errado, tocando nas memórias felizes da menina, e as transformando em memórias tristes. Para piorar, Riley tem a sua primeira memória base triste ao chorar diante da sala de aula no seu primeiro dia na nova escola. Na tentativa de descartar aquela memória base, a Alegria luta com a Tristeza, e acaba afetando as memórias anteriores.

Nesse momento, todas as ilhas de personalidade são desativadas, e Riley se torna instável.

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Na tentativa de recolocar as memórias base de volta, Alegria, Tristeza e as memórias base são expulsas da sede pelo tubo que conduz para as memórias de longo prazo. E, nesse momento, Riley começa a entrar em processo de depressão. E a aventura se segue.

Não quero entrar em um processo narrativo de um filme que muito provavelmente a maioria dos leitores do SpinOff já assistiu. E não é por isso que Divertida Mente venceu o Academy Awards 2016. Eu reafirmo o que disse no começo desse texto: este é um filme feito para os adultos. As crianças só assistem esse filme por uma mera formalidade, já que é uma animação. Toda a sua estrutura foi pensada para que os adultos melhor pudessem absorver a valiosa lição que podemos aprender com uma história tão bem planejada.

Divertida Mente não é um filme raso. Ele é até bem complexo. Se no começo do filme a Alegria não explica o que é o papel de cada coisa, mostrando como a mente humana funciona, boa parte da audiência fica perdida durante o filme. Bom, conheço algumas pessoas que, mesmo explicando, não entenderam a moral da história. Mas tudo bem. Existem diferentes níveis de percepção que precisam ser respeitados. Mesmo assim, é um filme que mostra qual é a sua desde o começo, deixando claro que você está ali assistindo um filme que vai te deixar transformado depois do fim.

Eu mesmo quando assisti ao filme pela primeira vez estava em uma fase bem confusa da minha vida. Muitas mudanças, muitos ajustes, emoções conflitantes, sentimentos feridos. Emoções à flor da pele. Qualquer ser humano pode passar por isso ao longo da vida, não importa a idade. E a coisa mais difícil que temos que fazer quando chegamos em um momento de confusão emocional é justamente nos encontrarmos com o nosso “eu”. Encontrar o nosso eixo emocional. Respirar fundo, olhar para a frente e seguir em frente, confiantes que dias melhores virão.

Quando entramos em depressão, é difícil ver novos horizontes. Nem o nojo, nem a raiva e nem o medo são capazes de gerenciar de forma adequada a vida de qualquer pessoa. Bom, pelo menos sozinhos eles não são capazes. Quando assumem o controle, tentam enganar nossa mente, vendendo momentos de alegria que não existem. E sem a tristeza presente, não percebemos que estamos tão mal emocionalmente. E é aí que tomamos as decisões erradas. Acabamos perdendo oportunidades, desistindo de nossos propósitos, e até fugindo das pessoas que mais amamos.

Além disso, Divertida Mente deixa bem claro para todo mundo que A FELICIDADE COMPLETA NÃO EXISTE, e que a vida é feita de MOMENTOS FELIZES. Somos nós que criamos esses momentos, e a história de cada um de nós é composta pelo conjunto dessas alegrias, que podem ser corriqueiras ou permanentes. Não adianta a gente tentar viver uma vida plena de felicidades e alegrias. Isso não existe. Quem vive sorrindo, sem explorar suas dores e mazelas, tem problemas.

Quem tenta fazer o tempo todo que a tristeza fique longe, tem problemas.

Por outro lado, quando a tristeza assume o controle, é ela quem nos faz compreender que somos humanos. Falíveis. Passionais. A tristeza nos leva ao choro sim, e faz muito bem chorar de tempos em tempos. Desabafar, deixar nossas emoções se traduzirem em lágrimas escorrendo pelos nossos olhos. Precisamos disso para que a gente possa limpar a mente e o coração. Até mesmo para poder respirar depois.

E, o mais curioso disso: é na tristeza que as pessoas que mais amamos aparecem para nos consolar, para nos dar apoio. É a tristeza que nos ensina que perder faz parte do jogo. É superando a tristeza que nos tornamos seres humanos mais fortes emocionalmente, e mais capazes de alcançar a felicidade. Porque é compreendendo a nós mesmos que temos maiores possibilidades de identificar e buscar aquilo que nos faz feliz.

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Eu saí do cinema transformado. Chorei horrores ao longo do filme, e vi pais de família e avós que levaram os netos ao cinema aos prantos. Não porque ficaram chocados com o que viram ao longo de 90 minutos de filme. Mas porque saíram de lá compreendendo um pouco melhor a si mesmos. Talvez agradecidos, como eu fiquei, por terem a oportunidade e o privilégio de assistirem a um produto de entretenimento que oferecia um caráter edificante. Por se sentirem felizes ao perceberem que aquele momento onde as emoções poderiam não estar tão alinhadas ao seu cotidiano era algo absolutamente normal, e que qualquer pessoa poderia passar por esse mesmo processo.

E sair dele naturalmente.

Tecnicamente, Divertida Mente é uma excelente animação. As técnicas de animação em 3D com clara importância dada para o colorido das cenas e dos personagens resultam em um filme visualmente chamativo, porém, muito agradável de se ver. As dublagens tanto em inglês (elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Richard Kind, Diana Lane, Kyle MacLachlan e Bobby Moynihan) como em português (elenco: Miá Melo, Katiuscia Canoro, Dani Calabresa, Otaviano Costa, Léo Jaime e Sidney Magal) foram brilhantemente dirigidas, e a experiência nesse aspecto é plena. Sem falar que o filme tem um potencial de imersão enorme, onde o mesmo não te cansa de forma alguma.

Um destaque especial para a tocante trilha de Michael Giacchino, que mais uma vez dá um show ao traduzir em música toda a sensibilidade que esse filme oferece. Essa trilha sonora atua muito bem como o fio condutor dos eventos da sua narrativa, mas também nos lembra o tempo todo da singeleza que essa história naturalmente possui.

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Divertida Mente é mais um sucesso absoluto da Disney/Pixar. Orçado em US$ 175 milhões e com uma arrecadação de US$ 856 milhões, foi a resposta mais do que necessária para as duas empresas, que foi muito questionada se seria capaz de algum dia entregar um filme que fosse emocionalmente tão impactante quanto UP! – Altas Aventuras (2009). É a nona maior bilheteria da história da Disney, e a décima animação mais vista da história.

Por fim, Divertida Mente é um filme irretocável. É aquele filme para você levar para o resto da sua vida, para ver e rever algumas vezes, de tempos em tempos. É um dos filmes que entram na lista do “moldaram o meu caráter”, mesmo depois dos 30 anos de idade.