Quando Tina Fey saiu do Saturday Night Live, a NBC garantiu que ela não ficaria muito tempo longe. Aliás, Tina saiu com a garantia que sua comédia sobre os bastidores de um programa de TV seria finalmente aprovado pelo canal, algo que a própria NBC havia recusado antes. E em 2006, 30 Rock nasceu, na mesma temporada que outra série do canal falava sobre os bastidores de um programa de comédia ao vivo (Studio 60 On The Sunset Strip), produção de Aaron Sorkin. Quis o destino que apenas uma das séries sobrevivesse.

Eu me lembro da primeira vez que vi 30 Rock. Foi empatia imediata. Liz Lemon nada mais é do que Tina Fey, contando algumas de suas passagens como a primeira e única redatora-chefe mulher do SNL. É claro que tem muito de invenção ficcional, de coisas que só existem na cabeça maluca de Fey e dos demais roteiristas. Mas era impossível não confundir criador e criatura.

Podemos ver até mesmo um pouco do atrapalhado presidente do canal, Jeff Zucker (depois substituído por um mais atrapalhado ainda Bob Greenblatt), e com o passar dos anos, não só a tarefa de satirizar os programas de esquetes cômicas, tirar sarro das celebridades, e mostrar como os roteiristas de TV são um bando de pessoas desajustadas. 30 Rock tinha a nobre missão de fazer rir das próprias desgraças que até hoje envolvem a NBC.

Durante sete temporadas, 30 Rock se diferenciou de qualquer outra comédia exibida na TV porque era feita para quem via e entendia da ferramenta chamada televisão. A série nunca atingiu um grande público (o Series Finale exibido semana passada teve uma audiência de 4.3 milhões de espectadores, a maior das últimas três temporadas… para você ter uma ideia…), nunca foi de apresentar um humor óbvio para a audiência mediana, mas sempre se empenhou em apresentar a alternativa de fazer rir a partir daquilo que a TV apresentava de melhor e de pior. Tina Fey ama tanto a TV que simplesmente homenageou, por diversos momentos, e do jeito dela, o quanto que a TV pode ser fascinante, e ao mesmo tempo, bizarra.

Nunca vi um programa de TV ter tanta coragem para dizer, com todas as letras: “estamos em um canal lixo, somos os piores e não negamos… mas somos livres para falar mal de nós mesmos”. Nem The Simpsons teve tanta criatividade e sagacidade para falar mal da FOX.

Quando 30 Rock fez isso, colocou o pé na jaca de tal forma, que era impossível não aplaudir de pé a coragem e a acidez de Lemon e sua equipe. Jack Donaghy, que foi do céu ao inferno por diversas vezes, ao ponto de ver a sua amada NBC ser comprada pela Kabletown (um conglomerado de canais muito menor que a NBC/Universal). Isso, sem falar que conversou com o símbolo da NBC (um pavão) para pedir conselhos.

Programas fictícios, paródias de reality shows, episódios ao vivo… 30 Rock brincou de fazer TV por sete temporadas, e se deu muito bem com isso. Com uma audiência ridícula, foi aclamada com três prêmios Emmy consecutivos (2007, 2008 e 2009) diversos prêmios do Golden Globes, e se tornou em 2009 a série de comédia mais indicada da história do Emmy, com 22 indicações.

30 Rock zoou a NBC de todas as formas possíveis, e mesmo assim, entra para a história como uma das melhores séries exibidas pelo canal. Foi uma das séries que melhor soube explorar os webisódios na internet, ganhando prêmios por isso. E o mais importante: fez com que todos reconhecessem um talento único para escrever textos de comédia: Tina Fey.

Para quem gosta de TV e de como ela funciona, é triste ver que 30 Rock chegou ao fim. Na verdade, não é tão triste assim. Estou feliz por ter assistido cada episódio de cada temporada de uma das melhores comédias de todos os tempos. E essa é apenas a primeira série de Tina Fey.

Mal posso esperar pelo o que vem a seguir. Mas podemos dizer que o legado de 30 Rock já começa a inspirar outras roteiristas e até mesmo canais concorrentes em tentarem sair das piadas e formatos óbvios para escrever séries de comédia. Isso já pode ser considerado uma grande vitória para uma série que nunca foi líder de audiência. E é mais importante que todos os prêmios coletados ao longo de sete temporadas.

Enfim, só me resta dizer: “Farewell, 30 Rock… and thank you, Tina Fey!”